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Como tudo aconteceu :¬)

Mannytag: “Não tem explicação. Quem inspira o peregrino é seu próprio coração”.

Em meados de dezembro de 1998, estávamos vindo do níver da Gláucia27 e conversando sobre minha recente visita de seis meses ao Canadá, na sempre vã esperança de aprimorar o meu English, quando a Luciene (nickname A-Carioca), de repente exclamou: - Puxa, Manny! Devias procurar alguma coisa mais desafiante. Já que estudastes Teologia, acreditas realmente em Deus, e gostas de viajar, pensaste alguma vez no Caminho de Santiago?

Caiu dentro de mim como água para um sedento tal idéia, e no âmago do meu ser já havia uma sementinha lá plantada; nem sei por quem nem como; que de pronto começou a germinar e respondi: - Sabes que já havia pensado nisso algumas vezes? Desta vez vou deixar germinar mesmo e ver que frutos vão surgir da árvore que crescer.

Não posso negar que existiu alguma coisa de Paulo Coelho nesta história, já que como amante da leitura, li quase todos os livros deste naturalmente famoso escritor contemporâneo, que escreve e nos fala com frases e palavras normais do dia à dia acontecimentos reais ou nem tanto, mas que deixam o leitor confortavelmente entender tudinho, sem recorrer aos Aurélios da vida.

Fácil compreensão para mim é o segredo do sucesso de alguns poucos escritores de hoje, já se lá vai o tempo das leituras de rodapé ou consultas no final do livro. Nada contra os críticos, mas a voz do povo ainda é a voz de Deus, e o nosso Paulo Coelho merece a fama que tem.

Mil coisas, boas em sua grande maioria, aconteceram comigo e aquela sementinha germinou, criou raízes e nos finais de 1998, em Sampa, conversando com uma amiga chamada Patrícia (nickname Noinha), ela puxou um assunto sobre o Caminho e contou-me de uma tia que estava se preparando para percorrê-lo. Pedi o telefone da sua parente e liguei assim que cheguei no Rio, ela passou-me um site: http://www.caminhodesantiago.com.br e navegando encontrei links, a curiosidade foi aumentando e foi quando tornei-me um aspirante a peregrino, e de fato realmente decidi fazer o Caminho de Santiago, a famosa "Ruta Jacobea" e optei pela distância de quase 850 km, desde San-Jean-Pied-de-Port na França, até Santiago de Compostela, na Espanha.

Em resposta a um e-mail, o nosso grande amigo José Roberto deu-me as direções: Mannyboy! - Liga primeiro para 2491-5285 e fala com a Clarice Ferte que ela vai te passar todas as dicas. A Clarisse Ferte é gente boa mesmo e como eu queria saber mais detalhes, passou-me o telefone da Cida, que é a Diretora Social da Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago, AACS-BRASIL e pelo telefone 2508-7295, a Cida já me convidou para comparecer numa reunião que é sempre na primeira Sexta-feira do mês.

Dito e feito e no dia 03/Set/99, primeira Sexta-feira do mês, fui para a casa de Espanha, na rua Vitório da Costa, 234 – Humaitá – Rio – RJ, para minha primeira reunião dos aspirantes a peregrino com a sapiência dos reais peregrinos, quando eles passam toda a experiência vivida y otras cositas mas!

Um peregrino que já percorreu mais de uma vez "La Ruta" chegou com uma mochila de 60 litros completamente montada e como num interessante "strip-tease" nos mostrou a parafernália que precisaríamos para o desafio almejado.

Todos os aspirantes fizemos logo uma lista de tudo o que ele tirava daquela cornucópia mágica, as perguntas choviam e ele impávido, a todos respondia com a calma de quem já caminhou consigo mesmo por milhares de quilômetros, e se conhece bastante.

Sei, sinto e tenho certeza absoluta que não irei sozinho, Deus estará sempre comigo como sempre esteve juntinho de mim nos meus 62 anos. Em minhas meditações nos quarenta dias que estimo caminharei, lerei mais de uma vez os nomes da lista de amigos e amigas, reais e virtuais, que levarei no bolso esquerdo que fica bem em cima do coração, todos eles estarão sempre comigo em pensamento e dando-me força para chegar a bom termo minha jornada de peregrino.

Saí dali, cheio de coragem e determinação e na segunda-feira seguinte, lá estava eu procurando e comprando nas lojas especializadas o material necessário e confortável.

Compras Gerais, feitas durante a preparação, até o dia 16/Mai/2000.

Cheguei no dia 06/Jul/2000 e (faço entre parênteses), as seguintes observações:

Þ   Agasalho malhasoft, softblush. (Foi ideal, nos dias frios para peregrinar,  e nas noites frias para sair para jantar e houveram noites que dormi com ele também, tem que levar um).

Þ   Atadura elástica, R$ 12,00. (É bem prática, usei uma vez).

Þ   Analgésico; Dorflex; Amônia; Vaselina ou Vick. (Se não gostas de vick, peça para teu Amor fazer uma pomada tipo com Hipogloss + Minâncora + óleo de amêndoa + o puro Amor da tua amada, funcionou e nada tive com meus lindos e maravilhosos pés).

Þ   Bandeira do nosso Brasil (20x14cm), prenderei na cabeça do cajado, para dar-me força e coragem. (Por haver comprado um cajado comum, pequeno, coloquei a nossa Bandeira, na parte detrás da mochila, em local visível, foi interessante, após ultrapassar pessoas, ela sempre faziam um comentário a respeito do nosso querido Brasil, uns até se surpreendiam e a mim também!)

Þ   Boné “Nike” de tela (cooling system), deixa passar o ar, e a ventilação é total – R$ 39,00. (Muito bom, a pala dura, não deixa o capuz da capa de chuva cair ou pingar gotas na tua face).

Þ   Bota San Marcos, um número maior – R$ 399,00. (Beleza pura, e também recomendo para mulher comprar modelo masculino, e é claro um número maior).

Þ   Cajado!!! Encontrarei o meu de alguma maneira, contam os peregrinos em seus depoimentos que o cajado vem às mãos de cada um de uma maneira diferente e às vezes inusitada. Depois conto como o meu chegou as minhas mãos! (Não houve este mistério, entrei numa loja, escolhi um qualquer, paguei sete reais, e lá estava eu em Saint Jean, pronto para ser salvo pelo meu cajado, mais de uma vez, conto como foi).

Þ   Colchonete de espuma, vai enrolada embaixo do capacete da mochila e serve para isolar o saco de dormir do frio do chão dos Albergues, assim como para um rápido descanso quando da caminhada. (Tens que ter).

Þ   Camiseta de algodão, manga comprida, uma. (Noites menos frias poder ir jantar vestido com ela, serve para dormir também. É necessária e se possível na cor preta).

Þ   Calça/bermuda de tactel, vem sem a braguilha, que pedi a minha Lucinha, que além de Modelista é costureira,  para fazer.

Þ   A calça na loja custou R$ 74,00, mais a braguilha R$ 15,00 = R$ 89,00.  Minha mulher gostou tanto do modelo que fez uma já com braguilha e tudo, exclusiva para mim! Vou vestido com uma e terei uma para troca. Grato eternamente minha Lucinha! (Vi outros tipos de calça por lá, mas ainda acho que a melhor é a calça tactel /bermuda, com zíper na altura dos joelhos, para homem, é muito mais confortável mandar fazer braguilha, duas é a soma ideal).

Þ   Camiseta ½ manga (cores) duas de coolmax, antibactéria – R$ 29,90 cada. (É bom ser de cor escura, o encardido não aparece, pois lavas uma à cada dia).

Þ   Chinelo leve (Rider) – R$ 6,99. (Melhor levar uma sandália chamada papete, calça melhor e sem arrastar, andas pelas cidades sem encher os pés de poeira, e quando chegas no Albergue não precisas ir ao banheiro lavar os pés, normalmente na água fria da noite),

Þ   Cordinha de nylon + 10 alfinetes de fralda, R$ 6,00 (os alfinetes servem como pregadores entre outras coisas)  (Tem que ter, é muito, muito necessário o conjunto).

Þ   Cortador de unhas; Canivete; Agulha e linha; Isqueiro; (já tinha em casa). (OK)

Þ   Cueca Samba-Canção seda, três. – R$ 14,00 cada. (Secavam bem, mas esgarçaram com o esforço prolongado e as lavagens sucessivas, tive que comprar substitutas de nylon por lá).

Þ   Desodorante – Comprar lá, pois os franceses devem ter uns bem fortes:¬) (Comprei, mas usei pouco)

Þ   Óculos escuros, comprar um francês alto luxo. (Comprei um lindo, mas esqueci num Albergue, e fiz o resto do Caminho sem usar).

Þ   Escova e pasta de dentes, pequenas – R$ 5,50. (OK. Vai acabando, compras outra).

Þ   Fronha de tactel, uma - R$ 6,00. (OK. Pena ter sido pequena demais para os travesseiros de lá, eles são de 80 cm de comprimento e 50 cm de largura. Precisas levar, pois os travesseiros são meio fedidos).

Þ   Livro Guia do peregrino: El Camino de Santiago a pie. Editora El Pais/Aguilar – R$50,00 na Livraria Leonardo da Vinci – É em espiral o que possibilita à cada etapa, destacar e jogar fora o roteiro já ultrapassado, diminuindo o peso total. (Foi um peso útil que levei, fiz todas as anotações possíveis e me ajudou nas orientações mais básicas ou quando nada tinha pra fazer, ficava lendo o dito cujo).

Þ   Lanterna MAG-Lite (Solitaire) - R$ 45,00. (Impossível ir sem ela).

Þ   Meias de coolmax, três – R$ 25,00 cada. (Impossível ir sem elas e mais duas finas de nylon, para usar por dentro, numa proteção incrível, leia lá embaixo).

Þ   Microgravador "Panansonic" RN-302 + 5 fitas de 90 minutos – R$ 100,00, tudo. (Valeu a pena, mas é dispensável, bom para gravar o nome das pessoas no Caminho e com sua própria voz e sotaque).

Þ   Mochila especial para peregrino, 60 litros – R$ 250,00.  (Fora de série, perfeita e com dois elásticos no cinto, que serviam para carregar duas garrafas d’água mineral de 500ml, como se fora um cowboy).

Þ   Poncho especial do peregrino – R$ 79,00. (Usei só uma vez graças a São Pedro, e funcionou perfeitamente, e a pala do boné foi de grande valia, em não deixar o capuz atrapalhar a visão ou pingamento). Comprei lá em Pamplona, uma capa impermeável para a mochila, foi de grande valia!

Þ   Protetor auricular – R$ 8,00 (nos Albergues o ronco é livre). (Necessário demais, falo dele abaixo).

Þ   Saco de dormir, 750 gramas – R$ 210,00.  (OK).

Þ   Recipientes plásticos; comprei de acordo com as necessidades e todos daquele plástico macio. (No finalzinho da ida, troquei por nécessaire de mulher, de diversos tamanhos, foi bem melhor).

Þ   Sabonete (levar líquido que servirá tanto para banho quanto para lavar roupa), (Cheguei lá e passei a usar sabonete comum de enxofre, bom para a limpeza da pele e para lavar roupa, o líquido é ruim para lavar roupa). Xampu, (OK) e filtro solar. (Proteção de 40 ou 60 é o ideal, o sol é inclemente nos meses que passei por lá, e vi as nórdicas sofrendo queimaduras de até primeiro grau).

Þ   Sacos plásticos para cada item; fui selecionando nos supermercados da vida os tamanhos que achava melhor e colocava no carrinho de comprar como um presente para mim! (Para desencargo do coração deveria ter comprado o saco plástico mais macio, que não faz barulho, mas todos no Albergue fazem barulho, os sacos e as pessoas, depois das cinco da matina, é barulho total).

Þ   Toalha Track & Field, não ocupa espaço e é sensacional para secar – R$ 15,00. (Errei na escolha! O melhor mesmo é uma toalha infantil feita com pano de fralda).

Aproveitei o momento mágico da mão aberta e comprei um relógio automático, à prova de tudo, marca Orient, R$ 210,00 – coloco no pulso esquerdo quando sair de casa no dia 17/Mai/2000 e só tiro quando voltar pra casa, nem sei quando. (O que encontrei de gente, que esqueceu relógios caríssimos, nos banheiros ou lavanderias dos Albergues, necessário levar um à prova d’água mesmo).

Þ   Máquina fotográfica Pentax c/zoom, R$ 495,00. (Maravilha; fotos ao longe e pertinho, alto luxo).

 

Durante as elucubrações abaixo, falo de cada coisa, equipamento e a tralha toda em geral, e da necessidade da roupa ser de cor escura).

  • Só não levei o Álcool de Romero = 100g de essência e 900g de álcool 95º. Nome científico: Rosmarinus officinalids L. Também chamado Romeo, alecrim ou alecrinzeiro, porque não encontrei quem o fizesse aqui no nosso Brasil.

 

Ora vejam só, algumas pessoas ao lerem este começo mandaram-me e-mails comentando da não necessidade de gastar tanto, com coisas que poderiam ser adquiridas a um preço bem menor, no que discordei completamente, pois com a experiência advinda da idade, salvo exceções, na verdade entendo a propaganda da 'Brastemp' que é uma realidade para tudo nos dias de hoje, onde o mais caro normalmente é muito melhor e evita o arrependimento e as lamentações posteriores.

Sendo assim, vou às lojas e escolho o que melhor se adapta ao que pretendo fazer, e que me é mais confortável, pois minha idéia maior e cumprir minha etapa, completar o Caminho, terminando-o inteiro fisicamente, e somente assim terei tempo para buscar e entender o âmago do meu ser, ouvindo todas as palavras, frases e sons que arquivados lá dentro estão desde minha concepção. Sem ter que me preocupar com roupas apertadas, calçados que fazem calos, ou equipamento rasgado no meio da minha peregrinação.

Hoje dia 04/Fev/2000, primeira Sexta-feira do mês, fui à Reunião da AACS-BRASIL, aqui no Rio mesmo, e o monitor, explicador e demonstrador da hora foi o nosso brilhante amigo Francisco Sousa , que com muita propriedade explicou tudo, de tudo para todos e creio que ninguém ficou com dúvidas, desde pensar a fazer o Caminho até estar lá como peregrino, e a máxima mais repetida pelo Francisco é: "Experiências não são verdades absolutas".

Encontrei-me carne e osso, olhos nos olhos, ao vivo e à cores, com o simpático e educado José Roberto que é uma espécie de faz tudo da AACS, entre outros afazeres, é o responsável pela HP da associação e o homem de ligação com a agência que vende passagem com descontos especiais para quem vai fazer o Caminho. E quando lhe perguntei que tipo de anotações ele fizera em sua última peregrinação ele simplesmente me respondeu que levara um gravador pequeno. De pronto acrescentei à minha lista mais um item. Será que agüentarei tanto peso? Pois até agora só estou incluindo coisas, já que ninguém me ensinou como anular os itens listados.

Na minha conversa com o José Roberto, falei-lhe que queria logo comprar a passagem e se haveria algum prejuízo no futuro, pois alguns amigos haviam dito que a Ibéria faz de vez em quando promoções e descontos, no que ele respondeu que o preço que ele conseguiu é imbatível, mas somente para os futuros peregrinos ou aqueles veteranos que voltam. Sendo assim lhe disse que já queria comprar na hora e ele me respondeu  que era tudo feito via e-mail, e que todas as explicações estão em http://www.caminhodesantiago.com.br.

Conectei assim que cheguei em casa e mandei minha mensagem. Estou aguardando... Eis que chegou a msg tão esperada, datada de 06/Fev/2000; vou esta semana lá na Agência comprar logo a passagem!

Fui lá na Agência Colorado Viagens Ltda. – tel: 2242-3166 e acertei tudo com o atencioso e simpaticíssimo Sr. Wilson Migueis: Passagem de ida: Rio-Madri-Pamplona. Volta: Santiago de Compostela-Madri-Rio = US$ 641,00 + Tx de Embarque US$ 50,00 = US$ 691,00 x R$ 1,7660 (câmbio do dia 09/Fev/2000) = R$ 1.220,00 que paguei cash.

Então a parte da viagem e início da peregrinação já está toda programada: Saio daqui do Rio no dia 17/Mai/2000 e chego em Pamplona no dia 18/Mai às 09:15 horas da manhã, vou para San Jean Pied de Port na França, durmo lá e saio de lá no dia 19/Mai de manhãzinha, com DEUS como companhia, para ai sim; iniciar a minha jornada peregrina, pegando logo de cara a travessia dos Pirineus! É verdade mesmo! Vou precisar muito de Deus!

Necessário esclarecer que é um preço promocional para peregrinos e que escolhi a ida e a volta em dias de semana, sendo assim prolonguei minha estada em 45 dias.

Ontem, dia 23/Fev/2000, chegou minha "Credencial del peregrino", numa carta registrada junto veio um folheto com: "Consejos para el uso de la Credencial" editado pela Federacion Asociaciones de Amigos del Camino de Santiago en España.

A Credencial é o documento maior do peregrino. É bem feita e detalhada, já vem preenchida pelo emitente no meu caso a Clarisse Ferte – Presidenta da AACS-Brasil; fiquei bastante emocionado em manusear por vez primeira um documento que me acompanhará na minha longa jornada; sinto como se fora o primeiro passo dado ao sair de Saint Jean Pied de Port, sinto como se já estivera iniciando realmente o Caminho, mas como me disse o graaaande Francisco Sousa, num e-mail encorajador: " A você que já começou o Caminho naquele "meados de dezembro de 1998" desejo muita luz, paz e amor. Tenho certeza que para você também o Caminho será uma experiência maravilhosa". Nada mais tenho a acrescentar.

