Querida amiga, querido amigo estivestes em Fernando de Noronha comigo! Tanta beleza. Oxalá sonhes com as maravilhas que viste através meus olhos, creio na transmissão mental, na sintonia fina telepática e na interpenetração das pulsações cósmicas cerebrais entre pessoas com empatias afins!

 

CAMINHOS DE NORONHA, a estadia.

 

{Fotos}

 

17/03/2004 – 4ª Feira: Tenho mais de 65 anos e fui o primeiro a descer na pequena pista do aeroporto de Fernando de Noronha, apertei o passo para sair debaixo do sol forte e adentrar no saguão mais fresco, dei azar!

Sem o ar refrigerado esperado, a atmosfera lá dentro estava pesada. Fui passando rapidinho procurando a saída, mas um jovem em uniforme indicou-me o guichê, apressado fui para lá e a moça me pediu Carteira de Identidade e CPF, prontamente passei os documentos para ela que me perguntou:

− Qual a Pousada de destino?

− Pousada da Helena [tel: (81)3619-1223]

− Quantos dias o senhor vai ficar no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha?

− 10 dias!

− De acordo com a tabela são R$ 229,87. O acréscimo de mais um dia acarretará aumentos maiores, favor consultar a tabela. http://www.noronha.com.br/index1.htm que está sempre variando.

        

Pensei em reclamar, pois na hora senti que perdia minha cidadania, ali não era mais um brasileiro, e sim um turista qualquer no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha(BR). Naquele momento ninguém me perguntou se eu pagava meus impostos brasileiros em dia e minhas obrigações de cidadão brasileiro, ali nada valia eu era mais um turista; mostrasse eu um passaporte e daria tudo no mesmo, em Noronha todos são iguais: Estrangeiros, e todos têm que pagar pra entrar e pra ficar!

Sai dali daquele calorão, pois começara a suar devido ao nervosismo do momento, e do desconhecido imediato, fui procurar então, lá do lado de fora da área do guichê o meu receptivo da Habitat, para minha felicidade a minha receptiva Clívia, é uma nativa lindaça, educada e bem articulada, perguntou pela bagagem e respondi que só a mochila média já nas costas e uma pequena bolsa de mão, satisfeita em nada ter para carregar, mas eu nem deixaria; me encaminhou para um Jeep com ar, onde me refestelei feliz, com a sensação de que pelo preço pago antes de entrar no desconhecido, estava sim a um passo do Paraíso.

 Sai do calorento aeroporto ainda nervoso e a Clívia para me deixar mais à vontade colocou-me ao lado do motorista, bem longe dela é claro e já começou a contar que estávamos percorrendo a menor rodovia do Brasil, a BR-363, sim eu estava no Brasil, será que as coisas aqui seriam diferentes?

Ledo engano, meus olhos curiosos de carioca morador de Copacabana, foram logo me mostrando as mazelas comuns no nosso país, querendo ou não eu sou brasileiro.

As ruas e caminhos que saiam da BR eram todos de terra, olhando para as laterais da estrada asfaltada jamais vi calçadas para pedestres, que disputavam com os carros em alta velocidade o direito de ir e vir. De fato nada mudara, eu estava numa colônia, num enclave, numa ainda antiga Capitania Hereditária, onde os recursos eram todos drenados para o colonizador, neste caso o governo de Pernambuco; nada para a colônia nem para os colonizados.

Eu tinha vindo para Noronha para descansar e apreciar as maravilhas da mãe natureza, com esse pensamento em mente chegamos à Pousada da Helena, lugar acolhedor e bem localizado ali na Vila dos Remédios, pertinho de tudo, do único Correio, do único banco, pertinho da Administração da Ilha e dos bares noturnos da hora.

Agora sim estava me sentindo em casa com tudo à mão. Clívia sentindo a transformação de humor, me contou que a minha agência de contato, a Habitat era ali perto, uma loja logo depois dos Correios, agradeci e entrei no saguão da pousada.

Quem me recebeu foi a eficiente Irene que me mostrou o quarto com banheiro e ar refrigerado, e me disse que a chave nem precisava levar quando fosse sair, pois em Noronha não existe ladrão. Comecei então a acreditar no paraíso perdido!

Arriei a bagagem, vesti uma camiseta e uma bermuda leve por cima da sunga, e fui conhecer a Ilha, consultei meu relógio inseparável, eram 14 horas. Parti dali direto para o turismo do primeiro dia, ainda na saída da Pousada, dei de cara com o Carlos que apresentou-se como guia da minha agência e que ia me mostrar a parte histórica da ilha pelo roteiro chamado Trilha Azul, descemos por uma rua calçada de pedras redondas e escorregadias e fui vendo os Correios, o Edifício da Administração da ilha, o bem cuidado Palácio São Miguel, o escritório da Habitat, o único banco, a bela Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, o caminho para o imponente mas abandonado Forte dos Remédios e o interessante e bem cuidado Memorial Noronhense – Espaço Cultural Américo Vespúcio, onde podemos ver tudo sobre Fernando de Noronha, desde fotos antigas e escrituras, até portulanos que são mapas antigos, e muito mais sobre a história que se confunde com o descobrimento do nosso Brasil.

Dali ainda tive fôlego para ir olhar as praias do Cachorro, do Meio e da Conceição onde cheguei bem perto do Morro do Pico, ponto culminante e dominante da ilha, pode ser visto de quase todos os lugares. (Foi quando comecei minhas fotos espetaculares).