Hoje passei a manhã todinha na Policlínica. Há um mês atrás fui ao médico clínico geral e pedi um exame geral de tudo que tenho direito, para dali orquestrar um "check-up". No laboratório eles me tiraram uns quantos frascos cheios do meu líquido vital para a bateria de exames – soube disso porque reclamei que não estava ali como doador e o enfermeiro exímio com a agulha, pois na primeira já foi logo na veia, me explicou que pela quantidade de exames pedidos tinha que ser aquilo mesmo, pois tinha até pedido de exame para ver como vai a minha próstata; de fato o clínico geral foi fundo, no bom sentido é claro! Quando recebi os resultados voltei no dito cujo e ele sorridente me disse que tava tudo normal menos o colesterol ruim, que tá meio maus, toma aqui este remédio (Lipitor, 20mg, que me custou R$ 100,00) por trinta dias e volta aqui, não esqueça de fazer juntamente com o medicamento, uma dieta frugal: - Pára de comer feijoada aos sábados, bife à cavalo e gordura animal de qualquer espécie, mas doutor adoro doce de leite com queijo parmezon! Hum! Nem pensar! Queijo parmezon tá fora.

E olha que nem disse pra ele que agora no Carnaval, de 3 a 8/Mar, vou fazer retiro espiritual e dar longas caminhadas para testar o meu equipamento, numa fazenda no interior de MG chamada Santa Rita das Cachoeiras. Adeus meu leitãozinho à pururuca!

Aproveitei que já tava mesmo no ambiente hospitalar e dei uma chegadinha no ortopedista – já notaste que quando vais numa clínica te dá vontade de conversar logo com tudo quanto é médico pra saber tudo sobre ti? Será que todos nós gostaríamos de ser médicos de nós mesmos – eis uma questão para ser discutida mentalmente durante minha peregrinação; te conto um segredinho: - Já tenho umas quantas questões para autodiscutir durante os 40 ou 45 dias, hehehe.

Ao ortopedista fui logo mostrando o Livro Guia do peregrino: El Camino de Santiago a pie, naquela parte que cita os problemas da área dele, e ele muito solícito iniciou um papo de meia hora me falando que gostaria de ter tempo para um dia desafiar-se a si mesmo e conhecer seus íntimos obscuros e fazer o tal Caminho. Quais seriam os habitantes íntimos de um ortopedista? - Esqueletos no armário :¬?

Depois de elogiar minha coragem e determinação, achou genial a idéia de consultá-lo com antecedência e lendo o livro guia, deu-me alguns conselhos básicos e receitou-me três medicamentos, mas com a ressalva de só tomá-los se de fato fosse muito necessário: Celebra de 200mg e Mio-Citalgan, o outro é melhor não citar pois é controlado. Mostrei-lhe também o resultado da bateria de exames que havia feito e ele não achou nada de anormal para a especialidade dele – ortopedista gosta mesmo é de uma chapa de Raio X.

Feliz com meus papos altamente científicos, entrei numa farmácia, aviei as receitas (ainda se usa aviar receita?) paguei uma graninha boa, e vim pra casa contente, diretinho pro meu Bartô – nome de batismo do meu PC – para contar tudinho pra ele, e por conseqüência o linguarudo vai propagar para o nosso Brasil e para o mundo.

Hoje, dia 25/Fev recebi um telefonema que deixou-me muito feliz: - Mannyboy? É assim que atendes ao telefone, ? A voz não conhecia, de mulher é claro, mas senti uma boa sensação e energia positiva naquele som. Em seguida em alto e bom tom ela declarou: - sou a Selena, e temos que nos ver hoje, pois estou aqui no Rio a trabalho e volto para São Luiz já no Domingo. Estou com tudo do Caminho pra te mostrar inclusive as 800 fotos!

Marcamos ali no Bob's do Largo da Carioca, às 16:00 horas e teríamos que ver tudo, ela ainda estaria preparada para responder minhas perguntas e solver todas as minhas dúvidas sobre o Caminho, impreterivelmente até às 18:00 horas, quando tinha agendado outro compromisso.

Cheguei primeiro, é claro, pois sou um cavalheiro (e aspirante a Peregrino), e a primeira impressão é a que fica. Quando nos encontramos, parecia que sempre nos conhecêramos, éramos amigos desde sempre e sem delongas partimos para ver tudo o que tínhamos em mãos e foi aquela maravilha, pois como numa sessão de cinema, ou melhor numa exposição com slides, eu ia admirando as fotos tudo rapidinho, e ela, a Selena lindinha, ali... falando, descrevendo, vivendo ao ver cada foto uma nova emoção, como se transportada outra vez para aqueles mágicos lugares por onde passara anos atrás, tudo voltasse do passado recente ao momento presente.

Seus olhos brilhavam de felicidade e alegria, uma energia incrível vinha dela e se espalhava por todo o ambiente, pois com os cantos dos olhos observava gente que passante, dava uma olhadinha de soslaio, devido aquela voz que continha tanto sentimento. E eu ali! Vivendo o momento e antegozando, mesmo sem ser egoísta, os momentos que vou passar na minha peregrinação. A Selena incansável, falava e descrevia ... e falava e contava e... se transportava...

Ela não estava mais no Rio de Janeiro, e sim nos Caminhos de Santiago de Compostela; escrevo Caminhos, pois que ela discorria como se andara veredas, ruas, avenidas, estradas, picadas, trilhas e ainda fizera seus próprios atalhos, numa direção de Caminhar só sua, com a ajuda divina que já a protegera no seu primeiro dia quando saíra sozinha de San Jean Pied de Port, na França e perdera-se nos Pirineus, dormindo ao relento junto com ovelhas num pasto, como se uma delas fosse. Quem sabe? Já que Deus não fala conosco diretamente; somente nos mostra o que é certo e se erramos é porque não tivemos a coragem de seguir nossos instintos primeiros, estes sim, divinos!

Agradeço sensibilizado a minha amiga Selena, agora virtureal, pela consideração e pelos ensinamentos passados, com exemplos e amostragens gerais in loco. És de fato uma peregrina que encontrou o Caminho. Oxalá Deus em sua benevolência seja tão presente e misericordioso comigo, como O foi contigo!

MUITO OBRIGADO SELENA! E que Deus seja sempre contigo.

Tem muita gente curiosa no pedaço; fica perguntando coisas! Ora! Bolas! Conheci a Selena lindinha como atualmente todo o mundo se conhece, ou seja:

- Através da Internet. Num desses <eGroups.com> que pululam pelaê, achei assuntos interessantes remetidos pela Selena em alguns ela fazia menção do Caminho de Santiago. Dirigi-me diretamente a ela em um e-mail, dizendo da minha peregrinação próxima e elazinha, mais que depressa começou a passar-me informações preciosas, para teres uma idéia, cito a dormida em San Jean Pied de Port, na França.

Nas palestras não conseguia entender como vencer os +/- 27 km a pé, através Pirineus, no mesmo dia da chegada à Pamplona, pois conforme os horários acima mencionados, como ir de táxi de Pamplona até San Jean, na França e num bate-e-volta ainda chegar no mesmo dia a Roncesvalles, na Espanha. Meio confuso estava até uma fada surgir no virtual da Net. A Selena sabe tudo como sói acontecer com uma mulher que trabalha e é dona de casa, a famosa "MULHERÃO".

Após a conversa com a Selena veio-me uma inspiração: “O Peregrino, ao abandonar as comodidades; os bens materiais, e as confortáveis coisas mundanas, e ao carregar consigo somente o necessário para seguir em frente, está a cada passo mais próximo do Paraíso”.

O tempo vai passando e as coisas vão se encaixando. Hoje de manhã, dia 8/Mar/2000, plena 4ª Feira de cinzas e o nosso Brasil começou verdadeiramente a trabalhar, um rapaz me acordou às 09:30 da matina pra me entregar a passagem que me deixará chegar à Pamplona na Espanha, bem pertinho da minha saída, início do Caminho de Santiago.
Esta explicação é feita porque muitos dizem que o Brasil só começa mesmo a funcionar a todo o vapor, depois do Carnaval. Será?

Eeeepa! O dólar está baixando e minha viagem vai ficando cada vez mais emocionante. Sobrando-me uns cobres; com certeza trarei lembranças à mancheia.

Para aceitar um desafio e ter a certeza da possibilidade de além de aceita-lo, resolve-lo ou cumpri-lo, é que vou passar uns oito dias – de 12 a 19/Abr -  dando umas caminhadas pesadas no Circuito Ponte Branca ali em Nova Friburgo-RJ. Levarei todo o equipamento material que já possuo numa simulação das reais condições do Caminho de Santiago de Compostela, inclusive a região é de altos e baixos, pois Friburgo situa-se na Região Serrana do nosso Rio de Janeiro. Quando eu voltar, falo como foi!

Cheguei na Rodoviária de nova Friburgo ás 18:20 horas do dia 12/Abr, encontrei -me com o dono do  Hotel Oberland, o meu já querido amigo Roberto, que logo me apresenta sua companheira e braço direito a simpática e bela Alena e apresenta também a secretária Cristina, com quem fiz os primeiros contatos quando ainda no Rio, e tenho a oportunidade de conhecer a Mariza, que faz parte do grupo dos dez proprietários que juntos criaram este já conhecido Circuito Ponte Branca.

O Roberto é uma figura ímpar em sua simplicidade e fala logo pra mim que àquela hora era melhor dar uma passadinha num Mini-mercado ali perto pra comprar umas coisinhas pra botar na geladeira, já que seu hotel fica meio longe e não tem nada por perto. Compro uns yogurtes, guaranás energéticos, pães e biscoitos e dou meu pronto pra ele;  e na sua caminhonete sigo para o meio do mato para começar tudo.

Lá chegando recebo a chave, e o Roberto avisa que o café da manhã começa às 8:30 horas e que a mesa será fartamente preparada para alguém como eu que vai fazer caminhadas pesadas e ficar mais de seis horas sem outra refeição.

Adentro ao meu  chalé, que é o de nº 3,  uma maravilha, com uma cama de casal e mais uma de solteiro, mas o que delicia a vista mesmo é a lareira beleza pura; e pela primeira vez senti que eu mesmo irei acender uma lareira, sem pedir a ninguém para fazê-lo  por mim. Tem uma cozinha com fogão à gás,  geladeira e armários. Dentro da geladeira encontro refrigerantes, garrafas de água mineral, de vinho e latas de cerveja, um sortimento que me faz pensar que tenho mesmo cara de pobre, pois o Roberto mandou-me comprar coisas no mercadinho, deve ser para não usar o material do chalé. Tem nada não amanhã pergunto o porquê!

Hoje dia 13 de abril de 2000, começo logo uma caminhada de 10 km para sentir como reage meu corpo sob o peso de mais de 8 kg nas costas (todo o material que usarei lá na Espanha e mais duas garrafas congeladas, uma de mineral e outra de Guaraviton),  após um desjejum copioso, desço do refeitório, que fica num primeiro andar do chalé central do Hotel, e depois de um simples alongamento quando vou pegar a mochila lá vem o Roberto:

 ¾ Manoel! Antes de começares tua primeira caminhada, acho melhor ires até o teu chalé, escovares os dentes e te aliviares de pesos supérfluos que nem precisas carregar.

Na realidade não entendi direito a mensagem, mas aceitei a idéia e fui até lá, e pasmem! Ao entrar no banheiro para a higiene bucal, veio aquela vontade de sentar-me no troninho, ai sim! Entendi o que o Roberto falara acerca de pesos supérfluos. E nos oito dias que lá me hospedei segui à risca aquela observação primeira e nem um dia saí para as minhas caminhadas com supérfluos intestinais. A mágica é sorver alguns goles d’água, se possível mineral, logo após a higiene bucal.

Na minha primeira caminhada saí do hotel às 9 horas e cheguei de volta lá pelas 14 horas, quer dizer que caminhei umas cinco horas, me lembro que parei três vezes, uma parada de 5 minutos para fazer xixi e duas de 10 minutos para beber água também. Se descansei 25 minutos e andei 5 horas, devo ter caminhado bem uns 15 km, explico a razão:

¾ É que em trilhas e picadas o  caminhar é mais lento, e devo ter andando a média de 3 km ou um pouco mais por hora, sei que somente numa parada é que sentei num barranco; nas outras fiquei em pé mesmo e senti falta de um pedaço de plástico para deitar-me em qualquer chão e colocando as pernas pro alto descansar melhor. Já tá anotado.

Cheguei ao hotel e fui direto para o chalé, já que não fizera o roteiro que o Roberto preparara para eu fazer no primeiro dia e tomei uma ducha gelada, deitei no chão do quarto e dormi pelos menos uma hora. Acordei, tomei outro banho e fui para o ponto do ônibus que me levou à cidade e antes de ir comer qualquer coisa, fui à um supermercado onde fiz hora em seguida   a um restaurante à quilo, onde comi frugalmente. Telefonei para  a minha mulher dizendo a ela que seria uma boa ela passar o final de semana comigo vindo no dia 14/Abr, 6ª Feira à noite, pois o chalé era muito confortável, ela descansaria bem e no dia 15/Abr, Sábado já faríamos uma caminhada de amaciamento para ela que gosta de caminhar também.

Dia 14/Abr, de manhãzinha nem senti quase nada, minhas pernas e meus braços estavam beleza, senti somente algumas dores nas costas, suportáveis e uma dorzinha como se fosse uma íngua na coxa esquerda. Nada que me impedisse de caminhar com o peso, mas,  por precaução aliviei a mochila um pouco e creio que ela ficou com somente 4 kg, Me lembro agora que antes de sair para a primeira caminhada pedi ao jardineiro do hotel, seu Haroldo, que cortasse um cajado para mim e fomos no terreno em frente que é também do hotel e entre tantos galhos secos que no chão havia o jardineiro arrumou para mim um no jeito que eu queira, com um palmo de altura acima da minha cabeça.

Esta caminhada de hoje foi feita na companhia do Roberto & Alena, mais dois hóspedes do hotel a brasileira Ivana e o holandês Bert um casal que mora na Holanda e que estava de visita ao Brasil, foi uma caminhada de muita subida, andamos umas três horas e visitamos a futura pousada do Heiner, que está construindo chalés de toras de madeira encaixada, num misto de floresta e jardim com cascata, piscina natural e outras novidades. Quando a gente estava lá no paraíso do Heiner, caiu uma chuva da pesada e um raio fez um barulhão que assustou a todos nós, fazendo com que o Heiner ligasse o pára-raios elétrico que lá existe, boa precaução afinal.

Como todos estavam animados e felizes, e a chuva não passava, resolvemos voltar embaixo de chuva mesmo e chegamos ao hotel depois de quase duas horas de trilhas e picadas, completamente encharcados, mas felizes. Quando se está em harmonia com a natureza e há uma empatia no grupo,  todos ficam felizes por estarem juntos e nada consegue perturbar a paz.  Neste dia o Roberto e a Alena providenciaram com a Vera a arrumadeira e cozinheira, um almoço para nós seis, o que foi uma verdadeira maravilha e pela primeira vez comi purè de inhame, apregoado pelo Roberto como o melhor depurativo do sangue. Em seguida fui pro chalé dei uma descansada e lá pelas 21 horas fui junto com o dono do hotel lá na Rodoviária buscar minha amada.

Dia 15/Abr o hotel tá cheio de hospedes, mas saio logo após o café da manhã com a Lucinha para uma caminhada nos arredores dentro das terras do hotel e subimos lá no mirante e demos umas voltas de pelo menos seis quilômetros, o hotel está plantado numa área imensa e nem sei quando estou em terra do Roberto ou quando não!

Eu e a minha Lucinha fomos econômicos no caminhar nas proximidades, porque à tarde iríamos para a cidade a pé, que dá uns 5 km, o que fizemos e por lá ficamos entre caminhadas, um cineminha pra relaxar e um rodízio de legumes, verduras e frios. Voltamos para o hotel de ônibus e quando chegamos, umas 21 horas, tava todo o mundo acordado batendo papo e tomando café ou vinho. Nos juntamos ao pessoal, nos confraternizamos com os outros hóspedes que não conhecíamos, nos despedimos do casal Ivana & Bert e fomos acender a lareira, que à noite o frio em Friburgo e carioca não é de ferro.

Dia 16/Abr, desafio a Lucinha para fazermos uma caminhada maior, de uns 15 km e ela topa e atravessando umas montanhas ou serras andando mais de 4 horas com duas paradas, chegamos lá na Pousada Mariza que fica entre Muri e Lumiar. Dei logo um mergulho para  um banho refrescante na piscina natural que a Mariza construiu, água geladinha que recupera o corpo e purifica a alma, e  que esfriou os pés da Lúcia, única parte do corpo que ela molhou naquela água pura e transparente; ela tem é medo de água fria, hehehe.

Mariza! Que horas passa o ônibus que nos leva a Friburgo? Ela responde:
¾ Passa ali na estrada à entrada da minha Pousada, às 16:00 horas, mas não se preocupem, vou para a cidade daqui a pouco e levo vocês comigo.
¾ Beleuza Mariza e muito obrigado, e assim deixei meu cajado perdido lá na Pousada Mariza, pois não ia para a cidade com uma mochila de 60 litros bem cheinha e mais um cajado que agora eram dois, pois a Lucinha também já tinha o seu. Chegamos na cidade e fomos comprar algumas coisinhas,  pois Nova Friburgo é o maior pólo industrial de roupas íntimas do Brasil, e tem coisas lindas, modernas e num preço bem em conta, foi o que disse minha mulher que é costureira, desenhista e modelista, com curso no SENAI-CTIQ.

Dia 17/Abr: Lucinha voltou para o Rio, para o trabalho. Aproveitei e fiz uma caminhada de 18 km, num percurso novo, tudo correu bem, estou progredindo!

Dia 18/Abr: Acordo tranqüilo, nada doendo e vou para um percurso novo de 20 km, estou em forma realmente, caminho 8 km e faço uma parada técnica, para beber água limpa e eliminar àquela que purificou meu interior! To feliz com Deus, comigo e com meu corpo.

Dia 19/Abr: Volto pro Rio, cheio de um juvenil prazer do objetivo alcançado.

Dia 27/Abr: À noite voltamos e a minha Lucinha, correndo para Nova Friburgo, tentei umas caminhadas em volta do Maracanã, mas não é a mesma coisa, meio sem graça e nada tem a ver com o que farei no Caminho de Santiago. Sendo assim já acordo no dia...

Dia 28/Abr: Cheio de gás encontro o Roberto, dono do Hotel Oberland, e juntos tomamos o desjejum. Voltamos para o chalé, e após eliminarmos o supérfluo, saímos para um aquecimento de 15 km, o que repetiremos amanhã dia 29/Abr, pois no dia 30 virão uns trilheiros ecológicos daqui mesmo de Friburgo, que a convite do Roberto, vão nos guiar até a Pedra do Possolè, uma montanha de 1500m de altitude.

Caminhamos num ritmo forte nos dias 28 e 29 e estamos prontos no dia 30/Abr para mais um desafio. A Lucinha já perdeu uns 4 kg e ta que é felicidade pura! Ta até de licença do trabalho.  Tivemos a grande oportunidade e o prazer, de conhecer o Airtom, que sabe tudo de queijo de cabra, o homem que faz a demarcação das trilhas com seus sinais inconfundíveis, e um dia, com mais tempo caro Airtom, almoçaremos no teu famoso restaurante Montanhês, algumas iguarias preparadas por tua esposa após o curso de culinária que ela fará na França, 30 dias à partir de 12/Mai/2000!

Dia 30/Abr -  Domingo: Vamos pro café da manhã e lá estão as figuras do Alan, um jovem de 24 anos, desportista em lutas marciais, e curioso quando nas caminhadas em localizar bromélias e orquídeas. Júlio, uns 32 anos, corpo leve de quem caminha todos os finais de semana, leve e curioso em explorar trilhas suspeitas e perigosas, agradeço a ele a força que deu a minha Lucinha, que “quase” não chega lá no cume; e o Eliezer, “Nonô”, que fará 52 anos no dia 03/Mai próximo, e é um profundo conhecedor das trilhas e sabe das coisas, em momentos de dúvida nos levou para frente e para cima, sempre pelos melhores atalhos.
Um grupo muito especial arranjado pelo Roberto, fazem caminhadas pelo prazer de descobrir, de ousar, de ir mais longe, mantendo a forma; e como cada um carregava uma sacola de plástico; também de preservar a natureza, sem receber nada por isso, somente o prazer de estar, ao limpar e recolher lixo, fazendo a coisa certa, estando sempre felizes cada um consigo mesmo!  O interessante é que também sou eco-trilheiro e éramos quatro a catar lixo não degradável, principalmente recipientes feitos de plástico.

Conquistamos o famoso monte Pedra do Possolè, em Francês (porco pequeno), com seus imponentes 1500 m, e após as fotos de praxe, com direito a bandeira brasileira e tudo o mais, descemos já por outra trilha, escolhida por consenso e chegando ao Hotel a surpresa; Roberto, junto com a Cristina, a competente secretária,  que é a principal contato dos turistas com o Circuito Ponte Branca

, nos esperavam com um delicioso e irresistível churrasco, só que pouco comemos, pois depois de tantas subidas e descidas, a fome era problema menor, a sede é que era a necessidade primeira. Andamos 15.6 km em 5 horas de subidas e descidas com 24.072 passadas duplas, tudinho bem medidinho pelo podômetro ou passômetro do Julinho!

Quero deixar aqui assinalados meus agradecimentos sinceros ao Alan, ao Julinho e ao Nonô, pelo carinho e a paciência em guiar-nos; tudo pelo simples prazer em ajudar no meu treinamento, sem nada cobrar, e ao Roberto, pelas diárias que não cobrou e o precinho que fez, além da atenção aos meus constantes papos sobre o Caminho, sempre se mostrando uma pessoa interessada e amiga. além é claro de haver-nos ensinado como acender a lareira, já que à noite em Friburgo só com lareira acesa mesmo, e fiquei - ficamos exímios, hehehe.

Dia 01/Mai: É feriado, “Dia do Trabalho”, a cidade em festa, aproveitamos e pegamos uma trilha antiga por onde passava o trem, uns 8 km do Hotel até  o teleférico de Friburgo que agora tem duas etapas, e vai até 1350 m de altitude, mó medaum!

Dia 02/Mai: Adeus, Nova Friburgo! Voltamos para o calor do nosso Rio de Janeiro, já com saudades do pessoal, da natureza em sua pura beleza desafiadora e do calor da lareira que nos aqueceu a mim e a Lucinha nas noites em que um massageava o outro nas partes que mais doíam, tais como pescoço, joelhos, ancas, pernas e pés. Achamos uma maneira muito interessante de começarmos nossas carícias noturnas ;¬)

Caminhar é preciso... Viver? Voar? Correr? Não é preciso...

Dia 08 /Mai: Num papo no ICQ a minha amiga Selena há um tempo atrás, alertou-me: ¾ Manny! É muito bom fazeres um seguro viagem.
Na época nem dei muita bola, mas outras pessoas amigas insistiram também na idéia, e assim fui nos arquivos buscar o endereço da Agência de Viagens que a  Selena havia me passado, Total Travel Tour, tel (21) 234-1748, falar com Suzana Nunes.
Liguei para a Suzana e marquei uma hora hoje para fazer o tal seguro e procurei o mais barato, pois como sempre a gente nunca acredita que vai precisar, que o diga a Selena, que logo no segundo dia de peregrinação precisou e muito, pois seus ombros descarnaram devido o peso da mochila e ela teve que procurar ajuda médica, e o seguro funcionou. Sendo assim fiz o mesmo que ela e paguei para uma cobertura de 60 dias US$ 63,00, que deu R$ 115,00, já que a prestativa, honesta e atenciosa Suzana, ainda fez um desconto. Falar em Suzana,  deixo aqui assinalada a consideração com a qual fui tratado, ela mostrou-me todos os planos de seguro de viagens que existem explicando-me o porquê de uns serem mais caros que outros e como uma professora primária, lia tudo em voz alta apontando os detalhes, assim como o fez quando escolhi o seguro mais barato. Creio que é o jeito dela ou talvez tenha estudado no Instituto de Educação em vez do segundo-grau colegial.

Dia 10/Mai: Fui lá na Total Travel Tour pegar meu seguro de viagem. Falta pouca coisa para fazer;  somente  comprar os dólares americanos e as pesetas.

Dia 15/Mai: Comprei 1500,00 dólares e 100.000 pesetas e senti na pele, quer dizer; no bolso, a bobeira que dei, pois na 2ª Feira passada um dólar estava a R$1,83, hoje  um dólar custa R$1,88.  Assim não pode! Assim não dá!

Tudo certinho. Completei a carga e o dinheiro que vou levar. Como sempre faço; no dia 16 para o dia 17/Mai, dia da viagem, não dormirei;  para quando dentro do avião, conseguir dormir tranqüilo, bem e numa boa e assim chegar inteirão na Europa.
Deseje-me sorte!!!

Hoje é o dia 17/Mai/2000; estou desligando meu Bartô – nome de batismo do meu querido PC – às 13:00 horas, pois vou para o aeroporto do Galeão onde o vôo está marcado para às 15:55 horas.
Alou velha Europa! Aí vou eu!

Hoje dia 05/07/2000; cheguei da velha Europa, vivo e são e com muitas vivencias pra contar. Me aguarde!

Hoje, dia 20/07/2000 – DIA DA AMIZADE – começo a lucubrar verdades que apreendi!

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Elucubrações ensimesmadas no Caminho de Santiago.

-: I :-

És a principal protagonista deste filme ou novela que escreves à cada segundo, minuto, hora dia, à cada passo que dás em direção à Santiago de Compostela. Também és diretora, produtora, financiadora. A parte técnica é quase que totalmente tua e há muito mais; pois vais entrar em contato direto com a integração entre tua inteligência, tua vontade e o teu maravilhoso corpo, que aqui chamo de máquina, para não complicar. Veja (a) abaixo.

Afora o AMOR, que é um capítulo à parte; Foi o que melhor aprendi nos Caminhos de Santiago, falo no plural porque não há somente um Caminho e dentro do chamado Caminho de Santiago de Compostela, há diversos Caminhos com seus respectivos atalhos.

Chiii! O que é realidade? O que é ficção? Não estou entendendo nada deste filme, tu dirás em certas partes destas elucubrações.

Eu também nada entendia, até chegar a um indeterminado e desconhecido trecho do Caminho e conseguir O EQUILÍBRIO entre a mente e o corpo, com licença dos esotéricos “A LUZ”. Qualquer dúvida volte ao começo do filme ou da novela, ou vai em (b) abaixo, e entenderás, com certeza.

Por dias e dias vivi o paspresenturo; cada dia era uma mistura de passado-presente-futuro, me ensinando a viver cada minuto como se fora a construção de um novo acordar, um nascituro de olhos abertos e prenhe de experiência e sabedoria, atributos que possuía desde sempre e nem sabia, ou pensava que sabia, mas na verdade tinha medo de usar por desconhecer seu poder ou se era para ser usado agora ou num futuro, o que o fazia um ser sem passado de realizações, pois ao esperar o futuro, não agia no presente e não deixava passado.

Chegando ali na Velha Europa, piso de passagem no moderno aeroporto de Madrid, meu primeiro contato com o velho mundo onde imitando, mas nem tanto, o nosso querido e inteligente Papa João Paulo II, assim que piso na pista do aeroporto para pegar o ônibus, disfarçadamente, coloco a palma da minha mão aberta sobre o solo e trago aos lábios num beijo de amizade, pois se existo como ‘civilizado’, foi daqui que tudo começou. É um corre-corre geral, o ônibus já vai logo fechando as portas e após uns 10 minutos vagarosos, estás na parte regional do aeroporto, onde pegarás um avião menor para Pamplona, final da tua viagem confortável no hoje moderno transporte do nosso velho Santos Dumont.

Pego minha casa-armário que rola embrulhada em plástico pela esteira negra, do saguão do aeroporto, apesar de neste momento ainda não saber que ela além de minha casa com todos os meus parcos pertences, será minha companheira, amiga, confidente, provisionadora e salvadora de mim, aliás, nada sei até agora, a respeito da minha futura querida corcova, minha amada MOCHILA, que será minha íntima companheira por 43 dias. Veja (c) abaixo.

Saio do aeroporto, e imediatamente diversos motoristas oferecem a corrida, e quando digo que vou para San Jean Pied de Port a coisa pega fogo e lá vou eu feliz, livre, leve e solto para meu ponto inicial, só eu dei sorte, pois rachei a corrida. Veja (d) abaixo.

Primeiras explicações, que podem ser saltadas, pois não alteram a narrativa: - (a) o filme ou a novela, é para ti ao vivo e à cores, e nos perigos e sobressaltos não tens dublê, és de fato tudo mesmo. (b) As pistas para chegar ao entendimento estarão espalhadas na peregrinação. (c) Quando chegas no aeroporto de partida do teu país, vais ao operador da máquina de plastifica malas e outros objetos para proteção e mandas plastificar tua mochila, pois além de protegê-la, evita que alguém mal intencionado coloque alguma coisa proibida nos milhares de bolsos e reentrâncias da tua companheira muda e necessária. (d) Há Peregrinos que já acertam desde sua origem, principalmente as brasileiras, com taxistas conhecidos que fazem ponto em Pamplona, o mais famoso é o Don Pedro Telechea que mora em Burguette, que dista 2 km de Roncesvalles, gosta muito de dizer que já fala português e é prolixo, o que faz nossa viagem até Roncesvalles ou até San Jean Pied de Port, muito mais agradável, pitoresca e plena de ensinamentos, pois nós maravilhados que estamos, tudo perguntamos e ele pacientemente no seu portunhol (ou seria espanhoportu ou castelhanoportuga, ou ainda Bascoespanholportu, mas incluir o idioma Basco , seria outra emocionante história), tudo explica, com a maior boa vontade, sempre dizendo que se fora aceitar o convite dos brasileiros para vir ao nosso Brasil, o conheceria de Norte a Sul e com Albergue gratuito.

Conversando com as pessoas que fizeram este arranjo adrede, cheguei a conclusão de que não é lá grande coisa, pois o que gastas de tarifa telefônica, o tempo que conversas e te fazes entender pelo Don Pedro e ele por ti, não compensa o preço que ele faz, melhor mesmo chegar em Pamplona e pegar um táxi qualquer. É que mulheres a princípio sentem-se inseguras ao chegarem numa terra estranha e pegarem o primeiro táxi que se lhes aparece, cuidados que comuns no nosso Brasil, são também muito usados por estrangeiros viajantes pelo mundo todo, mas é que senti certa firmeza nos espanhóis, certa atitude de agradar os brasileiros e tratar verdadeiramente como irmãos, salvo raríssimas exceções, daí a não necessidade do táxi antecipado, pois os preços são quase que tabelados e os taxistas para vergonha nossa, são mais honestos, principalmente com turistas, é checar e ver.

Não sei se por termos sido colônia da Espanha, por tratarmos bem os espanhóis que aqui escolheram para morar, ou por falarmos um idioma parecido com o deles, e nos esforçarmos em fazer-nos entender com o nosso engraçado portunhol; o que sei é que o tratamento é de camaradagem e companheirismo, o que nos dá liberdade para tirarmos todas as nossas dúvidas e a leveza no tratar?, depende muito de que entendamos o senso de humor deles, que é um pouco diferente do nosso, há momentos em que ser cauteloso é realmente preciso, pois debaixo daquela amabilidade com a turista brasileira, há um ser que tem nas costas um passado histórico de dominações, uma cultura vencedora entranhada em sua inteligência. É só passado dirás, mas desde pequeno aprendes mais a parte vitoriosa do teu país, te orgulhas disso, e mais tarde, mesmo que entendas que a coisa não foi tão brilhante assim, e que teve muitos senões, no âmago do teu ser fica lá o orgulho de teres um passado de glória, podicrê.

-: II :-

No dia 17/05/200, entrei no avião que nos levaria para Madrid, conheci outros brasileiros Peregrinos, tudo pelas mãos do graaande Marco Pingret, que saiu pelo avião afora catando os que tinham pinta de Peregrinos e conseguiu pelo mesmo uns seis ou sete, o que foi bom, pois já fazes teu grupinho para rachar o táxi, mesmo que vás começar teu Caminho em Roncesvalles, não há problema, já que ficas de um lado dos Pirineus e quem vai começar de San Jean Pied de Port, tem que atravessar a fronteira que nem se vê, já que ambos os países fazem são parte integrante da União Européia, paga um pouco mais porque é um pouco mais longe já que atravessa pela sinuosa estrada (carretera), as desafiantes altitudes dos Pirineus, que por nem teres idéia, achas e começas a pensar que é moleza a tua volta, ledo engano, verás! Pois o Don Pedro Telechea vem falando, e falando e mostrando Peregrinos esforçadamente montados em suas bicicletas (lá eles falam ‘bici’) e Peregrinos a pé, que até aquele momento, ainda não sabemos que estes a pé, erraram o Caminho certo, pois não entenderam a sutileza das SETAS AMARELAS, ou dos quadradinhos vermelho e branco, ou ainda mais pro futuro, do aviso: - “Coto privado de caza” este já em território espanhol.

Don Pedro me deixa ali na porta do hospitaleiro do Albergue, que é pertinho do portal de onde uns dizem, que realmente começa a peregrinação do Caminho de Santiago de Compostela, o que mais tarde, com a licença dos místicos de plantão, quando vir a “Luz”; se Deus tiver essa bondade comigo! Ele sempre tem, pois que Ele é a própria Bondade, falarei e direi em alta voz com absoluta certeza que o Caminho não tem princípio ou começo, já que ele, o Caminho ta dentro de nós, e mais, que muitos serão chamados para fazê-lo, mas poucos serão escolhidos para compreendê-lo e absorverem assim a energia luminosa advinda de Santiago ou para os não crentes exteriorizar a energia latente no interior de cada um.

Marinheiro, ou melhor; Peregrino de primeira viagem, fico feliz com o meu primeiro carimbo na minha Credencial do Peregrino, que é a chave mágica para pousares nos Albergues em sua maioria gratuitos existentes no Caminho e também a tua garantia que receberás o que uns chamam de "Compostellana", outros de “Compostela” que é um certificado que comprova a peregrinação, ao chegares no teu destino final, a incrivelmente mágica Cidade de Santiago de Compostela.

Deslumbrado; saio logo perguntando tudo a todos e a cada um que encontro, o que fazer e como, para ter êxito na empreitada que vou realizar. Levo alguma vantagem no falar, pois carioca esperto, fiz um curso de Espanhol de um ano, o que dá para entender e fazer-me entender pelos naturais, uma beleza; e um orgulho forte toma conta de mim, fico feliz, mas corto logo o barato, pois a Soberba é pecado mortal ou para os céticos um dos Sete Pecados Capitais, tô fora!

Falo com a encarregada da limpeza, que de luvas e avental, está preparando os dormitórios do Albergue, abrigo ou refúgio, para alguns, e ela me aponta onde é o banho, a cozinha e a privada, nesta ordem que é a natural do Peregrino que ao chegar cansado primeiro vai ao banho num corre-corre louco, à causa do banho quente, pois sói acontecer que somente os primeiros o conseguem, isso é claro depende muito do Albergue, pois há alguns que a água quente é farta e constante em sistemas de tempo para banho tipo apertas o registro e ele jorra água quente por um minuto e pára; Tempo para o sabonete; mais outro aperto e tempo para o ensaboamento tirar, mais uma apertada para o enxágüe e estás limpo e pronto para o segundo momento que é a cozinha, se és do tipo econômico, pois vais ao supermercado, compras o de comer e fazes na cozinha que é dotada de todos os utensílios possíveis, deste panelas até pratos, desde copos e canecas até conchas e escumadeiras, tudo mesmo, até sobras de azeite, óleo, sal, e outros temperos que são ali deixados pelos Peregrinos do dia anterior, pois como verás no futuro o supérfluo na mochila é quase tudo o que carregas e que quando mais caminhas mais visualizas, ou melhor, sentes no lombo a razão de que, para se viver se precisa de tão pouco, e que a sobrevivência é mais uma questão de escolha do que de conforto, e que rico não é aquele que tem tudo, mas sim aquele que aproveita o mínimo, para viver satisfeito em plenitude e abundancia.