Ainda eram 17 horas, o meu guia ficou na bela praia da Conceição para surfar e lá fui eu para a minha agência conhecer a proprietária a bela Adriana lindinha [Cel (81) 9613-1087]; Apresentei-me e de cara nos demos muito bem, aliás creio ser difícil não se dar bem com a Drica como gosta de ser chamada, ela sabe o que faz e gosta do que faz, além do que é formada em Turismo e não deixa passar um curso qualquer que apareça para ser feito, fez até curso de guia das trilhas de FN além de estar acessível 24 horas por dia, por celular para solver qualquer imprevisto.

Conversamos muito, falamos de tudo, tomei um suco especial por conta da casa e perguntei a ela sobre todos os “tours” existentes e onde poderia fazer um mergulho, já no dia seguinte, não queria perder tempo mesmo e ela falou-me que existem três operadoras na Ilha, a saber: Águas Claras; Atlantis e Noronha Divers. Nossa primeira conversa entremeada por longos e constantes telefonemas obrigou-me logo na decisão de procurar a Atlantis [tel: (81) 3619-1371], porque o nome me atraiu sobremaneira.

Chegando na Atlantis fui bem recebido pela Lizzy que respondeu com prazer e muita atenção todas as minhas questões e ainda mostrou-me que no meu caso seria melhor fazer um Curso Básico de Mergulho, do que simplesmente uns dois ou três batismos, que é como eles chamam o mergulho de até 12 metros, para aqueles que têm pressa, mas que jamais sairiam de FN sem conhecer as profundezas de seus mares.

Concordei com a atenciosa e educada Lizzy, paguei com cheque pré, os cobrados R$ 1400,00 com direito a tudo até carteirinha de mergulhador autônomo e marquei a primeira aula teórica para as 18:30 horas lá na Pousada da Helena.

Às seis e meia da noite, lá me chega o Ricardo, o Urso, como é mais conhecido, apresentou-se como meu instrutor de mergulho mostrando orgulhoso sua carteira internacional assim como o seu rico currículo de cursos feitos e acrescentou que já mergulhara em quase todos os mares do mundo. Dito isso passou-me uma pasta com o logotipo PDIC – Internacional – OPENWater, onde dentro encontrei manual, tabela de mergulho emborrachada e um LOGBook, diário onde se anotam os mergulhos.

Caramba, Exclamei! Puxa Ricardo a coisa é puxada mesmo, hein? Quantas aulas teóricas antes do primeiro mergulho lá no mar? E ele calmo disse-me que às 13 horas do dia seguinte uma 5ª Feira o transporte  já me levaria para a praia para o primeiro contato com o equipamento e com o mar, tudo na parte da praia, no rasinho.

A minha primeira aula teórica foi produtiva, de fato o Urso sabe das coisas e fez-me ficar bastante interessado com a matéria, olhou então no relógio, passavam das 20:30 horas e ele observou que ainda dava tempo para chegar e assistir a palestra lá na sede do Ibama e do Projeto de proteção das Tartarugas Marinhas ou Projeto Tamar (ProTam). http://www.noronha.com.br/index1.htm.

Mais uma vez senti que estava bem hospedado, pois de 5 em 5 minutos passa uma condução a meros R$ 2,00 que leva os interessados para assistirem as palestras no Centro de Visitantes do Projeto TAMAR-IBAMA. Pelo que se paga de estadia por dia na Ilha, o transporte bem que podia ser gratuito.

Chegando lá já entrei atrasado num grande auditório onde são apresentados audiovisuais de grande impacto; antes há uma explanação sempre feita por algum cientista especializado em coisas do mar, se há algum de visita a Ilha é convidado a dar uma palestra, se não, os próprios especialistas do ProTam sempre levam a bom termo dissertações sobre temas variados e ainda matam as curiosidades dos visitantes, e olha que são muitas. O movimento de pessoas era enorme e saí de lá já eram mais de 22 horas, e eu faminto pedi ao motorista que me deixasse num restaurante especializado em frutos do mar, e fui para o Danado do Mar, perto da pousada e muito bom, e com bastante gente apesar do adiantado da hora; pena que a rua de terra batida onde se encontra o citado restaurante, tenha uma correnteza de esgoto a céu aberto.

Saindo do restaurante, ouvi um som vindo lá das bandas da praia, desci a ladeira e dei de cara com o Cachorro, que é uma casa de forró, que fica às margens da praia do mesmo nome. O movimento estava esquentando, muitos turistas em sua maioria estrangeiros, fiquei por ali dançando sozinho e cansado fui dormir já pensando no treinamento do meu primeiro mergulho.

 

18/03/2004 – 5ª Feira – Acordei lá pelas 10 horas, quase nem pego o imperdível café da manhã da pousada, mas mesmo sendo o último fui otimamente atendido, e ainda levei metade de um mamão para o frigobar do meu apartamento, pois mamão é a solução que encontrei para regular meu fluxo intestinal, pois quando viajo fico com prisão de ventre, aí entra o mamão que libera geral e regula a minha eliminação dos supérfluos que gosto seja feita após o desjejum e antes de sair para mais uma aventura; recomendo.

Saí de bermudas, sempre com a sunga por baixo e sandália leve, bastante protegido por um bloqueador solar Sundown de 50 FPS, senão minhas tatuagens vão pro espaço, e fui fazer um circuito nas proximidades. Desci pela praia do Cachorro, atravessei uma picada emaranhada de mato e dei de cara com a praia do Meio, muitas pedras, mas praia bela e interessante, nem falo da limpidez da água o que seria uma redundância em se tratando de Fernando de Noronha.