Cabe aqui uma resposta àqueles que sempre perguntam quanto levar em dinheiro, quanto vai se gastar, e a resposta é simples, chegar nos Albergues, ir sempre primeiro na cozinha e ver as sobras, de repente tem tudo para uma macarronada ou ensopado e até pão da manhã do mesmo dia – normalmente chegas para albergar-se depois do meio-dia - está à disposição.

O Peregrino só tem que escolher o que vai fazer e separar para si, caso falte alguma coisa, um pedaço de carne, uma lingüiça, salsicha ou um molho de tomate, é só ir ao mercadinho (tienda) e adquirir. No final do Caminho, a economia será com certeza bem substancial e ainda pasmem; tem Peregrino que quando em Albergue pago, chora o preço, ou diz que não tem dinheiro, ou diz que está duro, e conta sua história, e normalmente o hospitaleiro(a) deixa que sua dormida seja ‘di gratis’.

Por último ela, a encarregada, mais sorridente ainda, havia me mostrado a privada, que diferentemente de nossas casas é separada do chuveiro, e qual a razão?,  é que na maioria dos Albergues a parte de higiene e limpeza é num saguão só, imaginem! Tudo unisex, para choque das peruas brasileiras, que só iam para aquele departamento à noitinha, quando todos os homens e mulheres estrangeiros, incluo aqui os homens brasileiros, já estivessem banhados e aliviados dos supérfluos intestinais.

Vais sentir também que o Caminho é pura aprendizagem à cada passo, uma nova experiência adquirida à cada segundo, foi assim que com todos os sentidos abertos e alerta para tudo apreender, aprendi muito sobre o comportamento feminino: - Mulher peregrina não pode ver um bar, botequim, tenda ou qualquer lugar público, ela tem que parar. Após uma acurada e demorada observação, cheguei a conclusão que até mesmo a mulher estrangeira não gosta de agachar-se no matinho para satisfazer suas necessidades fisiológicas básicas; se prendem, pensam em coisas mis, sei lá o que fazem para esquecer a vontade, mas sei que se agüentam quase sempre até o sanitário do estabelecimento mais próximo, digo quase, pois na minha curiosa pesquisa, observei calças compridas e bermudas molhadas na altura conveniente. E a cistite, como vai?

Perguntei a duas finlandesas de Helsinque, bem liberais, que se tornaram minhas amigas durante os encontros e desencontros do Caminho, o porquê do receio, e elas me responderam, que o ideal mesmo seria que os Peregrinos NUNCA olhassem para trás, pois essa sensação de estarem sempre sendo observadas, fazem com que até mesmo a mais desinibida fêmea, tenha certas vergonhas em ser flagrada em momentos como estes.

Nem esqueço que a mulher brasileira é mesmo uma parada, apesar de que, a grande maioria no final da peregrinação já está mais liberal, e entende que Peregrino não é ele ou ela, Peregrino é assexuado (com exceções). Aquele que está realmente no Caminho, não vê pessoas, e sim indivíduos iguais a ele que têm um objetivo em comum, (presta atenção que não vou repetir): - O equilíbrio total entre a Inteligência e a Vontade; e o Corpo, a matéria. Quando consegues este tal equilíbrio, ou perto muito perto dele chegas, és um aspirante remoto para conseguir, sentir ou ver a “Luz”.

De repente nos primeiros e segundos dias, até que senti curiosidade, talvez por ser do Terceiro Mundo, talvez por não ter a velha cultura européia dos colonizadores do mundo então civilizado, encravada no meu ser, diluída que foi pelo sangue índio misturado com o do negro, o que nos coloca com um pé na cozinha, outro na selva e outro muito longe e tênue na velha cultura, o que me deu a liberdade de curiosamente olhar para bumbuns e ‘otras cositas mas’, de homens e mulheres que despidos ficavam à nossa frente, nos banheiros unisex ou à noite nos dormitórios, quando sem cerimônia trocavam suas roupas mal cheirosas, pelo pijama ou outra coisa qualquer mais limpa, às vezes transparente, para dormir e realmente descansar um corpo merecidamente necessitado de conforto, toda a atenção e carinho pelo menos no vestir.

-: III :-

Peregrino brasileiro é meio diferente, e a grande maioria vai mesmo é para o restaurante ou pensão para alimentar-se e não para comer seu jantar ou ‘cena’, que começa normalmente às 20:00 ou 20:30 horas; há lugares que inicia às 21:00 horas, uma loucura principalmente para o católico, que desde Roncesvalles, ficou quase que com uma obrigação de assistir a Missa do Peregrino, mas como todos, tem que comer rapidinho e recolher-se ao Albergue às 22:00 horas, já que o hospitaleiro(a) tranca a porta neste horário.

É um aviso que ele já te dá logo que chegas a ele para carimbar tua Credencial de Peregrino e; ou escolher ou ter a cama indicada por ele, ou ainda receberes um colchão para não dormires diretamente no chão se chegas muito tarde ao Albergue e não há mais camas disponíveis. O que posso te afirmar é que sempre consegues um lugar de repouso para tua máquina cansada, que é tu mesmo, só que para diferençar é a única da marca, sem similar, outras podem, até ter as mesmas características ou nome igual, mas tua máquina é a única no mundo, nada igual existe; mesmo que não o queiras, és especial.

Quando comento que nós brasileiros temos comportamento diferente, é que normalmente vamos com dinheiro suficiente para comer fora, já que diferentemente dos europeus, para nós é uma viagem bem planejada que fazemos desde o Novo Mundo até a velha Europa, o que não acontece com o pessoal de lá mesmo, que é só pegar um ônibus ou um trem e rapidinho tá dentro da Espanha, escolhendo o lugar, a cidade,  de onde quer iniciar sua peregrinação.

Ademais, homem brasileiro não é de cozinhar mesmo e mulher brasileira, quer mais é um descanso, pois normalmente ela é a cozinheira da casa ou pelo menos ajudante desde que se conhece como gente, e mesmo aquelas que têm ou tiveram domésticas, amargaram momentos sem tê-las ou quando querem conquistar o ‘seu’ homem fazem o extremo sacrifício de adentrar à cozinha para preparar um quitute de uma receita especial, seguidoras que são do ditado: “O homem se pega pelo estomago!”.

Sendo assim, como há um certo equilíbrio entre homens e mulheres oriundos do nosso Brasil, é muito normal ver nos restaurantes uma grande maioria de brasileiros, ainda mais quando vamos chegando nos lugares onde os Albergues são baratinhos ou ‘di gratis’. Quando falo que há Albergues de graça, falo daqueles que são construídos e mantidos pelas prefeituras locais, em alguns até o hospitaleiro(a) é funcionário da Prefeitura. Mesmo assim, há uma caixinha, onde os Peregrinos podem colocar sua contribuição, oferta ou doação.

De fato! Há Albergues nos quais o tratamento do hospitaleiro e as condições de conforto para o Peregrino, fazem a diferença e ficas quase que na obrigação de dar uma doação de até 500 pesetas (uns 5 reais); em compensação há uns que fica difícil se coçar, mas... de repente, na saída, deixas lá uma merreca, 200 ou até 100 pesetas, pelo menos para aliviar o coração e mostrar humildade.

É Peregrino... as coisas mudam e tu nem sentes, nem vês; simplesmente as faz...

Brasileiro junto é aquele movimento, nem italiano ganha da gente, há uma força maior que de nós toma conta e faz com que falemos muito e falemos alto, quando entre nós, pelo menos nos começos do Caminho, é assim que a gente se vê, nós brasileiros, mas lá pela metade da peregrinação muita coisa muda. Muitos nem revelam sua origem, outros bilíngües ou trilingües, quando falam é em um idioma diferente, não é para esnobar, e sim para ficar no clima de uma viagem para o exterior, pois que no fundo, pra falar Português, nem precisava gastar verdinhas e vir pra outro continente.

Em suma: ─  introspecção é a tônica, ninguém perdeu a alegria, imagina!, mas transformações houveram com certeza.

- Coisas do Caminho!

-: IV :-

Tendo em mente que Peregrino é aquele que anda por terras estranhas com um destino final, sabedor do meu destino; começo aqui minha rotina de Peregrino militante, e entro no Caminho à procura de nada, sem nada querer ou pensar, mas esperando algum acontecimento, pois sabedor de que, se milhares para aqui foram atraídos, crentes e descrentes em Deus e em seus Santos, assim como os conquistadores desde tempos remotos, que procuravam alguma coisa valiosa e sempre encontravam o que queriam mesmo que o valor só viesse a ser dado nos dias de hoje, pois todos aqueles que para o Caminho vieram, inspirados ou não, com boas ou não tão boas intenções, eram frontalmente contra um adágio que diz:

- Quem procura o que não sabe, quando acha não encontra!, mas o Peregrino sabe, mas pensa que não sabe, até que a Luz abre sua mente e ele passa a tudo ver e sentir. Nova vida com limpeza interior.

Sendo assim este Peregrino incluindo-se aos milhares que passaram e somando-se ao que ainda virão, tem a certeza real que encontrará a razão do desafio de quase 850 km, mesmo sabedor que foi chamado, mesmo com um sentimento de que poderá não ser o escolhido, mas com fé, muita fé no porvir desconhecido e estranho, peregrinando que está por lugares ainda mais estranhos para um cidadão urbano, morador de uma grande cidade brasileira e perigosa.

Ana Paula Perón, de Sampa, Marco Pingret, de Brasília e mais duas irmãs Inês e Selma, do Rio,  que conheci no avião e rachei o táxi até Saint Jean Pied de Port, nem tive mais contatos com eles todos, pois fomos nos separando pelo Caminho. A Ana e o Marco ainda deixaram recados e bilhetes para mim, nos livros dos Albergues e assim pude identificá-los melhor.

Copiei os bilhetes deixados nos diários dos Albergues e nos quadros de aviso dos cafés, e está tudo juntado no meu ótimo livro guia “El Camino de Santiago a Pie”, que recomendo ser levado, mesmo pesando um pouquinho, pois na verdade, tenho agora um diário vivo e ao lê-lo vez em quando, me reencontro no que fui e apercebo a mudança que em mim aconteceu. Tá tudo nele, pois no final, já desde Ereixe, mudo até o enfoque dos meus escritos.

Vale a pena carregar o livro guia e o peso extra é na verdade a nossa bagagem mental descrita nele; razão pela qual sou a favor que se leve e se preserve o mesmo como um diário diuturno do acontecido. Ah! Minhas divagações noturnas!

Nem ouso falar do prazer de após um banho renovador, tomado no Albergue, se pegar o livro guia e folheá-lo, revendo o que se já passou e preparando o roteiro do que pensas que vais fazer nos próximos dias, digo... Pensas, porque o Peregrino é uma Metamorfose Ambulante que na verdade nem é dono de si mesmo, normalmente acaba não cumprindo os roteiros e horários assinalados no guia, fica tudo anotado ali, e é uma diversão alegre no anoitecer do presente e uma fonte de prazer e saudades no futuro, quando de volta para o lar.

-: V :-

Pois bem, são 07:40 horas inicio minha Peregrinação saindo de San Jean Pied de Port na França, na manhãzinha do dia 19/Mai/2000; e estamos atravessando o pórtico inicial do famoso Caminho de Santiago de Compostela, lá nos altos da cidade francesa; é como se entrássemos num mundo diferente, mas já nosso conhecido, uma cidadela dessas que se vê em filmes medievais, ultrapassamos o primeiro muro, a primeira muralha de defesa da cidade, passamos por ruelas estreitas que foram de terra ou barro escorregadio, mas hoje descaracterizadas são pavimentadas e cheias de ralos, bueiros e todo o tipo de tampas de ferro que escondem dentro da terra o progresso contemporâneo, o que mostra um exterior para nós sonhadores, sem fios aéreos ou coisas novas no ar, deixando a cidadela, pelo menos quando se olha para o alto, ainda um pouco parecida com o que fora.

Ao atravessarmos a primeira muralha, olhamos lá para cima do monte pelo qual passamos vadeando, e vemos uma segunda muralha, mais alta e larga, que seria a proteção do mandatário, rei, duque ou o que fora, e onde se divisa uma ponte levadiça; tudo como num filme, e lembranças remotas vêem-me à mente:

-  Desde criança tinha a mania de comparar ficção e realidade! Onde começa uma e a outra termina? Ainda levado no fascínio dos contos e histórias fantásticas, minha imaginação sempre voou nas leituras próprias para leitores infantis.

Livros que relatavam histórias antigas eram meus preferidos, coisas de conquistas desde Geghis Kahn passando por Átila, o flagelo de Deus, por Alexandre, o Grande, até o esplendor Grego e a decadência romana, sem esquecer Napoleão, já que gostava dele por ter sido o homem que fez o Brasil virar um país. (quando chegou minha idade de ir para a escola, sempre tirei notas máximas em História e Geografia, viu)?

Meu sonho tornava-se realidade naquele momento, pois nem precisava fechar os olhos para vivenciar o que tinha na memória desde sempre, tinha a sensação real de estar no meio de gente, que por ali passara nas centenas de anos anteriores, a presença era real e vivia isso com uma tal intensidade que caminhava sem sentir; nada via; nada percebia, mas para frente ia, olhos abertos, mil olhos precisava para localizar a seta amarela ou o quadradinho tipo bandeira vermelho e branco, que nos colocava no Caminho certo.

É claro que com meus companheiros da primeira jornada até falava algumas coisas e gravei até alguns trechos de conversas que tivemos, mas eu era mais de um, estava multimentalmente dividido. Uma parte minha olhava tudo, outra sentia, outra falava e outra ouvia e tudo minha inteligência apercebia e gravava como um voraz “Hard-Disk” de infinitos Gigabytes.

Por momentos lembrei-me de discussões que tive com amigos, pois fiz um curso básico de Teologia Cristã e nem quero ouvir falar de vidas passadas ou espiritismo, e ali senti mais uma coisa importante a meu favor. Minha vivência e tranqüilidade naquele ambiente, a razão de estar tão à vontade dentro daquele quase sonho, aquilo que me fazia sentir como se já por ali passara ou até vivera, vinha da minha curiosidade infantil, do que lera, do que ouvira os mais velhos comentarem, do que ouvira no rádio e do que lera em revistas em quadrinhos e apreciara nos cinemas. Lembra-te que nasci em 1938 e que a TV só chegou no Brasil em 1950. Meu tempo era o tempo quando se tinha tempo para ler e ouvir com prazer a conversa dos mais velhos, xeretando e perguntando as partes da conversa ou palavras que não entendíamos, mas que às vezes não nos eram explicadas, pois proibidas.

É claro que tudo o que li, vi ou ouvi, armazenado ficou em minha memória desde então e isso servia-me como uma explicação clara e simples do que no momento sentia. Nem estava assustado ou temeroso, vivenciava cada sensação como se sempre ali estivera, fazia parte sim daquele movimento de gente, que hora corria com baldes de água para um incêndio apagar, hora estava na Igreja rezando à Deus ou escondido, usando-a como último refúgio ou proteção para evitar a morte, já que a pilhagem era inevitável. Entendi também porque as paredes das construções eram de pedras grandes e largas e as da Igreja maiores ainda, tudo feito já se prevenindo pilhagens seguidas de incêndio que neste caso ficavam mesmo só nos telhados que eram de palha, sendo que os mais prevenidos já construíam suas casas cobertas com ardósia e por cima colocavam palha, que às vezes tornavam-se vivas e a casa tinha em seu telhado uma selva em constante desenvolvimento; eu imaginava ao ver este turbilhão de imagens que qual caleidoscópio por minha mente passavam e tudo compreendia e entendia. De fato fazia parte de tudo aquilo, com certeza; com a vantagem de que sabia a razão básica, e medo não tinha, nem teorias criava, vidas passadas, ah! Eu estava ali é no presente mesmo, vendo e sentindo tudo como se verdade fora, mas tinha um pé, uma ligação com o meu hoje e tudo se encaixava perfeitamente com o que sempre defendi.

Passamos por uma linda e sólida ponte, que posso chamar de a saída da cidadela de Saint Jean Pied de Port, é por um pórtico igual ao que entramos que saímos para pisar e atravessar a ponte; antiga como o tempo e olhando-se para as margens do rio do lado de onde viemos e tem o pórtico, vemos logo acima uma muralha menor, já que seria como uma primeira muralha, essa natural, o rio, e a muralha construída de pedra a defesa para os arqueiros e defensores da cidadela.

Desembocamos na cidade normal, ou casco novo, como alguns chamam a parte nova, com construções modernas e sem muros altos e de pedras enormes e das vielas de paralelepípedo que caminhávamos desde quando ultrapassamos a ponte, passamos a caminhar sobre asfalto.  Mais moderno; impossível!

E acordo com a primeira de muitas interrupções, que a realidade me trazia: - Puxa! Cadê a seta amarela? Vamos procurar, tem que existir uma, mesmo que pequena seja, aqui é uma encruzilhada de mil caminhos; e como novatos entramos na nova realidade de fazer crescer mil olhos, ter uma cosmovisão, ter um sentido de direção mais apurado, para não se perder, para não andar mais do que os 800 km prometidos.

Vai daí que, como éramos cinco, isto é pelo menos cinco mil olhos, todas as setas amarelas achamos e seguimos nossa subida dos Pirineus numa alegria de primeiro dia de peregrinação pelo Caminho, rindo dos carneiros coloridos, não era visão não, eles são pintados mesmo, talvez para melhor serem vistos pelos seus donos na hora de separar os de cada um, ou talvez para serem mais bem percebidos dentro da nevoa opaca que é uma constante naqueles píncaros friorentos com uma constante chuvinha miúda, tipo a velha garoa que nos faz lembrar Sampa. Por horas subimos e conosco o som do blém-blém, que vem dum sino que fica pendurado no pescoço de uma daquelas ovelhas coloridas, talvez seja sempre a de cor azul, que é o que procuramos ao olhar para o céu que promete limpar, mas seu cinza nunca muda.