 Após uma caminhada gostosa descalço sobre pedras e areia, cheguei na maravilhosa e extensa praia da Conceição, onde além de vários surfistas haviam também dezenas de cachorros, deu medo, mas segui em frente e obtive boas fotos principalmente do Morro do Pico e deu tempo para uns mergulhos, longe dos cães é claro. Voltei por uma antiga estradinha de pedras, cujo calçamento foi feito à mão pelos prisioneiros dos tempos da Ilha Presídio, conforme mais tarde vim a saber, e passei pela abandonada Vila da extinta ITALCABLE, cujos velhos casarões viraram cortiço, uma pena o abandono em que se encontram; coisa de Brasil mesmo. Lá pelo meio-dia já estava de volta pra me preparar pro primeiro contato com o equipamento de mergulho e com as profundezas marinhas, minha eterna curiosidade.

13:10 horas, lá chegava o caminhão da Atlantis adaptado para mergulhadores e conduzido pela bela Cynthia uma sino-brasileira gatíssima e muito cordata que me ofereceu a boléia, já que eu era o único brasileiro a bordo, lá de trás cheio de mergulhadores e mergulhadoras calejadas vinha um som tipo Torre de Babel, mas se sobressaia o Inglês primeira língua para muitos e obrigatória segunda língua para os demais, principalmente se viajantes.

Chegando no porto, sou separado dos antigos e junto com o Urso que tomou a boléia, vou para a praia do próprio porto, na Baía de Santo Antônio, para iniciar meu treinamento especial de um só, beleza! E uma dúvida na minha mente se instalou: Será que a Cynthia me colocou na boléia porque havia a vaga ou foi pra me separar dos calejados mergulhadores?

- Coisas de neófito...

Das 13:30 horas até às 17 horas toma explicação de cada peça do equipamento, toma mergulho, toma natação só com o equipamento básico ou seja pés de pato e snorkel com máscara, o professor quer saber qual o meu potencial para não perder tempo com coisas que já sei. Me saio bem e toma explicação agora dentro d’água, primeiro no raso como na foto, depois lá nos 4 metros; mas tranqüilo do que conheço e confiante nas habilidades do Urso, instrutor dos 7 Mares, saio-me bem e recebo até um elogio: Puxa vida Manny! Tu com 65 anos tá muito bem tanto fisicamente quanto espiritualmente, muita calma e muito equilíbrio mostraste, vais te sair bem no curso.

 Nem ele sabia que ali comigo aprendiam a mergulhar meus amigos e amigas virtuais ou não, seriam mais de 700 aprendizes, mas só um pagava tudo.

Hora de partir, reclamei da visibilidade, não enxergava nem a 3 metros de distância, mas foi tudo bem e todo enrugado, não pelo frio da água cuja temperatura média é de 24° C, mas sim pelo tempo de permanência dentro da dita cuja, lembrei-me então da idéia fixa que tenho sobre evolucionismo, de fato a gente se sente tão bem dentro da água que a sensação que temos é de que somos velhos amigos, ainda mais quando estamos usando equipamentos para mergulho e estamos lá no fundo, o pouco que vi então já me deixou firme na convicção de que escolhera o esporte certo e o lugar ideal para aprendê-lo.

Chego na pousada da Helena, tomo um belo banho e corro pra lanchar ao lado na Lojinha da Mãezinha, vou saindo e já lá está o Urso com sua inseparável pasta e o sorriso vermelho do curtido do sol de Noronha, como ele é branco demais, a cor dele não é bronze e sim vermelho-camarão, pode?

Aula teórica da melhor qualidade, pois agora ele sabia do meu potencial e já entrava direto nos pontos mais importantes, esperto o Ricardo que me liberou mais cedo e assim pude chegar ao ProTam, desta vez antes de começar às 20:30 horas, e assisti a tudo desde a apresentação de abertura até o áudio-visual cujo tema que muda à cada dia, e hoje era sobre tubarões, melhor pra mim que sabia que um dia iria mergulhar perto deles nas profundezas do mar de Fernando de Noronha.

Lá pelas 22:20 horas estava desta vez no simples, mas simpático Restaurante da Edilma, ressalto que fiz amizade com o Márcio, motorista de uma Van que já me levava e trazia pro ProTam e que ficou de à cada dia me indicar um restaurante para o jantar.

Barriga cheia e cansadão nem fui pro Cachorro, bati um papo com alguns hóspedes e fui direto dormir, pois já tinha agendada prática de mergulho ainda na praia desta vez para às incríveis 07:00 horas da matina.

 

19/03/2004 – 6ª Feira – Acordei às 7 horas e nem tomei café e às 07:30 horas já adentrávamos eu e o Urso nas águas movimentadas e cheias de sedimentos da praia do Porto, eu podia ver o movimento dos barcos especiais que levavam os mergulhadores, ansiando pela minha primeira vez; e toma explicação sobre os equipamentos, e toma afundar e fazer os procedimentos e toma repetir os procedimentos, sinais, tirar a máscara embaixo d’água, tirar o segundo estágio do regulador de ar da boca, colocá-lo, tirar o segundo estágio outra vez e por sinais mostrar que meu ar acabou e saber como passar e respirar  pelo segundo estágio reserva ou Octopus, tudo isso aos 3 metros de profundidade, a prática no raso é benéfica pois me acalmará quando nas profundezas, me explica o Urso mais tarde e ainda acrescenta que jamais mergulhe sozinho, pois a segurança está no dupla, a pessoa que mergulha contigo e vice-versa. Mais uma vez reclamo da visibilidade agora um pouco melhor, o mar estava menos mexido, mas não passava de 5 metros. Terminada a aula, o Ricardo me confidenciou então antes que eu subisse no caminhão, que: - Amanhã a aula será às 13:30 horas e terás uma surpresa!

Pela primeira vez cheguei cedo na pousada e lá pelas 13:30 horas fui almoçar no Flamboyant, diferente, comida caseira a kilo num precinho baixinho R$ 10,00. Foi então que num outro pavilhão não longe do restaurante vi a antena e a placa dizendo: Aqui Internet! Rapidinho fui pra lá em entrei na Grande Rede, mandei via e-mail minhas primeiras impressões para os quatro cantos do mundo, o que estava sentindo e expliquei que todos os amigos estavam ali comigo, curtindo as maravilhas noronhenses. Dali voltei para a pousada e caí na cama que ninguém é de ferro.

18 horas já estou de pé e banho tomado o Urso deve estar chegando e mais uma aula teórica interessantíssima, com o convite a tanto desejado do primeiro mergulho, chamado checkout nas profundezas dos 12 metros, pra começar, e com saída ao meio dia de amanhã, Sábado.

Mais uma ida ao ProTam, dessa vez conferência ótima sobre Tartarugas Marinhas e em seguida áudio-visual perfeito, também! O Projeto Tamar é principalmente isso Tartarugas, no que são especialistas.

Á noite fui pra Pizzaria dos Remédios, comi uma pizza de frutos do mar deliciosa e descobri que lá onde se apresenta o único artista de Noronha que só canta e fala das coisas de Noronha, é uma preparação para o Forró do Cachorro, e foi o que fiz, e lá pelas 24 horas lá tava eu no Cachorro dançando com o pessoal feminino, agora já meu conhecido os forrós de duplo sentido tão comuns no Nordeste do nosso querido Brasil.

 

20/03/2004 – Sábado –  07:30 horas fui testar o Planasub com o Kadu; [tel: (81) 3619-1293], uma prancha rebocada pela corda por uma lancha, onde vais agarrado com as duas mãos e podes fazer mil piruetas tanto na superfície quanto nas profundidades é só inclinar a prancha, ótimo programa. Recomendo!

Cheguei correndo na pousada e tomei somente um iogurte, pois a tensão era enorme, queria estar de barriga vazia e em boa forma intestinal, afinal seria o primeiro mergulho autônomo da minha vida!

Com o Urso só inspecionando, fiz todos os procedimentos ainda embarcado, chequei todo o equipamento, vesti a roupa úmida e curta de ‘Neoprene’ de 3mm, a água é quente por lá; o instrutor recomendou 6 kg de lastro, nos exercícios anteriores havia usado 4 kg, mas obedeci, tudo pronto, o barco parou na profundidade de 12 metros, outros no barco iam para outras funduras, só eu e o Urso pulamos ali naquela água.

Nem senti medo, fiz os procedimentos corretos, fui equalizado a pressão dos ouvidos, no princípio a dor foi tão forte que quase volto apavorado para a superfície, mas o Urso, que parece anteviu isso, gentilmente mas firme, pegou no meu braço e por sinais mandou que eu equalizasse bastante, e assim fui afundando até chegar a 30 cm do fundo arenoso do mar.

Que choque fantástico quando me senti inteiramente absorvido pelo líquido de onde viemos, tal qual o líquido amniótico, me senti de fato em casa. Nada sentia, sensação nenhuma, medo, tristeza, alegria, o que sentia era só felicidade, e maravilhado agradeci à Deus ter-me permitido aquele momento especial.

Não havia som era só tranqüilidade e paz, os cardumes passavam por nós como se fôramos habitantes do fundo do mar também; tartarugas nem se dignavam olhar para nós, as arraias negramente enormes passavam tirando fininho de nós e à nossa frente entravam na areia branca talvez brincando de esconde-esconde, talvez se camuflando de algo que sentiam predador.

Acordei com uma cutucada do Urso, que por sinais pediu-me para consultar o console; ver o tempo, a quantidade de ar e a profundidade, e me explica mais uma vez que deveríamos subir quando o manômetro estivesse marcando 50 bar. Ato contínuo me indica a direção e lá vamos nós, braços cruzados próximos ao peito, pernas encolhidas tipo rã e balançando as nadadeiras num movimento suave a gente como que deslizava num fundo do mar onde a visibilidade era de mais de 50 metros.

Ali estava a surpresa prometida, visibilidade total, e foi o que mais me maravilhara, pois com 65 anos minha visão não é mais a mesma, mas com a máscara de mergulho e a refração das águas, eu enxergava como menino, e como tal me deslumbrava com um peixe que passava, com uma formação rochosa de forma interessante. E por muitas vezes o Urso tava lá ao meu lado me orientando e me chamando a realidade, ante o embasbacado, estupefato e pasmado aluno-criança em seu primeiro mergulho nas profundezas do mar de Fernando de Noronha.

Consultar e equalizar vira automático; para mim haviam se passado horas, mas os marcadores diziam 50 bar e o relógio 55 minutos, que podia fazer? E fiz o sinal de subir, lentamente observado pelo instrutor fui subindo após as borbulhas que se iam para a superfície á minha frente como me havia sido incansavelmente ensinado; Primeiro as borbulhas depois o mergulhador, isso se vais até uns 12 metros de profundidade, mais que isso, vais subindo e fazendo umas paradinhas de 1 minutinho de 5 em 5 metros para descompressão, como poderia me esquecer? Em maiores profundidades há paradas de segurança de até 5 minutos.

Subi legal, ao acercar-me do barco que não estava longe, pois o Urso havia seguido a direção para onde o barco havia seguido, fiz todos os procedimentos apreendidos, primeiro os 6 kg de lastro, os quais entreguei ao sagaz comandante do barco, depois as nadadeiras, e subi com o restante do equipamento ante aplausos da tripulação e dos mergulhadores presentes na embarcação especial.

Pela primeira vez e ainda maravilhado pelo acontecido que teimava em não sair da minha visão, me foram oferecidas as comidinhas do intervalo entre um mergulho e outro, biscoitos doces e salgados, é claro que preferi os doces, água mineral e refrigerantes, claro que preferi água mineral, nada de gás no meu estomago.