De repente as coisas vão ficando claras, o céu vai se transformando num azul lindo e sem nuvens, mesmo assim, nada de sol nem de calor e o pior é que o vento aumenta de velocidade e o frio, nosso desconhecido, se apresenta à européia, vai fundo nos ossos da gente pra mostrar que gente de país tropical não tem moleza nas europas não.

Olho para o lado e vejo companheiros de luva, de capa, de lenço ou pano na cabeça, e assim mesmo tremendo... Suando e tremendo, ante o esforço da escalada; mas vejo também nas margens da subida do íngreme Caminho, tênis usados, escovas de cabelo, camisetas de algodão, chinelos, bolsinhas de toucador com objetos de beleza da mulher. entre dezenas de outros supérfluos abandonados, vejo até garrafas de vinho francês, quem diria; é o começo do conhecimento, a entrada no caminho das verdades da vida, peças que um dia julgávamos tão necessárias para nossa sobrevivência, quando começam a doer no lombo e nos ombros, mesmo que não seja nessa ordem -  pois que no futuro, vi ombros descarnados, gente com pedaços grossos de espuma embaixo das alças da mochila pra agüentar pesos de última necessidade, nada mais podendo ser tirado para ser remetido para Santiago de Compostela via Caixa-Postal dos Correios ou para ser jogado fora - e a mochila está lá, pesada, pesadíssima, como se ao peregrinar no Caminho de Santiago, todos os pecados que cometeras em tua vida viessem ali se esconder, cada um com seu peso, somados geometricamente ao tempo em que foram cometidos e os males que causaram.

É muito peso mesmo. Quem não tiver pecado que duvide. Ou se achas que é uma inverdade, vai lá fazer e depois me conta a diferença entre supérfluos; o necessário e os pecados que pesam desde a inocência perdida. Que no meu caso já se lá vão muitos... muitos anos.

Ao caminhar algumas vezes em último lugar, veio a minha mente lembranças de infância ao ver meu amigo Marco e as minhas amigas caminhando à frente, bamboleando como se fossem crianças em fase de crescimento, e ainda não dominassem bem seus membros inferiores. Eles não andavam em linha reta, iam de um lado para o outro nos caminhos mais largos e não conseguiam se manter certinhos nas picadas, logo raciocinei que aquilo só podia ser coisa de novo-peregrino, que tem tanta coisa pra pensar, tanto desafio a vencer, que nem sabe ou sente que está andando em ziguezagues, e todo desengonçado. Uma análise interessante para futuramente ser feita por especialistas em comportamento das crianças e adolescentes, comparando com adultos que iniciam-se na prática de longas caminhadas.

Lembrei-me também dos adolescentes que vemos hoje em dia, o que é mais uma confirmação de que nós seres humanos não mudamos nada, desde há muitos e muitos anos, nesta passagem de criança para adolescente, pois que eles ainda andam meio que largados, meio que desconjuntados face ao tamanho dos braços e das pernas, que crescem um pouquinho mais a cada dia, tornando a adaptação difícil, e a gente que nota o detalhe, algumas vezes tem até que rapidinho trocar um riso por sorriso, para não envergonhar ou pegar mal, pois com a sensibilidade comum da adolescência poderíamos ferir sem querer um ser também emocionalmente em crescimento, por toda a vida.

Chegamos ao cume dos Pirineus, lugar por onde passou Napoleão, em 1807, quando começou a invasão da Península Ibérica, estamos pisando a famosa e histórica ‘Ruta Imperial’, a passagem heróica entre França e Espanha, ou como quiserem entre a França e a Península Ibérica.

Vista linda minha gente, outras montanhas majestosas à nossa volta, assim como longínquas casas, sítios e como não podia deixar de ser rebanhos caminhantes de carneiros e ovelhas coloridos, nem dava para ouvir o badalo, mas a gente sentia o som, pode? O frio era mesmo de gelar, mas batemos umas fotos lindas e alegres e felizes festejamos nossa conquista de tão alta monta e numa felicidade sem fim já pensávamos na descida agradável que seria, mas...

-: VI :-

A realidade começou a mostrar sua face, vínhamos ali tranqüilos e conversando ante a facilidade da subida, quando os cinco mil olhos viram uma seta amarela que apontava para uma saída à direita, completamente fora do caminho asfaltado que estávamos. Atônitos. Paramos! Conversamos, discutimos, chegou mais gente que vinha atrás de nós, todos novatos Peregrinos e decidimos seguir a seta amarela, para isso tínhamos sido alertados desde sempre: SIGAM SEMPRE AS SETAS AMARELAS!!!, em caso de dúvida olhem em volta, procurem, façam seus mil olhos funcionarem, um instinto de direção aparecerá e com certeza seguirás o Caminho certo. (Neste ponto creio que existe verdade no auxílio de Santiago, mesmo quem nele não crê, sente uma pressão na nuca, quando escolhe o caminho errado, é uma sensação desconfortável, sei lá, de repente pode até ser que os instintos primários latentes adormecidos acordem e pelo menos nos mostrem que não estamos perdidos, e sim desorientados e que temos que fazer os que nossos ancestrais faziam, ir para frente, sem dar voltas no mesmo lugar, para isso prestando atenção ao detalhe deixado por quem passou primeiro, um galho quebrado, buracos sucessivos na terra, marcas da ponta de um cajado, ou uma indefectível marca de sola de bota moderníssima que traz uma sensação de alívio quando vista e percebida por nosso olhos, agora tão selvagemente abertos á procura da direção certa, a sobrevivência.)

O Caminho é realmente o que escolhemos ou que a seta nos mandou seguir, e toca de subir mais um poucão, nada de subidinha, é o maior subidão mesmo, e o pior, nem é asfaltado e foi a primeira de muitas vezes que nos lembramos da banda de rock  Rolling Stones”, ou ao clássico "Like a Rolling Stone" do fantástico Bob Dylan; é muita pedra solta rolando, é o primeiro perigo real que enfrentamos, damos uma caminhada de 500 metros e já paramos estafados e meio cabreiros, isto é com medo de despencar dos altos, mas continuar sempre para frente seguindo o Caminho faz-se mais forte, e vencendo essa estranha sensação de receio que sentimos por vez primeira, chegamos numa altura que é a divisa fronteiriça entre a França e a Espanha ou como dizem os de lá: - “França basca e Espanha basca”, nem me meto em política e nada tenho com isso, sou Peregrino e quero mesmo é ralar e chegar em Santiago de Compostela; mas que escutei, escutei!

O lugar de repouso que paramos, se chama Fontain de Bentartea, tem água cristalina, é  acolhedor e cheio de placas com homenagens e outros dizeres, em uma dessas placas, lemos o seguinte: - “Santiago de Compostela ‘765 km’, mas na verdade do livro seriam 757 km”. Nem sei quem tem razão; o que sei é que monto um esquema com 850 km ao somar as idas e vindas nos lugares onde dormimos e mais os atalhos errados que às vezes contra nossos instintos primários seguimos, e como sempre quebramos a cara.

Tu tá resmungado, no mapa está 774 km de Saint Jean Pied de Port até Santiago de Compostela, estás certo; mas é que temos que somar as caminhadas que descrevi acima, umas são até sem mochila dentro das cidades e vilas, mas as erradas em sua maioria, são mesmo com a corcova portátil, meu querido! Minha querida!

Depois de adaptado para os padrões do Peregrino, sempre tentei seguir os conselhos que aprendi num e-mail:

1º) Nunca tome atalhos em sua vida, caminhos mais curtos e desconhecidos podem custar a sua vida;

2º) Nunca seja curioso para aquilo que é mau ou mal, pois a curiosidade para o mau ou mal pode ser mortal; pense sempre no bem e no que é bom;

3º) Nunca tome decisões em momentos de pressa, ódio ou de dor, pois você pode se arrepender e ser tarde demais.

-: VII :-

Repousamos legal, estamos descansados, obaaaaa... regozijo total,; agora é só descer…

De fato a coisa foi mais para descer, salvo pequenas ondulações e quando a descida chegou realmente, foi uma loucura, e conversando depois, achamos que a subida fora até melhor, também pudera, se foi feita quase toda no asfalto onde nem se precisa ter cuidado e ver aonde se pisava.

É a hora do cajado, bordão, báculo ou bastão.  Sentes a necessidade do dito cujo realmente, e te lembras logo dos cajados famosos da história como o de Moisés, para ficar num exemplo clássico. De fato o cajado é mágico mesmo, é milagroso e te ajuda nos momentos que precisas da terceira perna, pois sabes que tripé tem mais equilíbrio, apesar de haver Peregrinos que exageram e viram quadrúpedes mesmo, usando logo dois bordões, na sua maioria europeus acostumados a andar na neve ou esquiar com aqueles ferros que têm uma argola na ponta; bom pra eles, mas pra nós um bordão já é o suficiente, ainda mais que NUNCA podemos esquecer do peso total que temos que carregar.

Quem vem de Saint Jean, já traz seu cajado numa boa, pois está mais esperto e sabe que vai precisar mesmo, e que ele é de muita valia, quem sai de cidades da Espanha, reluta em comprar e carregar mais aquele peso e perde uma oportunidade incrível de ratificar a mágica existente num cajado.

Outros mais ou menos exagerados ou crentes nos poderes nativos, como o Marco Pingret, trouxe logo um báculo especial colhido e aparado  numa chácara que pertenceu aos avós dele no Rio Grande do Sul, e benzido na Capital do Brasil, onde ele reside atualmente com a família. O bordão do Marco ainda tem medalhas e fitas adornando-o como se fora daqueles usados na Folia de Reis ou Boi-bumbá, uma beleza e com certeza com superpoderes advindos do Rio Grande do Sul somados ao do nosso místico Planalto Central.

Maravilha total, pois há que se crer… Sempre...

Numa curva da rocambolesca descida, depois de seis horas de dura caminhada, temos uma visão de um castelo e mais perto vemos que são os altos de uma igreja, e a cruz cravada no mais alto daquela construção tão imponente, nos dá a certeza; é Roncesvalles, nossa primeira parada para descanso e a perda de nossa virgindade peregrina, pois agora somos Peregrinos de uma jornada; já temos experiência de caminhada, não somos iniciantes, não somos neófitos e sim novatos Peregrinos.

Adentramos no grande monastério à procura da hospitaleira e seu carimbo e quando achamos a sala onde ela se encontra, não é ela ainda, e sim uma jovem secretária ávida por estatísticas, nem precisamos falar e somos recebidos com um meio sorriso e ela nos estende um questionário para preencher; menos mal, já que terminamos a primeira jornada e podemos tirar a mochila e descansar um pouco. Nervosos preenchemos o catatau de informes e assim que o entregamos, ganhamos a necessária carimbada e nos é indicado o caminho para o refúgio, camas com colchão e travesseiro, e banheiros que para algumas menos desavisadas é horroroso porquê unisex.

Falam em alta voz os que mais cedo chegaram; o jantar é comunitário e consta de primeiro prato, segundo prato e sobremesa (postre), é preciso pagar mil pesetas e pegar uma senha, pois num povoado em que ninguém mora, somente o pessoal que presta serviço aos Peregrinos e aos turistas; restaurante é luxo que não existe, o que existe são refeitórios melhorados, onde ao pagares adiantado os responsáveis sabem quantos vão comer e fazem a comida necessária para todos. Tudo calculado, sem excesso ou escassez; no que uma canadense mais esperta, murmura pra mim quando ao final do lauto jantar, deixo sobras substanciais no prato, já que não sou muito chegado a truta ou outro qualquer peixe de água doce:

- Eles aqui acautelam porque já viram a fome ou souberam dela em tempos passados. Nós do Novo Mundo somos privilegiados neste particular desperdiçamos sem a menor cerimônia.

Fico interessado, raciocino a profundidade do que ouvi, mas não volto a comer, mesmo ante ao olhar reprovador da bela garçonete que vem pegar o segundo prato, nos preparando para a sobremesa a escolher, sorvete (helado), ou flan.

Nem posso esquecer o vinho tinto ou branco, que junto com o pão e a água são colocados obrigatoriamente à mesa a cada refeição em toda a Espanha, como parte que são do Menu do Peregrino.

Melhor mesmo é escrever algumas preparações para o teu dia à dia lá em terras de Espanha:

Os espanhóis fazem o desjejum (desayuno), comendo coisas leves:

Torradas (tostadas) ou bolachas (galletas) com manteiga (mantequilla) ou

Mermelada (geleia) e mais uma xícara de café com leite (café con leche).

De manhã é só pedir: (Café com leche y pan com mantequilla).

O almoço = a comida começa geralmente a partir das 13:30h (antes dessa hora dificilmente eles servem refeições).

Nas portas dos restaurantes = Comedor, Mesón ou Asador; há sempre um cartaz escrito Menú del peregrino ou Menu del Día.

Assim você já fica sabendo o preço que é geralmente 1000 pesetas o que dá uns 10 Reais. Cuidado ao pedir pratos à la carte, sai caro!

A lista do Menu do Peregrino, te mostra todas as opções de Entrada ou primeiro prato, Prato quente ou segundo prato, e sobremesa (el postre).

Ao sentares à mesa para uma refeição, é obrigatório ser colocado pelo garçom, o vinho = vino) e o pão = pan.

De primeiro = Primeiro prato:

Ensalada mista (salada com alface = lechuga), tomates, cebollas, asparragos.

Sopa (de todos os tipos).

Paella =  Paella é uma entrada.

Macarrones = massas .

De segundo = Segundo prato:

Batatas fritas ou cozidas = papas fritas o cozidas à escolher.

Frango frito ou assado = Pollo frito ou al horno.

Bife = Filete de ternera .

Lombo = Filete de lomo.

Bisteca

Truta = Trucha.

Ovos = Huevos (cozidos o mexidos).

Sobremesa = El postre:

Pudim = Flan

Natillas é um mingau de leite com gema de ovo um biscoito maisena e canela em pó !

Yogurt = Yogurt.

Frutas: uvas, melon, piña al almibar = abacaxi em calda; pêssegos = melocotones.

Banana =  plátano de las Canárias.

O jantar = cena, começa normalmente depois das 20:30 horas e pedir antes é bobagem que eles não servem mesmo. O menu do Peregrino é sempre a opção.

Glossário:

Café grande = Xícara de café.

Cortado = cafezinho pingado.

Naranjas = laranjas

Fresas = morangos

Zumo =  suco

Cacahuetes = amendoim.

Frutos secos = nozes, amendoas, amendoim e frutas secas

Coca Cola = Coca Cola

Leche = leite

Tinto = vinho tinto

Helado = sorvete

Chorizo = uma espécie de linguiça

Pastel = bolo

Chocolate = chocolate

Azucar = açúcar

La Sal = sal

Te = chá

Hielo = gêlo

Pescado = peixe pescado     Pez = peixe vivo

Tenedor = garfo   (bem diferente)

Faca = cuchillo

Colher = cuchara

Servilleta = guardanapo

Vinito = um copinho com vinho

Vaso = copo

Taza = xícara

Botella = garrafa

La carta = o cardápio

Aceite de oliva = azeite de oliva

Aceite = óleo

Grasa = gordura

Aceitunas = azeitonas

Zanahorias = cenouras

Judias = vagem

Col = couve

Bacalao = bacalhau (fresco)

Los Servicios = o toalete

La cuenta = a conta

Propina = gorjeta igual no Brasil, 10%

-: VIII :-

É um dos senões do Peregrino que dorme em Albergues por todo o Caminho. Tempo não existe para descansar o jantar, e para os católicos é um pouquinho pior, pois a missa começa às 20:30 horas e o jantar às 21:00 horas, assim sendo a gente sai da igreja e já encontra o refeitório cheio, e como a ordem universal é servir à quem primeiro chega, nós vamos para cama às 22:00 horas com o peso do bolo alimentar ainda no gargalo o que dificulta sobremaneira um sono tranqüilo na primeira hora.

Disse pouquinho pior, porque aproveitava muitas noites após 22:00 horas para ir lá fora, numa área aberta, que a maioria dos Albergues têm;  para olhar, ver e admirar o céu diferente da Europa, ver sua Lua que pasmem, brilha igualzinho a ‘nossa’ Lua, mas o céu é diferente, faltam as constelações conhecidas tais como as Três Marias e principalmente o nosso tão querido Cruzeiro do Sul, mas nem tudo é perfeito do lado de lá, assim como não o é do lado de cá. Nessas horas é que uma lanterninha é eficiente e necessária, pois não há luz acesa após as 22:00 horas., e quem quer locomover-se, há que ter uma lanterna bem preparada.

Acima falava que o Peregrino sai da igreja, porém dentro da igreja de Roncesvalles é que acontece o primeiro choque, a primeira real emoção que toca o coração tanto do católico praticante que vai pelo menos todos os Domingos à Santa Missa assim como aquele que católico brasileiro comum, batizado e consagrado à Deus através Seu filho Jesus Cristo, denomina-se católico e só vai à igreja católica quando de um casamento, quando é convidado para ser padrinho de um casamento ou ainda para um batizado ou uma Missa de Sétimo Dia, pra ficar nos mínimos eventos.

Estamos todos dentro da igreja, católicos, praticantes ou não, simpatizantes e gente curiosa, pois esta missa, é a chamada Missa do Peregrino, e é bom ser abençoado e começar com o pé direito, fazendo tudo certinho, o que nada custa. Tanto para nós Peregrinos na segunda de muitas etapas quanto para a grande maioria que escolheu começar de Roncevalles mesmo, uns porque têm medo das alturas dos Pirineus, outros por terem o tempo contado e alguns por cautela para não se estropiar no primeiro dia ou cansar-se em demasia. Em suma, cada um tem lá seu motivo, que deve ser respeitado e é, pois o Peregrino procura tratar mais da sua vida e do Caminho, do que ficar questionando o porquê de cada um.