 Teremos uns 30 minutos de descanso e iremos para o chek-out final, onde nos mesmos 12 metros de profundidade me mostrarás tudo do que és capaz e se de fato apreendestes o básico para seres um OpenWater.

Estava tranqüilo, havia voltado a realidade, um mergulhador europeu, se afastara de nós e lá a favor do vento dava as suas tragadas num cigarro, o único num universo de 25 pessoas entre, instrutores, fotógrafos e tripulação e mergulhadores de ambos os sexos. O tempo foi passando e nem nervoso estava, quando o Urso me chamou para o teste final, estava realmente tranqüilo. Desta vez mais que da vez primeira, chequei todos os meus equipamentos, fiz todos os procedimentos apreendidos,  caminhei até a borda do barco, com a mão esquerda segurei a fivela do cinto de lastro de 6 kg, o mestre tinha razão, e com a direita palmeei o segundo estágio e com os dedos amparei a máscara e dei o passo de gigante, o meu instrutor só observava e nem sinas fazia, era meu momento.

Fui descendo lentamente e equalizando, dando as costas para o sol para melhor orientação, mergulhei penetrando célere nas profundezas do Atlântico Sul, agora meus ouvidos foram mais meus amigos, minha cabeça não sentia dor, tudo era prazer e alegria, mais uma vez maravilhado como se fora a primeira mergulhada, encontrara a felicidade total e completa no silêncio entremeado por quase silenciosas borbulhas e já me sentia parte da ictiofauna local. Após uns 10 minutos o sinal de parada num local de fundo arenoso para os procedimentos antes ensinados, e toma tirar e colocar a máscara, fazendo o procedimento de retirar a água que teimava em permanecer obnubilando minha visão; toma de tirar o segundo estágio, e toma de fazer sinal de falta de ar comprimido e pedir por sinais o Octopus do dupla. Tudo perfeito pelo meu lado, agora a coisa se inverteu, eu era o instrutor e o Urso o aluno, e lá fui eu repetir mais uma vez todos os procedimentos nas profundezas, sem poder por preciosos minutos, apreciar a beleza da natureza submarina; mas sabedor de que o que fazia iria me dar satisfação e prazer seguro pelo resto da minha vida, eita!

Parece até que tô falando em sexo! Termos como penetrar nas profundezas e procedimentos de tirar e botar, são meios eróticos por suposto.

Estava feliz então; Felicidade que trago até hoje dentro do meu peito e na minha memória, de fato mergulhar é como um orgasmo, tu sentes lá dentro da mente, espírito e coração, um prazer inenarrável diferente até do teu parceiro ou parceira no caso teu dupla que apesar de estar contigo no fundo líquido não vê nem sente as mesmas coisas que sentes. Cada indivíduo é um ser especial e em sendo assim, tem sua sensibilidade diferente.

Graças à meu Deus e minha perseverança unida ao corretíssimo método de ensino PDIC do instrutor Ricardo, o Urso; fui aprovado com louvor no primeiro de uma série de testes práticos de mergulho, mas como fui avisado anteriormente o teste teórico-escrito seria eliminatório também.

Nem me lembro como cheguei à Pousada da Helena, nem como saltei do caminhão especial, estava de fato embriagado de emoção e prazer, sorte que havia marcado (tem que marcar com antecedência), para ás 20 horas o famoso jantar de frutos do mar da Pousada Zé Maria que é o melhor da Ilha, caro R$ 50,00 por cabeça, mas excepcional! Recomendo.

Fiz amigos lá no jantar, pois estava bastante receptivo e conversei é claro com outros mergulhadores eu ainda não o era, mas já me sentia como tal. Ousei até tomar uma caipirinha que recomendei fosse de aguardente, sou brasileiro e dou valor aos produtos da terra, na verdade com os 50 reais tens direito a tudo exceto bebidas engarrafadas, pois até refrescos de frutas tropicais estão incluídos. Depois uma jarra de suco de maracujá para melhorar e minorar minhas emoções e pude curtir o único cantor noronhense (criado, mas não nascido em Noronha), versejar e cantas coisas dessa Ilha tão especial.

Peguei uma carona pra casa, com mergulhadores amigos e já bem tarde e muito feliz dormi o sono dos vencedores.

 

21/03/2004 – Domingo – As 8 horas da matina Ilhatour terrestre com o grande Fábio Torres [tel: (81) 3619-1959], que parava a cada quilometro, explicava cada paisagem, orientava cada passageiro, éramos 10 no jeep especial com ar; o Fábio de fato é mesmo uma pessoa talhada para o trabalho ao qual se especializou, ilhéu tisnado pelo sol inclemente, jamais perde aquele sorriso de felicidade do rosto amigo, nada entende de Inglês ou Espanhol, mas tenta de todas as maneiras ensinar aos turistas estrangeiros o que é o quê em Fernando de Noronha e se sai bem, com ressalvas é claro, soube isso porque por várias vezes tive de me intrometer como interprete tanto para um par de lindas e saradas norueguesas, assim como para um casal de mexicanos.

A dupla Fábio e Enock é o orgulho da Ilha, de fato eles são impagáveis e prestativos, sempre o melhor ângulo para as fotos, conforme podes ver nas nossas fotos, alegres e orientadores no Restaurante do Biu, e extremamente conhecedores das coisas, histórias e lendas da Ilha, os quais contam entremeados com graça e momentos de emoção. Recomendo.

Dei sorte hoje, é um Domingo no qual o padre veio do Recife para celebrar a missa mensal, e às 20 horas estou lá entre os fiéis, agradecendo ao dono da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, nosso Deus de misericórdia, estar aqui no Paraíso e poder com saúde usufruir o melhor que a Ilha pode oferecer. Antes do começo da liturgia o Pároco fez questão de chamar todos os visitantes e se apresentar para as outras pessoas presentes e vi ali gente de todas as partes do nosso Brasil e do exterior, coisa realmente linda e divina.

No final da missa já cochilava, havia sido movimentado meu Domingo, aliás, toda a minha estada, o corpo já pedia descanso tanto físico quanto mental; passei pela pizzaria que é ao lado da Igreja, comi por lá rápidos duas fatias e rumei para a cama, não antes de  dar uma ligadinha pra casa pra saber como todos iam. Só para entender como entra dinheiro em Noronha, mais uma vez as pessoas que estavam na Pousada já eram outras, tudo mudava de dois ou até todos os dias, inclusive os hóspedes.

 

22/03/2004 – 2ª Feira – Acordei de bem com a vida, fiz um ótimo desjejum e fui caminhar pelas cercanias e visitar lugares ainda não visitados, o Forte N. S. dos Remédios é uma visita imperdível, apesar do descaso quase total, tirantes que seguram a nossa bandeira estão arrebentados, mato e ervas daninhas tomando conta de tudo, muros desmoronados, falta de sanitários; Mesmo assim dá para sentir o poderio português de antanho, o mau uso ainda não conseguiu destruir a beleza do forte que domina mesmo toda a parte do Mar de Dentro da Ilha; explico: a parte do mar que fica entre a Ilha e o continente sul-americano é chamada Mar de Dentro e a outra parte que fica entre a Ilha e o continente Africano é chamada Mar de Fora. Reclamo do descaso pois ainda não me recuperei totalmente dos R$ 28,20 que pago por cada dia que aqui permaneço.

Fiz uma visita bastante demorada no Memorial Noronhense, para conhecer sua história de sofrimentos e glórias, tirei fotos com a Sandrinha no Forró do Cachorro e lá pelas 16:30 horas fui almoçar no restaurante panorâmico Visual do Porto, de onde se descortina quase toda a parte da costa do Mar de Dentro, complementando a vista do Forte.

Cheguei correndo pois já eram quase horas do mestre chegar, e o discípulo não pode deixar o mestre esperando, e às 18:30 horas em ponto, lá estava o Urso e sua pastinha com mais perguntas que respostas pra me fazer, seria minha penúltima aula teórica antes do teste escrito final, aula puxada com estudo da Tabela de Mergulho e uma visão de tudo o que já havia estudado e algumas visões novas sobre atitudes do mergulhador autônomo. Já passavam das 22 horas quando o incansável instrutor me deixou com a cabeça a mil e se foi marcando para o dia seguinte mergulho final de checkout, e a última aula antes do teste escrito. Fiz um lanche rápido na Lojinha da Mãezinha que é do lado da Pousada e caí de cara nos livros e tabela, até o sono me vencer e nem me lembrando de um compromisso antes assumido.

 

23/03/2004 – 3ª Feira – 05:00 horas da matina e quase derrubam a porta do meu quarto, era o pessoal que me convidara para ir pro Mirante dos Golfinhos. Ainda sonolento, rumamos para lá, nem lavei o rosto direito, num jeep alugado, a 13 reais por cabeça, éramos 3 em cada veiculo, mais o motorista, e o comboio era de 4 viaturas no total, e lá longe quase no final da Ilha, chegamos para observar a chegada dos famosos golfinhos rotatores, fomos por demais felizes, vimos mais de 200 passarem e saltarem, é claro que usei um binóculo emprestado (tenho que comprar um novo, potente e pequeno), e usando minha lista de amigos e amigas virtuais ou não, dei nomes ao danadinhos, numa velocidade igual aos saltos que eles davam na água, uma belezura de assistir, parece que eles sabem que estamos ali só pra os ver, mesmo que de muito longe, sem poder sequer descer para a praia, o que é expressamente proibido.

Satisfeitos com o que vimos, voltamos famintos para a Pousada para o desjejum, após a barriguinha cheia fui pra cama completar o sono e acordei antes das 13 horas, pois teria que ir mergulhar, era mais um checkout final. Tudo correu como das outras vezes só que como cada mergulho é diferente, nesse eu era o guia, e o mestre Ricardo me dera o roteiro a seguir numa profundidade que variava de 12 a 16 metros lá fui eu costeando barrancos até um local por ele a mim descrito, uma pedra em forma de elefante.

Dali ele me mostrou uma correnteza que passava à nossa frente, levando cardumes, sedimentos e outras coisas visíveis e invisíveis numa direção para mim desconhecida e numa velocidade assustadora, como se um rio dentro do mar fora. O Urso então fez sinal para que eu marcasse no meu relógio 10 minutos na correnteza e segui-o entrando na dita cuja. Meu Deus! Que velocidade gostosa, o mestre abriu os braços como se fora o super-homem eu fiz o mesmo, voava com certeza, passava entre cardumes imensos que também iam para uma única direção e sorria muito ao lembrar-me do filme Procurando Nemo, senti a mesma sensação com certeza.

É aquilo mesmo, a força das águas te leva de roldão; à frente uma âncora com uma parte pra fora do fundo do mar, o instrutor segurou-se nela e o seu corpo levado pela direção da corrente, o fez ficar de rosto voltado para mim, numa incrível e inesquecível movimento corporal de rara beleza plástica. Por tudo admirar aliado á surpresa de cada movimento, ia passando do momento de parar, mas consegui agarrar-me também à âncora, e consultei o relógio, ainda tínhamos 5 minutos do prazer da velocidade submarina.