A Missa do Peregrino é eletrizante e emocionante, não descrevo para que o clima de curiosidade fique mantido, porém a emoção maior que senti, foi quando muitas pessoas brasileiras e estrangeiras, ao longo do caminho me contaram que católicos que eram e estavam afastados, sentiram lá dentro do Templo de Deus, uma necessidade extrema de comungar, mesmo sem a Confissão, como se com a Comunhão,  assumissem um ‘mea culpa’ pedindo silenciosamente sua volta ao redil, pedindo a proteção do Bom Pastor, que mesmo os descrentes sabem, nem é bondoso, pois é a própria Bondade. É um rolar de lágrimas silenciosas, um fungar tão sagrado que não irrita nem atrapalha o ritmo do Canto Gregoriano; eeeepa! Paro por aqui! Nada revelarei dos ritos daquele sagrado cantão espanhol.

No dormitório a sinfonia é incrivelmente dissonante, e é onde impera a lei da cama: “Quem ronca dorme primeiro”;  e cada um ronca embalado pelo seu diapasão pessoal e intransferível, maestro algum ousaria reger tais instrumentos, ficas até sem saber se quem ronca mais é o homem ou a mulher, e mais uma vez, sinto-me sortudo, pois li todas aquelas baboseiras de experientes Peregrinos e seguindo uma dica, trouxe meu par de silicones auriculares, aqueles que usamos em piscinas para impedir que a água entre no ouvido interno, o que minimiza o som desarmônico e dá chance para um descanso mais natural. Outros usam algodão ou outro tipo de artifício para minimizar o barulho externo, já que impedi-lo totalmente, é impossível, tal sua amplitude no silêncio da madrugada.

De fato é melhor dormir profundamente o primeiro sono, pois a coisa começa a complicar ali pelas 5 horas da manhã, pois no afã de não ficar exposto ao sol forte do meio dia, ou para chegar cedo no próximo Albergue e poder escolher uma cama melhor, além de ter certeza de tomar banho quente, os mais apressadinhos acendem suas lanternas portáteis, uns as prendem nos óculos, outros já as tem com um dispositivo que prende na cabeça, outros as prendem nos pulsos, o que sei é que luzes circulam varando a escuridão, como se estivéssemos numa discoteca de luzes estroboscópicas, e o barulho acontece como o previsto em todas as dicas, manuais ou guias; zíperes e velcros com seus sons diferentes, disputam qual é o mais barulhento e os sacos plásticos como num auditório surreal parecem bater palmas à disputa, com aquele ruído amarfanhado do plástico teimando em voltar ao seu estado natural, gerando uma cacofonia infernal e que incomoda até mesmo aqueles que a fazem, e o pior é que os apressadinhos já despertam falando, conversando, mas não no natural, normalmente como seres sociais, mas sim num ciciar de vários tons chocalhantes como pratos de percussão, que penetrando no silicone mais espesso, consegue tirar dos braços de Morfeu, o mais empedernido dorminhoco ou o mais cansado dos Peregrinos.

Só para registro, o zíper do saco de dormir pode medir até 2,30m.

Travo contato pela primeira vez com o Peregrino individualista ou rápido-Peregrino, que faz tudo correndinho para chegar primeiro no Albergue seguinte.

Uns ainda vão fazer o desjejum rapidinho, e como a cozinha é contígua ao dormitório, é um ranger de louça versus porcelana; é um bater de copos e xícaras contra colheres; um embate de frigideiras e panelas, contra escumadeiras, conchas e colheronas, tudo recheado de ais e uis, que podem significar desde lamentos até alegrias e ciciados em alta voz, como se tal coisa pudera acontecer; e como explicação, já tenho gravada em minha mente:

- Coisas do Caminho!

É o desenvolvimento da tolerância acontecendo alem da tua vontade ou até da tua percepção. É por isso mesmo que após muito tempo, quando estás de volta ao lar, pensas ou até sonhas com momentos que apesar de não sentidos na sua totalidade, encaixaram-se em ti, como pedras de um quebra-cabeça e nem notaste que num futuro fariam um todo e dariam forma a alguma coisa maior, inteligível, um passo a mais à perfeição humana que não é impossível, mas quase.

O Albergue é o caos!, e para mim, que da casa da mamãe, fundei meu primeiro lar com uma esposa que adorava o silêncio, respeitava o bem estar do próximo. Lar que tinha suas janelas voltadas para as faldas de um dos morros mais tranqüilos do antigo e pacato Rio de Janeiro, o que fazia meus descansos em finais de semana e feriados serem até hoje relembrados como uma mostra do paraíso.

Hotéis? De quatro estrelas para cima e suítes sempre voltadas para a parte mais sem barulho possível, mesmo que a vista fosse uma Rocinha dos bons tempos ou um cemitério urbano que hoje ostenta altos muros e portões com cadeados enormes e até seguranças ameaçadores, como se morto ou esqueleto pudessem ou quisessem fugir do Campo Santo, para o perigo iminente aqui de fora. Mudou muita coisa neste mundo! Pra que portão? Pra que cadeado grandão? Morto quer é paz e não a guerra deste mundo que não mais lhe pertence!

-: IX :-

 

Queres ficar na cama, mas irremediavelmente acordado, consultas teu relógio e calculas teus primeiros passos daquele segundo dia que promete e que já foi longamente estudado no dia anterior. Sem pensares em um aquecimento quando ainda deitado, jogas teus pés para fora da horizontal e quando os ditos cujos tocam os chinelos e dás impulso para te levantar, o peso da mochila e dos 25 km que fizeste ontem por vez primeira, te pegam de surpresa e sem saber porque, fraquejam os joelhos e sentes então tua virgindade perdida para sempre! 

És agora um Peregrino!, e ao passares pelo teu batismo de fogo e peso, sentes agora para tua satisfação o alívio do desvirginamento, pois hás sempre de pensar positivo, um Peregrino experiente como tu, nunca chora sobre o leite derramado, tem o lombo e o couro dos pés curtidos, aquele sob o peso da mochila e suas alças cortantes e estes, os pés, sob a mochila e mais teu peso, que às vezes é até excessivo – Puxa! Acho que devia ter feito uma dietinha antes de chegar aqui - mas és um forte, e dores do passado, quaisquer que sejam, não influem no teu dia à dia comportamental do presente por ti escolhido, e que à tua frente vislumbras, meio que numa bruma positiva que nada esconde, e te mostra a possibilidade do prazer futuro; ou seja: - conhecer e entender os segredos do bem viver numa sociedade injusta, os segredos do Amor, da harmonia dos seres dentro da mesma mãe Natureza, já que somos irmãos de pó, temos a mesma origem, dissociados somente quanto a forma, mas iguais no conteúdo com diferenças percentuais somente.

Para cima, para frente e para o alto, imitando o Super-Homem, és o Super-Peregrino; aquele que busca a própria razão de existir, com a vantagem de que criptonita jamais encontrarás em teu Caminho e sim pedras traiçoeiras que falsearão teus passos, e te forçarão a ser sempre mais cuidadoso em cada metro que caminhas. Verás que em fazendo assim, a própria Natureza está protegendo seus filhos rastejantes quer sejam rápidos ou lentos, de serem pisados e esmagados por ti, que ao veres um deles deslizando pelo chão, desvias teu pé numa rapidez que tu mesmo julgavas que nem serias capaz.

Imobilizado pelo poder maligno de um mineral alienígena, nem pensar. Estás na tua origem: - a mãe Natureza; estás em contato direto e envolvente com ela agora: - Gaia.  Vives no teu berço, na fonte que te deu a vida: - és dela, fazes parte ativa da tripulação da tua nave mãe Terra; portanto és parte de um todo e nada que encontrares à tua volta será maléfico, a não ser teus próprios semelhantes que desviantes, poderão te aborrecer se prestares atenção demasiada às maldades que se propõem a fazer.

- Coisas do Caminho!

 

-: X :-

A grande maioria dos Peregrinos, não toma desjejum ao acordar, preferindo uns dois ou três copos de água e um futuro café com leite reforçado com pão com manteiga mais tarde, o que torna interessante o constante encontro da gente em diversos cafés e restaurantes situados às margens do Caminho, ou um pouco fora, não mais de 100 ou duzentos metros do traçado original.

Vens cheio de fome, vês uma placa, café a 100 metros e nem discutes, entras nos becos ou vielas e deparas com o dito cujo fechado, não esmoreces e partes pra outra, na próxima aldeia com certeza já haverá um aberto, e assim, sem sentir, somas ao teu longo percurso de 774 km, alguns metros aqui, outros acolá e se puderas ajuntá-los todos num somatório infinito, terias com certeza uma soma de mais, muito mais de 850 km.

Quando por fim encontras um café aberto, lá pelas 10 ou 11 horas da manhã, já caminhaste bem uns 12 ou mais quilômetros, e ao entrares no lugar público, identificas teus companheiros de peregrinação simplesmente porque a maioria está ou de meias ou descalça, mochila ao lado e com uma alegria indefinível estampada na face, alegria mista de satisfazer tanto a vontade de comer quanto a necessidade de descansar as bases, nosso pés, que são nosso meio de locomoção por excelência, e se aguçares teus ouvidos quando te descalças e tiras as tuas duas meias de cada pé – o Peregrino mais esperto, usa por dentro uma meia fina que troca à cada dia de jornada, e por fora uma meia grossa que uns ainda lavam de 15 em 15 dias, mas outros não lavam até completar todo o Caminho, o que as deixa durinhas e mais protetoras contra bolhas (ampollas) ou outras lesões nos pés – vais dizer duas meias em cada pé tudo bem, mas sem lavar a que fica em contato com a bota? E o cheiro de chulé? E a sujeira que se vê ao tirar?

Te explico da maneira como um veterano do Caminho me ensinou: - a meia fina interna, que fica diretamente em contato com o pé, absorve todo o suor, toda a umidade que o pé exala, e nada deixa passar para a meia grossa externa, que fica livre de odores, mas não do pó do caminho.

Por lavares as meias finas todos os dias, evitas a fermentação do suor misturado com os cremes que usas para resguardar os pés e assim tens tua base livre de problemas ou quase, porque às vezes uma bolha teima em querer despontar, o teu pé manda uma mensagem para ti e se fores bem perceptivo evitarás seu aparecimento, usando esparadrapo microporo que é uma espécie de segunda pele.

Vi gente fazendo até botinha de microporo e colocando as meias por cima, evitando assim grandes problemas de dores, de andar mancando, de usar dois cajados como muletas e ter que parar dois dias ou mais em uma cidade, por total incapacidade de continuar, até mesmo mulheres que são mais fortes que o os homens quando se trata de dor.

Quando falo de percepção aos sinais mandados pelos pés falo de coisas que conheço, pois sempre conversei com meus pés, desde criança, e se prestares atenção às dez cabecinha, elas se mexem e ficam todas contentes quando fazes carinho nelas e com elas conversas, ficam felizes em sair daquela escuridão, onde suam, se atritam umas nas outras e sem meios de o evitar, emitem pequenas descargas doloridas para nossa mente, para que, se dermos atenção e um pouco de liberdade a elas, elas além de nos agradecer, evitarão problemas para nós.

Na verdade confesso que já ouvi uma conversa entre as cabeças dos dois dedões de meus pés e ouvi que elas não reclamavam do tempo que passam encerradas nas botas, mas sim o pouco caso que seus donos dão a elas ignorando-as quando livres de suas escuras e fétidas prisões; solitárias que ficam por tanto tempo e impossibilitadas de conversar entre si, as cinco cabeças de cada pé, só querem um pouco de carinho e atenção, pois são tão ‘humanas’ quanto nós.

De hoje em diante ao prestares atenção maior aos teus pés, com certeza um dia ouvirás sons como gritinhos de alegria ao fazeres carinho nos teus pés, não estranhe, não estás pirando, são as dez cabecinhas, agradecendo a ti, todo o bem que a elas estás fazendo. E o barulho é alto, é prestar atenção e conferir.

- Coisas do Caminho!

-: XI :-

Estava falando do à vontade no desjejum, e lembro-me que em alguns cafés, há placas pedindo que os Peregrinos não descalcem suas botas, mas é impossível cumprir tal ordem, mesmo sabendo que é um ambiente público e não privativo para Peregrinos, pois a Vontade neste momento sobrepuja a nossa Inteligência e na busca do conforto aceitamos até admoestações, sem perdermos nossa humildade.

Já falei dos outros motivos pelos quais, principalmente as mulheres, param em bares e cafés ao longo do Caminho, e para esgotar tal assunto, lembro que nos lugares que paramos para desjejum ou para comer alguma coisa, é que fazemos amizade e praticamos nosso aprendizado de outros idiomas, pois há Peregrinos que não têm uma segunda língua e ficam sem saber bem o que pedir, principalmente nos começos do Caminho, e aí como bom samaritano, há sempre alguém que dá uma traduzida explicativa e os ajudados mais atentos já memorizam para posterior uso.

Normalmente há um micro-mercado, ou uma venda (tienda), perto ou até no próprio café, e muitos já compram ali seu almoço, banana, laranja, maça, etc, ou pedem para se fazer um sanduba (bocadillo) ou compram os ingredientes – pão, queijo, presunto ou mortadela,  e o fazem, compram umas duas garrafinhas de água mineral e após calçarem suas botas, estão prontos para mais um recomeço. Pois como estás junto comigo já cooptastes que  peregrinar no Caminho é um constante recomeçar.

O interessante é que nos começos do Caminho, esqueces coisas nos lugares que passas, até no próprio Albergue, porém com o passar do tempo, desenvolves um sexto sentido ou procuras prestar uma atenção maior aos sinais mentais que tens, e se esqueces alguma coisa, te lembras antes de deixar o local onde dormiste ou perto do mesmo.

Para mim são nossos instintos mais primários que nos voltam à tona ou nosso corpo e nossa alma temendo pela sobrevivência; é que após um tempo de peregrinação no Caminho, só carregamos o estritamente necessário e esquecer ou perder uma coisa qualquer do pouco que temos, será de fato uma perda irreparável, que dependendo do lugar onde estás, impossível de repor, e tá na cara que todo o nosso ser adaptando-se à cada momento, tudo fará para sobreviver em boas condições, otimizando com o pouco um conforto mínimo para fazer que todo o sistema alcance sua meta final. A cabeça não pára não meurmão. Pensas silenciosamente e te pegas pensando em voz alta e vez em quando sai até palavrão. O corpo mecanicamente segue sempre em frente, acostumado que está em obedecer aos comandos anteriormente dados e pensados desde quando iniciaste a peregrinação ou até antes, quando ainda tua missão de caminhar estava em estado embrionário.

Levas susto quando te pegas falando alto contigo mesmo, é que agora tens tempo para ti, tens todo o tempo do mundo só para ti, podes te analisar e falar das conclusões tiradas para ti mesmo, nada pode ficar sem resposta e como não há para quem transmitir, falas contigo mesmo. Há algumas pessoas que pelos começos ainda consegue se manter em silêncio no Caminho, e vai guardando tudo pra quando chegar no primeiro telefone perto do Albergue ou dentro dele, soltar a voz torturada por forçosa mudez. Método caro com certeza, e por mais que o outro lado seja parente chegado ou distante, filho, filha, amigo ou amiga, o seja lá quem for, chega um determinado tempo que ouve por questão de solidariedade, mas não responde com o entusiasmo esperado, também pudera, está em outra, na mesmice do dia a dia de trabalho, estudo, ou seja, lá o que for. Não se encontra no mesmo clima do momento que estás vivenciando, e quando começas a perceber que estás mesmo é sozinho e que não consegues, por mais que queiras, passar o entusiasmo e a alegria que encontras no Caminho, reduzes tuas ligações com o teu particular mundo exterior e te formas como analista de ti mesmo, ouvindo-te e tirando tuas próprias conclusões. Começas então a aceitar tua voz solitariamente alta que de vez em quando ouves, e passas até a gostar dela ensaiando uma canção antiga do tempo que te ninavam ou mais recente, aquela que marcou tua vida, ou até mesmo alguma das que te marcaram e que vêem à tua mente por diversas vezes no Caminho.

A variação musical, de rimas ou prosa, depende mesmo da origem de cada um, pois o não crente tem lá suas canções, versos ou discursos preferidos, porém a tônica é a mesma, força e energia para caminhar e vencer, misturada com lazer mental, isso em horas que preferes ficar sem pensar em ti mesmo, pois não acostumas em ser teu próprio analista.

Estás realmente em paz com Deus, contigo mesmo, com a bela mãe natureza que exuberante te cerca e é teu momento, onde cada ato livre por ti cometido, é sempre primitivo, original e inesperado.

- Coisas do Caminho!

-: XII :-

Continuando no Caminho, passamos às vezes duas, três ou mais horas sem ver outros seres humanos, em outros momentos pessoas passam por ti com o natural “Hola!”, sempre alegre, outras por ti são ultrapassadas e outras até tentam uma aproximação verbal, que normalmente dura pouco, pois cada um tem sua passada, cada um tem um objetivo talvez até maior do que o de somente chegar à Santiago de Compostela.

Muitos andam sozinhos, outros em grupo e quando são casais homem/mulher, dificilmente estão juntos um está sempre mais a frente e normalmente é a mulher.

Soube, porém de casais casados há muitos anos, que ao se distanciarem no Caminho, aproveitaram para se separarem também na vida a dois. Incompreensão, intolerância, ou mesmo a dificuldade de se estar junto por 25, 30 dias ou mais e ver a realidade do dia à dia, sem máscaras, pois em contato direto desde o despertar, passando por todo um dia de cansaço e proximidade mútua, onde um sempre precisa do outro, e sem máscara, pois estás realmente junto, 24 horas por dia e todo o dia, ficando separado somente quando dormindo, pois os Albergues não têm cama para casal, é cada um na sua.

Neste nosso moderno mundo onde a mulher está preenchendo todos os espaços possíveis e imagináveis, e o homem com certo receio vê essa competição como uma castração e vai a luta, trabalhando mais e mais, chegando em casa tarde da noite e já encontrando a mulher dormindo ou fazendo o mesmo que ele, trabalhando mais e mais, numa competição interminável, um fica sem ver as realidades do outro, por muito e muito tempo, horários diferentes, dois carros, grupos de interesse diferentes, amigos exclusivos, profissões às vezes completamente opostas, essa diversidade causa uma separação física e faz esquecer os hábitos diuturnos de cada um e logicamente a tolerância em aceitá-los.

Vai daí que ao peregrinarem juntos, dia após dia, os assuntos cotidianos vão se aprofundando e recordações nem sempre as boas ou ótimas é que vêm à baila, e como já citei acima; da nossa volta ao primitivo, ao instinto de sobrevivência, a valores que latentes afloram, verdades ocultas começam a aparecer.

Inebriados e impregnados pela liberdade que a mãe Natureza proporciona, não nos damos conta do que falamos ou de como agimos, já que sem a mordaça que a sociedade nos impõe, e longe da família e amigos, e mesmo sem querer querendo, coisas vão acontecendo pelas veredas, fatos há muito esquecidos despertam de seu sono mental-interior e como água ladeira abaixo ou fogo morro acima, há uma continuidade, talvez um nem fale com intenção de ferir ou machucar, mas sim de pulverizar, triturar ou dissolver as más pedras, às vezes tão pesadas que um carrega pela vida crescente desde o primeiro dissabor, e não querendo ter para a eternidade o sofrimento de Sísifo, prefere dar um final, chegar a uma solução, ou pelo menos transformar pedras em partículas palatáveis, para um viver melhor sem pesos na consciência, pois ao deglutir o pó das coisas ruins acontecidas e ora relembradas, os agora solucionados problemas descem pelo corpo adentro e vão para o esgoto do tempo, que nada arquiva e tudo envia para o ignoto.

Caminhei alguns trechos com um casal jovem, chamados Silvana & Andréas, me pareceu que estão saindo dos trinta e chegando aos ‘enta’ de onde só sairão quando chegarem ao centenário, porém como no Caminho todos os peregrinos têm a aparência remoçada, é fácil a gente se enganar para menos.

Com eles, observando seus comportamentos, pude ver e sentir, como as coisas aconteciam completamente diferente das elucubrações acima, ou seja, vi tolerância, compreensão, carinho, segurança, proteção e muito Amor entre eles, o Andréas imponente no alto dos seus 1,90 m, passadas largas, cabeça sempre erguida como desafiando a Natureza a mostrar somente seu lado bom, um Peregrino preparado para tudo o que aparecesse, inclusive sair da rota traçada para ver igrejas, monastérios ou aldeias sem vida, tudo para justificar sua presença no Caminho, cuja meta maior não é chegar ao final, e sim apreender o mais possível através fotos de sua máquina ou através seus olhos perscrutadores que tudo viam, questionavam o que era; ou com a gente que peregrinava junto, ou com os poucos camponeses ou proprietários cuidadores das plantações que vez ou outra encontrava. (Cuidadores chamo aqueles que vi aguando ou dirigindo um trator que puxava o arado, e no caminho que margeia a cerca a gente passa junto a um carro normalmente do ano, limpinho, apesar do caminho ser de terra, o que mostra como vão as finanças da pessoa que a gente vê tratando a terra; diferente de um lavrador, camponês ou servo de gleba de nossos estudos da Europa antiga).

A Silvana, pequenininha, com seus 1,64 m, atazanada que estava com suas bolhas exclusivas em ambos os pés, ora estava à frente, ora à nossa retaguarda, mas caminhava claudicante com a ajuda de seu cajado, sempre para a frente, sempre com aquele sorriso dolorido de quem há de chegar onde quer, mesmo que fosse a tão duras penas ou pernas!

Quando estávamos em uma parada técnica para lanchar, deitados embaixo de árvores acolhedoras e de frondosas sombras, estou lá dando uma massagem na minha canela encalombada e dolorida, quando a Silvana assim como sem querer, disse uma coisinha banal no meio de uma conversa de pessoas cansadas: - Manny! Já experimentaste andar com o cadarço das botas menos apertados? Na hora esta simples observação passou desapercebida, mas no dia seguinte ao calçar as botas, lembrei-me da singela observação e só sei dizer que dali em diante minha canela melhorou sensivelmente. Inexplicável analisar, talvez por estar iluminada pelo sofrimento continuo e atroz, a Silvana tenha falado aquelas cândidas palavras até mesmo sem sentir.

- Coisas do Caminho!

Para nós homens que perto dela estávamos, ela, em sendo uma fortaleza feminina, mesmo assediada dolorosamente por terríveis problemas nos pés, não nos deixava sequer a mínima chance de pelo menos reclamar de alguma coisa ou queixar-se de dor qualquer. Como mostrar fraqueza frente a uma mulher como a Silvana?

Cabe aqui uma definição ou descrição que recebi pela Net, nem sei quem é o autor, mas é assim:

          - Peça para um homem descrever um Mulherão; Imediatamente ele vai falar no tamanho dos seios, na medida da cintura, no volume dos lábios, nas pernas, bumbum e cor dos olhos.

Ou vai dizer que Mulherão tem que ser loira, 1,80 m ou mais, com as formas perfeitas à custa de anabolizantes e silicones, sorriso Pitanguy.

Mulherões, dentro deste conceito, não existem muitas: Vera Fischer, Xuxa, Feiticeira,  Letícia Spiller, Adriane Galisteu.

Agora pergunte para uma mulher o que ela considera um Mulherão e você vai descobrir que existem milhares!
- MULHERÃO é aquela que pega dois ônibus para ir para o trabalho e mais dois para voltar, e quando chega em casa encontra um tanque lotado de roupa e uma família morta de fome.

- MULHERÃO é aquela que vai de madrugada para fila garantir matrícula na escola; é aquela aposentada que passa horas em pé na fila do banco para buscar uma pensão de míseros cento e poucos reais.
- MULHERÃO é a empresária que administra dezenas de funcionários de Segunda a Sexta, e uma família todos os dias da semana.

- MULHERÃO é quem volta do supermercado segurando várias sacolas depois de ter pesquisado preços e feito malabarismos com o orçamento.
- MULHERÃO é aquela que se depila, que passa cremes, que se maquia, que faz dieta, que malha, que usa salto alto, meia-calça, ajeita o cabelo e se perfuma, mesmo sem nenhum convite para ser capa de revista.
- MULHERÃO é quem leva os filhos na escola, busca os filhos na escola, leva os filhos na natação, busca os filhos na natação, leva os filhos para cama, conta histórias, dá um beijo e apaga a luz.

- MULHERÃO é aquela mãe de adolescente que não dorme enquanto ele não chega, e que de manhã bem cedo já está de pé, esquentando o leite.
- MULHERÃO é quem leciona em troca de um salário mínimo, é quem faz serviços voluntários, é quem colhe uva, é quem opera pacientes, é quem lava roupa para fora, é quem bota a mesa, cozinha o feijão e à tarde trabalha atrás de um balcão.

- MULHERÃO é a que cria filhos sozinha, quem dá expediente de oito horas e enfrenta a menopausa, TPM e menstruação.
- MULHERÃO é quem sabe onde cada coisa está, o que cada filho sente e qual o melhor remédio para azia.

Veras, Xuxas, Feiticeiras,  Letícias, Adrianes Galisteus, Sheilas: mulheres notas 10 no quesito lindas de morrer, mas MULHERÃO na real, é quem mata um leão por dia.

E aí MULHERÃO, o que anda fazendo? Às amigas "MULHERÃO", parabéns!!

-: XIII :-

 

          A Silvana nada tem com isso, ou talvez até tenha; mas naquele momento foi o que veio à minha mente, peregrino também, e com a canela dolorida, ao olhar para aquele semblante de vencedora, mais força tive para seguir em frente, pois além da energia que deles emanava, talvez até pelo Amor que entre eles era tão visível,  apelei também para as palavras mágicas em forma dos nomes tirados de uma lista de amigos, que imprimi e levei num bolso fácil de pegar, e em momentos que nem sei precisar, lá estava eu lendo em voz alta, nomes de amigos e amigas, internéticos ou não, (porque de uns tenho nome e nickname), uns conheço muito bem, pois são minha família e amigos, que já estive em contato direto, olho no olho, pele na pele, cheiro arquivado nas narinas. Outros são virtuais. Amo igual! E nem sou a Gal!

          Ficou, porém uma pergunta que não quer calar: ¾ Silvana, cara amiga! Tens idéia de quantas vezes amarraste e desamarraste; calçaste e descalçaste tuas botas no percurso total desde SJPP até Santiago de Compostela?

Talvez, num futuro não muito remoto, as nossas maiores amizades serão plenas de amigos virtuais, dos quais nem conheceremos o cheiro, a cor ou qualquer coisa que os possa identificar se um dia os ver, porem na leitura dos e-mails ou mais modernamente, , é muito fácil identificar quem é quem e nem precisa ser um psicólogo. Nossas conversas são sempre num tom de agradar um ao outro, verdades são ditas, mas amenizadas por não nos conhecermos, ficam suaves e leves para aceitarmos e respondermos numa boa.

          Lendo em voz alta o nome e nick inscritos na minha longa lista de meus inúmeros amigos, nem sei se era mesmo uma energia que me dava força para jamais desistir, força para não cair em tentação e pegar um buzão; ou se entretido, em ler tantos nomes e tantas vezes repeti-los, nada sentia do longo caminhar e até a sede e o frio ficavam em segundo plano; e lá ia este Peregrino, seguindo seu Caminho, junto com centenas de amigos, estávamos todos juntinhos num mesmo coração, que pulsando mais forte devido a lembrança de todos e de cada um, que de uma maneira ou outra me incentivaram, me desejaram sorte, se preocuparam comigo, com o meu futuro, e pensavam em mim, com a minha divina loucura de peregrinar 800 km, por terras estranhas.

          Incentivaram, desejaram, se preocuparam? Errei nisso tudo!

Meus amigos estavam era comigo ali, me incentivando, me dando empurrões, preocupados com as tentações da carne e do cansaço que mina até o mais forte dos Peregrinos, principalmente, quando vê pela frente o nada, isto é; quilômetros e mais quilômetros de terras plantadas, e lá ao longe uma ondulação que ao veres sentes a esperança de que após ela um descanso se encontra, mas nem tu nem teus amigos se deixam enganar, pois só deves acreditar no que vês, e quando atinges os altos, normalmente existem mais outros altos, ou outra planície igual àquela que passaste, e teus amigos ali junto de ti, ou melhor, dentro de ti estão conversando contigo, dando a maior atenção a ti, e ao pensares em cada um, os vê de diferentes maneiras, há uns que sempre que pensas neles, estão sorrindo, alegres; outros que sérios, parecem preocupados contigo, e ainda outros que indiferentes ao teu pensamento, estão em atitudes de descaso, mas isso é só aparente, pois quando focalizas mentalmente com mais vagar essas criaturas amigas, sentes que dentro delas naquele momento, o coração está a mil, sentes que eles pensam em ti, estão torcendo para que tudo de certo, que sejas um vencedor, mas não querem se trair, não querem mostrar para os que estão próximos que estão pensando fortemente numa pessoa que está tão longe, para alguns seria até mostra de que acreditam no sobrenatural, em telepatia, em  percepção-extra-sensorial, e isso é meio hermético em cada um, muitos acreditam em coisas das mais incríveis, mas têm receio de revelar.

          Pleno de força e energia, lá me vou, com meus amigos, e com Pedro, amigão do peito, o homem e santo em quem como Jesus Cristo, confio minha vida e até discuto soluções a tomar. Vou com Santiago, que me ajudou mais de uma vez (depois eu conto), e com Deus, que nunca me faltou e nunca me faltará, conforme veremos daqui há pouco.

          É claro que saquei de dentro da minha querida mochila uma troca de correspondência entre eu e o meu grande amigo Anderson, e que estava guardado para essas ocasiões, e que provou sua eficácia, já que é mais que uma força pra mim.

Caro amigo Anderson: - Sei que conto e contarei com tua energia e tua força para comigo estar presente neste esforço supremo e em momentos que precisar sei que empurrarás e até no colo me levarás, para que minha parte eu consiga fazer.

Foi justamente nisso "Pegadas na Areia" que pensei quando falo contigo em carregar-me... Nosso Deus age por caminhos que nunca conheceremos na totalidade e de repente um pensamento teu positivo e cheio de Amor fará com que eu lá tão longe me erga cansado e continue minha peregrinação.

Saiba que conto contigo e com tua força e com o teu Amor meu graaande amigo Andinho, o famoso peito de pombo!

-: XIV :-

          Foi assim... Num repente, de repente...

Eu vi, ou talvez seja melhor dizer que senti a LUZ... 

Não com meus olhos mortais; mais numa percepção indescritível, e paradoxalmente narrável, pois que a Luz está dentro de mim e eu nem sabia.

Sei que ela, Uma Força estranha,  irrompeu de dentro do meu ser originando-se desde o meu coração num raio luminoso, num repente maravilhosamente inesperado e glorioso, e nem doeu nada!

Não era mais o meu Eu que ali estava em peregrinação, examinando e prestando contas a mim mesmo dos meus erros e acertos pensados ou cometidos, e sim  parte de um todo cósmico infinito, tão integrado estava à Natureza em minha volta, acima e abaixo, éramos uma totalidade, uma coisa só, um ser único e fantástico, sem formas, já que impossível ver-se de fora para dentro. Éramos tudo e nada, atemporais e infinitos.

Ao mesmo tempo em me sabia caminhando, minhas ações e movimentos eram puramente mecânicos, sentia que continuava peregrinando pelo Caminho, não esquecera também que meu objetivo era chegar a Santiago, nem tanto pelo que esperava encontrar no fim da peregrinação, mas sabendo que o importante era o como chegar lá, aproveitando tudo o que é para ser aproveitado e mesmo o descartável e efêmero, serem pelo menos examinados, para conhecimento, e posterior aproveitamento.

Porém naquele momento impar, nada era tão fundamental quanto a absorção do meu Eu por um sentimento maior. Tomado estava por uma paz infinita e uma vontade enorme de distribuir, partilhar o que sentia, uma emoção maior que jamais sentira, anseio profundo de gostar, de querer; sim!

Descobri que eu era o Amor, fazia parte dele, o sentia e com ele convivia, uma parte de mim ainda era singular, mas nem me importava, queria mesmo é permanecer ali naquela sensação maior de ser. Continuar para sempre sendo o Amor, jamais voltando à minha individualidade egoísta de dar meu sentimento somente àqueles que selecionava merecedores.

Senti que estava em harmonia com a Natureza e inserido no universo cósmico em sua eterna expansão. Naquele momento senti claramente a minha posição egoindividual na Terra; a compreensão mental de que estando em harmonia com a Natureza e o universo, teria sempre minha  sabedoria e meu conhecimento ampliados, tudo num somatório do apreendido em minha vida. A Caridade e o Amor aflorando a um nível metafísico.

Minha Inteligência era total, tudo via, tudo sabia e nada era mais importante que o conforto corpóreo-mental que sentia. Difícil dizer mais alguma coisa ou mesmo descrever mais minuciosamente a Maravilha alcançada; creio firmemente que se conseguisse descrever as mil sensações que senti, não seria a Luz, já que esta é realmente indescritível.

          Quando dei conta do acontecido foi porque passei a ver tudo e todos de maneira diferente, não que soubesse ou sentisse essa transformação, e sim pela maneira com que as pessoas, peregrinos ou não, passaram a me tratar.

Desde aquele inesquecível instante, sinto que passei a ver além das aparências, só o bem que cada indivíduo é possuidor desde seu nascimento; agora,  anulo o mal, o aspecto externo, as ameaças na voz, o comportamento intimidador e olhando com o Amor que comigo permaneceu, Amo igual.

Passei a prestar mais atenção em tudo, chegando a ponto de algumas vezes, quando sozinho em oração, ouvir o som do próprio Silêncio! E cheguei a conclusão final de que o mundo não mudou, quem mudou fui eu.

          Tenho certeza que o que se passou comigo foi simplesmente um momento de anulação total não esperada, mas talvez inconscientemente procurada:

          - Aconteceu!

A explicação que me ocorre é que no peregrinar sozinho, à cada passo, passas num teste de dimensões diferentes, onde teus instintos, somente os teus estão à prova, pois ninguém tens para te orientar, e às vezes, nem as setas ou outras indicações quaisquer; mais a quantidade de sensações mentais totalmente novas que à tua mente vêem ao mesmo tempo. Somatório de dúvidas, perguntas sem respostas, respostas sem questões sequer formuladas, razões do sacrifício da peregrinação, medo de não agüentar até o fim, fraquezas em pegar um meio de transporte para “queimar” etapas e conseqüentemente nunca mais poder dormir com a consciência tranqüila,  debilidade e vergonha de decepcionar teus amigos, que em ti tanto acreditam; mente totalmente tomada pela necessidade de fazer o certo, o bom, o bem, e ao mesmo tempo receoso de não fazê-los corretamente e escorregar para o errado, o mau, o mal, já que o incorreto é a ausência do fazer o reto, o honesto.

Os imperativos éticos, pétreos, duros, esmagam a vontade malévola, guiando a vontade positiva de fazer o bom e o bem para uma espontaneidade mais elevada.

Esta é a minha conclusão do evento ocorrido num espaço-tempo tão indeterminado, que às vezes nem sei se realmente aconteceu.

Sinto o vento soprar em meu rosto e balançar as árvores, mas não o vejo.

Olho para as pessoas com Amor e recebo delas compreensão e até mesmo Amor.

 Vejo o mundo com mais nitidez e o compreendo melhor, e me pergunto se aquele efeito sentido um dia no Caminho de Santiago de Compostela,  é tão crescente, que me permitirá num próximo amanhã,  ver o invisível aos olhos, não falo aqui de moléculas nem átomos que foram comprovados existir, que estão entre nós, mas que não nos é permitido ver pela limitada acuidade visual que possuímos. Quero ver o tão propalado essencial, e tenho fé que verei!

Lembro-me então dos poetas que inspirados proclamam – Quero ver tudo com os olhos do coração.