Após o sinal do instrutor, nos largamos do apoio e juntos fizemos mil piruetas no fundo do mar e ainda vi algumas tartarugas passando rapidinhas, como no filme, que maravilha. Mas o tempo urgia estava na hora de emergir; fiz o sinal combinado e lentamente inclinamos nossos corpos para cima e para o alto como diria o Super-Homem.

Afloramos felizes saindo da corrente que é somente submarina, pois na superfície ficamos flutuando com os coletes inflados, praticamente no mesmo lugar. O nosso barco estava muito longe de nós e o Urso teve que usar um tubo inflável plástico, comprido e amarelo que serve para chamar a atenção do Comandante da embarcação. E ali ficamos conversando, eu perguntando tudo avidamente e ele de ótimo humor e todo sorrisos respondendo com autoridade, já que calejado de surpreender seus alunos com aquela verdadeira maravilha.

Estás aprovado meu caro Mannyboy, agora é te preparares para a prova teórica.

Aprovado com louvor, não cabia em mim de contentamento, não estava feliz, dali em diante sou feliz à cada momento da minha vida, minha felicidade agora é permanente e total, encontrei um outro mundo, o verdadeiro paraíso e desde então a Felicidade mora em mim. [lá no final, mostro minhas impressões escritas na noite da minha aprovação]

Cheguei na pousada cansando e sorridente e mal tomei meu banho e um cafezinho e já lá estava o incansável instrutor Ricardo, para ministrar a última aula, insistência no ensino da Tabela de Mergulho e as últimas explicações quanto a prova de conhecimentos teóricos.

Ás 20:30 horas estou lá eu no Projeto Tamar, o tema Tartarugas, muito interessante e explicativo e razão principal do Projeto.

Ás 23:00 horas jantar no Restaurante Tribojú, meio caro, comida boa e um show interessante. Voltei pra pousada e ainda dei uma caminhada até o Cachorro, mas meu corpinho pedia cama e fui dormir feliz.

 

24/03/2004 – 4ª Feira – Dormi demais, acordei eram 10 horas da matina, perdi o desjejum, mas fiz um lanchinho leve na Lojinha da Mãezinha, me preparando para fazer a Trilha Atalaia/Caieira de uns 8 km, por 30 reais, combinada no dia anterior lá na sede do ProTam.

A ilha é muito linda, o guia conhecedor profundo da região, nos dizia nomes de cada árvore, arbusto, pássaro ou inseto; ao longe ouvimos latidos enraivecidos e o guia nos contou que haviam cachorros sem dono vagando pela Ilha e que estava se tornando um perigo para àqueles que gostavam de se aventurar sozinhos nos caminhos solitários que cortam o âmago da Ilha.

Voltei rejuvenescido pela caminhada tranqüila em meio à mata virgem, e ainda a tempo de dar uma última vista d’olhos nos meus escritos e lá fui eu para a sede da Atlantis, eram 19 horas e a prova começou no tempo marcado com uma hora e meia de duração. Terminei com quase 60 minutos e meio nervoso fiquei observando o Rick analisar erros e acertos e no final com um largo sorriso ele falou que eu não o decepcionara e que estava aprovado.

Agora sim, era um Mergulhador Autônomo PDIC – Internacional – OPENWater. Aproveitei o regozijo para convidá-lo para jantar, mas o caminhão dos mergulhadores já estava com o motor roncando chamando o Urso, para as suas obrigações de mais um mergulho noturno.

Já eram 22:00 horas, já que não dera tempo para comparecer ao ProTam, fui para o Restaurante do Nascimento, onde jantei uma peixada maravilhosa e merecida.

 

25/03/2004 – 5ª Feira – Acordei tarde outra vez, meu corpo já sentia a semana cansativa, fui até a sede da Atlantis, acertei minha conta e marquei dois mergulhos, agora como autônomo, para a manhã do dia seguinte.

Como mergulhador e mais tranqüilo observador, na hora de entrar no barco especializado, vi um homem como que contando o movimento e anotando numa prancheta, perguntei pra alguém da ilha e a resposta a mais curta possível, nós pagamos R$ 10,00 por cada mergulhador que embarca. É mole? Na verdade se vais para Noronha mergulhar, pagas além dos R$ 28,20 por dia, mais 10 reais de taxa de mergulho, uma loucura total, pois não há contrapartida, pelo menos no quesito conforto, pois as ruas são esburacadas, com lama quando chove, e com verdadeiras nuvens de poeira quando o sol inclemente a tudo seca e pasmem; até luz faltou umas duas vezes nos 10 dias que aqui fiquei.

Eram ainda 13:30 horas quando almocei no Sabor da Ilha e fui Internetar, mandar as novidades para os amigos e amigas e ler meus e-mails. Me animei, voltei para a Pousada da Helena, botei sunga e camiseta e fui caminhar lá pela Praia do Meio, onde ainda bati outras fotos do Pico, dessa vez vi poucos cachorros.

Voltei quando o sol já se punha, tomei meu banho e fui caminhando para o ProTam, ainda era cedo e fui devagar, já que são bem uns 5 quilômetros da Vila dos Remédios até lá.

 

26/03/2004 – 6ª Feira – Acordei cedinho, fiz um leve desjejum e fui lá fazer meus dois mergulhos como credenciado, agora livre, leve e solto, tudo isso no meio dos cascudos, e senti-me um deles tanto que antes já havia contratado um técnico em filmagem submarina que me rendeu uma fita de vídeo dos bons momentos no fundo do mar de Fernando de Noronha na profundidade de 25 metros; uma raridade e a coroação de uma experiência inesquecível, tudo por apenas R$ 110,00.

Foram dois mergulhos especiais, exercitei tudo o que duramente aprendi, deliciei-me com as belezas da fauna e da flora submarinas, o mergulho foi em outros pontos ainda desconhecidos por mim, o de 25 metros foi maravilhoso e desafiador, mas o seguinte de 12 metros, para mim foi mais gratificante, pude ver tartarugas, muitos cardumes de peixes grandes e coloridos, e até tubarões, sem falar nas arraias gigantes que tive o deslumbre de ver. Talvez porque a claridade estivesse maior, pois o sol estava bem mais forte e era quase meio-dia.

9 dias passados e já me sentia em clima de despedida, mais por cansaço diria do que por vontade de ir-me embora.

Almocei no Restaurante da Edilma, aquela posta enorme de peixe frito com arroz e uma saladinha de tomate e cebola, coisa cara na Ilha. Em seguida fui Internetar isso eram umas 14 horas, e voltei para a pousada para aquela dormidinha básica dos vencedores e realizados, e ao passar pelo varandão com suas redes e cadeirões, já eram outras caras, outros hóspedes, o que me mostrava diariamente como é incrível a rotatividade de pessoas e o montante à cada dia faturado, tanto na Pousada quanto pela famigerada Taxa de Preservação Ambiental.

Acordei tarde, nem pude ir ao ProTam, eram quase 22 horas e fui comer uma pizza esperta na Pizzaria dos Remédios onde encontrei felizes mergulhadores que estiveram comigo na manhã e juntos saboreamos a pizza de frutos do mar , ouvindo o excelente cantor noronhense, e fomos pro Forró do Cachorro como sói acontecer nas noites de Fernando de Noronha. Nem fiquei muito tempo, pois o céu começou a chorar, talvez por saber da minha iminente despedida, e rapidinho fui embora descansar pois Sábado ainda tinha tempo pra fazer alguma coisinha antes de partir ás 17 horas.

 

 

27/03/2004 – Sábado – Noronha chora, chove forte, estou indo embora, nada de caminhadas, ou outros folguedos marítimos, cancelei o PlanaSub que havia marcado e fiquei de bobeira até a hora do transporte da Habitat vir me buscar.

São 16 horas, o avião está partindo mais cedo, adeus Fernando de Noronha, parto daqui felicíssimo comigo mesmo e contigo e sei que voltarei um dia para adentrar-me no teu âmago aconchegante, morno e macio, além de descobrir e explorar o Paraíso mais uma vez.

 

-:F i M :-

 

 

Meu curso de mergulho em Fernando de Noronha!

(este foi escrito à noite após minha aprovação)

 

Foram 4 noites de aulas teóricas ali entre as redes do alpendre da Pousada da Helena, das 18:30 até passar um pouco das 20:30 horas, nem deu direito pra assistir todas as palestras com vídeo lá no Projeto Tamar, mas tudo bem, aprendi tudo e nos exercícios dentro da água do mar na praia do Porto, entendi tudo desde a checagem até o mergulho aos 5 metros.

Tava feliz, já era um quase mergulhador OpenwaterARRASO, tava tudo perfeito demais.

Á noite anterior ao dia de fazer meus primeiros mergulhos valendo eliminação (checkout), fui dormir feliz pensando no amanhã, quando afinal iria conhecer as profundezas decantadas por todos das belezas do mar de Fernando de Noronha.

Ás 7 horas já estava tomando um desjejum leve, estomago vazio ordenou o meu instrutor, Ricardo, o Urso, professor de mergulho da Atlantis de Noronha, seguia cegamente tudo o que ele falava. Às 07:50 horas a viatura dos mergulhadores me pegou na porta da pousada e eu cheio de orgulhosos sonhos entrei nos assuntos dos veteranos, mais ouvindo que falando é claro, aliás só ouvindo devo admitir.

Naquele dia meu primeiro mergulho matinal em Fernando de Noronha, a 25 metros de profundidade, lá nos Buraco das Cabras; meu Deus que loucura! Visibilidade total pra mais de 50 metros em todas as direções, água morninha, cardumes mis, arraias, tubarões, tartarugas e lagostas me levaram ao delírio, meu amigo e professor Ricardo, o Urso havia cuidado para que antes do mergulho eu conferisse sempre o manômetro e o relógio, pois mesmo se houvesse ar comprimido nós deveríamos subir após 50 minutos de fundo, fiz tudo certinho e recebi elogios do mestre e dos outros mergulhadores veteranos.

Subi no barco, e seguindo os outros fui comer biscoitos doces e beber água mineral, e bater papo das belezas que presenciei, pois não mergulhara no mesmo lugar que eles.

 Quando eu estava todo animadinho, o Urso mandou-me preparar o equipamento para o segundo mergulho, na ânsia de jogar mais conversa fora, afivelei o cilindro no colete equilibrador e o conectei ao aparelho regulador, chequei o ar, tava tudo nos conformes e voltei rapidinho para mais biscoitos, água e papo. Uns 60 minutos depois o segundo mergulho autônomo da minha vida, tudo certinho, tudo checado, dei meu passo de gigante e seguindo a orientação do meu dupla, o Urso, afundei em seguida, pois o mar tava picado, fui equalizando e indo atrás dele que rápido chegou aos 15 metros de fundo, quando cheguei perto dele chequei meu manômetro; Uia! Em vez do manômetro mostrar 200 bar tava lá ponteiro apontando para 30 bar, na pressa do papo, EU HAVIA conectado um cilindro já usado, pois nem atentara para o lacre de fita cola. Até hoje me lembro da cara de tristeza que o Urso fez! Mas fazer o quê? Eu já estava aprovado, era então um mergulhador autônomo, OpenWater!

Aprendi com o erro, jamais descurarei dos cuidados básicos que um mergulhador ARRASO deve ter.

 

(¬: fale com o Mannyboy :¬)