-: XV :-

 

          Vilarejos fantasmas, aldeiazinhas de 20 habitantes, mas com muitas casas ainda habitáveis onde poderiam morar ainda e confortavelmente, umas duzentas famílias. Muitos utensílios abandonados, muitos lotes cercados mas completamente deixados, mas como é primeiro mundo, as aldeias, mesmo aquelas fantasmas, têm suas ruelas e becos pavimentados, têm água encanada, luz e ligação vicinal com uma estrada asfaltada, está tudo lá, conservado.

Ainda há flores desabrochando nos canteiros das janelas, mostrando que há vida, mesmo que não seja humana.

Por outro lado, e conforme aprendi perguntando aos próprios aldeões que ficaram, as explicações são simples e objetivas: - Muitos deixaram a nossa aldeia porque a terra precisa de poucos agricultores para trabalhá-la, e esses escolhidos além de gostar do que fazem, têm que ter um bom conhecimento da técnica agrícola, assim como saber dirigir e conservar os implementos modernos, que por serem usados tão intensamente, aliviam o trabalho de quem ficou e foram a razão principal do êxodo rural.

As terras são bem cultivadas pelos poucos, homens e mulheres que ficaram, criação de animais vários e em todo lugar, paisagens incrivelmente belas, a mãe natureza dando o melhor de si, para mostrar ao Peregrino brasileiro, que ainda sabe fazer bonito, mesmo em terras tão castigadas por gerações de predadores humanos, que por ali fizeram sua passagem, para mostrar que tens que preservar tudo que tenha vida, desde as árvores, passando pelos animais rastejantes e insetos, até os outros semelhantes a ti.

Para mostrar mais uma vez, que foste criado para ser guardião e não destruidor desta nossa nave mãe e seus equipamentos perecíveis, nesta nossa longa e interminável aventura cósmica.

A mãe natureza, a cada mirada que nela dás, se mostra feliz, quer que gostes do que vês, quer te cativar, quer que fotografes na tua retina e guarde para sempre na tua memória, aquele momento impar de troca de imagens e sons, onde ela se mostra para ti em sua mais bela e sonora formosura e tu te mostras no teu papel de guardião dela, e de suas belezas até agora, incriáveis pelo homem, mas que por ele pode e deve ser admirada e protegida, e se possível melhorada por técnicas altamente apuradas, já que foi para isso que ele, o Homem, foi criado, quando no Éden. Ainda te lembras dos teus primeiros pais?

-: XVI :-

Na cabeça do brasileiro urbano, vêm logo idéias estapafúrdias, para não dizem um pouco egoístas ou até discriminatórias!

Tantas casas vazias, tantas aldeias sem ninguém; bem que se podia pegar um bocado do povão que sobrevive nas periferias pobres das cidades brasileiras, e mandar para lá, o governo daria um salário mensal de subsistência, e esse pessoal iria a luta, e poderia realmente vier bem melhor. Assim como o Brasil fez pelos imigrantes, agora seria a hora deles fazerem por nós brasileiros.

Daria certo?

Nem nos preocupamos em saber, são idéias que vêem a nossa cabeça, só para ajudar a passar o tempo e como todo o mundo sabe, nossa máquina de pensar imagina tudo, coisas boas e nem tão boas, é impossível o não refletir, vamos repensando até momentos vividos, que achávamos deletados para sempre, e que de repente voltam a nossa ordem mental do dia.

As lembranças dos Albergues onde ficamos e das cidadezinhas onde eles se encontram, vão ficando para trás e todos os objetos que esquecemos, também; relógio de estimação, cajado, meias, roupas de baixo, até botas vi esquecidas, e ao te lembrares, já chegado no próximo Albergue que escolheste para ficar, ou há uns quilômetros depois do que deixaste para trás, preferes comprar outro igual à voltar.

Assim como roupas em geral esquecidas no varal são uma constante, há o lado alegre disso tudo, quando vês à tua frente o Peregrino(a) carregando penduradas na mochila, peças de roupa que não secaram na noite fria, e o efeito é impressionante, sendo que o balanço da mulher, sendo mais acentuado, te dá a impressão que aquelas meias, toalhas, peças íntimas, estão alegremente te acenando, num adeus de liberdade total, é quando tu te vês transformado num varal ambulante mostrando que a vergonha inexiste quando a necessidade é mais forte.

─ Coisas do Caminho...

-: XVII :-

E conforme vais indo adiante, sempre para a frente, não esqueces detalhes quaisquer, nada mesmo, já que tudo fica gravado na tua memória, são como as estações que passas quando viajas num trem de superfície ou num ônibus interestadual, a visão de pessoas e coisas, de algumas cidades ou bairros, desperta mais a tua atenção que outras e no final, mesmo nada anotando ou fotografando, terás selecionado em tua memória o melhor do que viste, e num momento de conversa descontraída, quando cabe uma observação, consegues relatar o que viste mas não prestaste tanta atenção assim, como se todo o movimento acontecido durante tua viagem, tivesse sido reparado minuciosamente por ti.

Assim é com os Albergues, passas por muitos. Em uns somente ficas nele para teu descanso e higiene obrigatórios, em outros tu habitas nele como se tua casa fora e ele fica também em ti, marcando tua vida, e te lembras deles com aquela saudade que tens da tua casa do passado, na qual nasceste e onde fostes criança.

Nem me lembro do Albergue de Saint Jean Pied de Port, sei que paguei 1.000 pesetas, mas apenas fiquei lá, a primeira explicação seria a de que a excitação do primeiro movimento em direção a Santiago de Compostela, anularia qualquer sentimento paralelo de abrir-se a mais de um objetivo. Explico melhor: - Quando estás em Saint Jean, o estás fisicamente, mas tua atenção e teu eu interior, estão mesmo é com o pé na estrada, e na ânsia da partida que será no outro dia ao amanhecer, vagas pela bela cidadela antiga e até pelo casco novo, sem na verdade estar completamente lá, em alma e coração.

Coisas do Caminho!

-: XVIII :-

Pela manhãzinha, 19/05/2000, já estamos com a disposição de novato para levar de vencida a primeira etapa e descendo o morrete, pela ruela abaixo, passamos na porta da Igreja e adentramos para pedir nossas bênçãos, e logo me recordo de que ao assistir a Santa Missa no dia anterior, estava lá completamente inteiro, desmentindo uma afirmação feita anteriormente. Também pudera! Quem na presença de Deus pode furtar-se a se mostrar totalmente?

A direção é Roncesvalles, distante 24,9 km, peregrinação a ser feita em 8 horas. Somos neófitos, nada sabemos dos desafios à frente, e lá vamos nós, parando à cada bifurcação, procurando em cada poste, árvore ou cerca, as nossas famosas guias (setas amarelas ou bandeirinhas branco/vermelho),  e é sempre uma alegria quando vemos uma ou umas, pois em alguns lugares elas estão em abundância e em outros são somente manchas apagadas nas lisas pedras em que foram pintadas não sei há quanto tempo.

Caminhada pesada subindo os Pirineus pelo lado Francês, mas descansados e eufóricos tiramos tudo de letra e chegamos a descida bastante perigosa, já que muito inclinada, a ponto de termos que andar de lado para melhor equilíbrio. Quando nos encontramos no final da descida já vemos nosso objetivo final e por fim o descanso no Albergue de Roncesvalles, confortável e grátis (doação), razão pela qual ninguém pode reclamar do banheiro unisex, ou de nada.

Para mim custaram também 1.000 pesetas que coloquei na caixa de doações. De fato, como peregrino de primeira jornada,  achava mesmo que iria ser assim em todos os Albergues, 1.000 pesetas em cada um, tudo porque logo no primeiro em Saint Jean, havia sido cobrado e pago tal quantia.

Conforme já relatei, vamos primeiro ao escritório da junta, carimbarmos nossa Credencial, depois ao Albergue para sabermos qual é a nossa cama, isso no meio de um entra e sai de peregrinos e num burburinho de vozes em idiomas mis, que dá até a impressão que estivéramos na Torre de Babel.

Tirar a roupa, se preparar para o banho, corre-corre para pagar antecipadamente o jantar comunitário, pressa de estar pronto para pegar a missa inteira, sair correndo da bela igreja, após a comunhão, diretamente para o restaurante e seu organizado jantar comunitário, cansados da primeira jornada, ir logo dormir, talvez até na ânsia de que o outro dia chegue logo.

-: XIX :-

20/05/2000 - A direção é Larrasoaña, distante 27,4 km, peregrinação a ser feita em 7 horas.

Saímos cedinho e como no dia anterior tínhamos sido avisados da padaria em Burguete, vamos em jejum e famintos para lá, para fazermos nosso primeiro desjejum do Caminho espanhol.

De fato, recomendo. É uma fartura de pães com massas dos mais variados e gostosos sabores o que se deve aproveitar, pois num futuro bem próximo sem escolhas, comeremos pães de ontem transformados em pão requentado ou quase torrado na maioria dos lugares que passarmos.

Inocentes e felizes comemos e tomamos cafés, leites, águas minerais e' et cetera', maravilha se ter fome e poder comer o quanto quiser, já que peregrino não engorda, na verdade nem come.

Peregrino se alimenta e ao dar ao corpo o prazer do alimento escolhido, traz a felicidade total para a mente, alma e espírito, sabedor que queimará todas as calorias adquiridas no peregrinar constante de pelo menos 7 horas de subidas e descidas. Mais subidas devo ressaltar, sei lá! Tem horas que a gente só consegue se lembrar que subiu, nunca que desceu tanto que compensasse a subida; como se fazer o Caminho fosse uma maneira de se chegar mais perto do Céu, dos Santos... de Deus. Nesta hora e em muitas assim, é que a gente mais sente que a Felicidade está na própria viagem que estamos fazendo e não no destino que está longe em distância, mas perto no coração.

Dessa vez a coisa começa a pegar, estamos mais fatigados que no primeiro dia, distância menor, menos morros, mais cansaço, é nosso corpo nos mostrando que ele é que vai nos dar a andadura, nem obedecerá o que vai pela cabeça inteira, ele é que tem o controle, e a gente se dá conta, por vez primeira, que nossa máquina tem as suas idiossincrasias, e que somos mesmo divididos em partes como aprendemos no longínquo ensino fundamental:

- O corpo se divide em cabeça, tronco e membros, é mesmo! E a gente pensava que era decoreba só pra fazer prova!

Cansados, mas não desfalecidos, chegamos a Larrasoaña, Albergue de 400 pesetas, está cheio, e nos alojamos mesmo numa copa-cozinha que nos serve de dormitório com três colchões e três cobertores que arrastamos para lá.

Mesma rotina: Correr pra tomar banho, ir pra missa e depois ir procurar onde jantar o Menu do Peregrino, foi ali que ouvi falar pela primeira vez as palavras mágicas do bom e barato comer, ou melhor se alimentar. Comer é para os animais, é o que dizem! Foi quando o señor Sangalo feliz proprietário do restaurante nos explicou os 3 momentos do Caminho de Santiago de Compostela:

- 1º Etapa Física <> 2º Etapa Espiritual <> 3º Celebração, seguindo meus escritos perceberás do que ele tão bem nos explicou.

Alegres e felizes estamos, e nem dormimos neste segundo dia, simplesmente desmaiamos em nosso colchões, logo após entrarmos em nossos sacos de dormir.

Correria para o desjejum no mesmo restaurante que jantamos ontem, e somos pegos de surpresa pelo hospitaleiro,  logo de manhãzinha, como bons neófitos que somos.

A ordem do hospitaleiro é curta e grossa:

-  Peregrino quando sair daqui deste Albergue, já leva todo seu equipamento e suas roupas mesmo molhadas. Vamos fechar para a faxina e ninguém ao retornar poderá entrar no Albergue, nem para aliviar-se dos supérfluos intestinais, que normalmente se fazem presente após o lauto e diferente café da manhã.

É discussão pra lá, é reclamação pra cá, mas os auxiliares do hospitaleiro já estão na faina da limpeza e nem olham para fora onde perplexos nos encontramos e atônitos nos pomos no Caminho, na impotência de não saber o que fazer;... Logo saberemos.

Vergonha? Nem pensar! Agora vemos a real praticidade de seguirmos as dicas e observações de quem já passou por aqui antes. O papel higiênico tem mesmo a sua utilidade, bom que não pesa, pois quando precisamos dele fora das privadas fechadas da vida, o precisamos a metros, quase quilômetros, nem sei o porquê, mas o usamos em uma metragem maior, isso usamos.

Conforme vais caminhando pelas trilhas de mato cerrado, onde a natureza quase virginal, a ti se mostra,  pessoas passam por ti, passas por pessoas e o cumprimento de cumplicidade é o “Hola!” E  nem ter assustas mais quando de dentro do mato aparecem pessoas com a face meio que amarela, desacostumadas que estão a esta liberdade animal.

- Coisas do Caminho!

-: XX :-

21/05/2000 <> A direção é Pamplona, distante 15,2 km, peregrinação a ser feita em 4 horas, e que fazes em muito mais; ledo engano quem acha que é fácil. Numa terceira etapa, a mochila está mais pesada, sei lá como pode isso acontecer, pois nada demais compramos, o corpo se adaptando à sua nova função de andarilho, ainda não está completamente controlado, nossa mente inteligência (sabedoria) e vontade ainda não chegaram a um acordo, e ora temos a vontade de seguirmos em frente, doa a quem doer (pés, costas, etc.)

Ora sabemos e somos inteligentes o suficiente, que não é ideal forçarmos tanto; e nesse desequilíbrio funcional metafísico, o cansaço vai mesmo é aumentando e a distância vai ficando elástica para mais e mais.

Paramos para descansar mais vezes, bebemos mais água, conversamos menos com nós mesmos e com companheiros de jornada que conhecemos nos Albergues. Agora são trilhas diferentes, vamos para a primeira cidade grande do Caminho e o movimento de gente é maior assim como a proximidade da estrada também, e às vezes andamos pelo próprio asfalto dividindo com os carros, máquinas velozes, e caminhões pesados e em velocidade acelerada, nossa humana e humilde peregrinação. Atravessamos, sempre olhando para os lados, rodovias de tráfego rápido, mas lá vamos nós sempre pra frente e como já afirmei, e sempre pra cima.

Tem até um refúgio um pouco antes de Pamplona, em Trinidad de Arre, mas passamos batidos e quando entramos na cidade grande propriamente dita, uma coisa estranha comigo e com meu companheiro Marco, nos ocorre e assalta!

Como que ao mesmo tempo e num pensamento conjunto exclamamos: - Ficar num Albergue em cidade grande, nem pensar!!! E atravessamos a grande cidade de Pamplona em toda a sua extensão, nos arriscando em nem encontrar pousada numa cidadezinha-dormitório próxima, chamada Cizur Menor, 21/05/2000, distante 5 km de Pamplona.

 Parece pouco, mas cansados como estávamos, demoramos muito para lá chegar e; Não fossem os jardins incrivelmente aprazíveis e convidativos da Universidade a meio caminho, onde ficamos por mais de 30 minutos na grama deitados num plano inclinado, cabeça para a parte mais baixa e os pés nus para cima, nem sei o que de nós seria, já que nosso grupo dividiu-se para sempre, Ana Paula, Selma e Inês ficaram mesmo no Albergue de Pamplona para no dia seguinte remeterem seus pertences a mais, para nosso objetivo final. Endereçaram tudo no nome de cada uma, para o Correio de Santiago de Compostela, onde todo o remetido estaria a disposição das mesmas quando elas lá chegassem.

Chegamos ao Albergue de Cizur Menor que é um refugio privado da Ordem de Malta, a hospitaleira é a doce senhora Maribel Roncal, pagamos  500 pesetas, cada um.

Uma visita a igreja dedicada a São Miguel Arcanjo é imperdível, há uma facilidade maior porque a dona Maribel tem a chave e nos conta o histórico religioso da igreja assim como nos leva ao campanário onde descortinamos toda Pamplona e uma grande parte do Caminho que temos pela frente para chegarmos à próxima parada.

Lá pelas 8 horas da matina, o  Marcos e eu tomamos um café da manhã excelente e partimos tranqüilos para La Reina, ao passarmos no Alto do Perdão, demos uma longa parada para apreciar a paisagem magnífica, colocar uma pedrinha aos pés da Virgem do Perdão e contemplar restos sombrios de um povoado que ali existiu e desapareceu lá pelo século XIV.

Por ser o Alto do Perdão chamado de o lugar “Onde se cruzam o Caminho do Vento com o Caminho das Estrelas”, há de fato um vento constante e deve ser por isso que naquele cimo estão instalados tantos Geradores de Energia Eólica, com suas pás de tamanho descomunal. E mais uma vez vem à minha mente a idéia da conquista de cada dia, tal qual Don Quixote, vimos desde muito longe aqueles cata-ventos gigantescos dos quais demoramos para perto chegar, mas dentro do coração peregrino sabemos que lá temos que ir e conquistar mais aqueles altos obstáculos que são encimados pelos Moinhos de Vento, não para conquistarmos nossa amada, mas sim a nós mesmos. Podendo assim, dominado o corpo aclararmos melhor o espírito deixando-o aberto para que a pureza advinda do Caminho nos leve mais próximo de Deus e das verdades da vida.

-: XXI :-

A direção agora é Puente de La Reina, distante uns 20 km; peregrinação a ser feita em quase 6 horas, em 22/05/2000.

E vem em mim um primeiro pensamento de que até agora, a única cidade que me marcou bem dentro, foi mesmo Larrasoaña, sei lá o porquê, nas outras só passei; meu coração não adicionou o lugar.

Será que gosto de levar carão, ser repreendido?

Barra pesada o Caminho para La Reina, ou melhor, altos maiores que baixos para lá chegar. Sobes, e sobes e pouco desces, caminhas entre extensas plantações variadas e animais de diversas raças, sempre com teus olhos ligados nos moinhos geradores de energia eólica, com suas grandes, enormes pás sempre em rotação, e por mais que caminhes, eles estão sempre longe, e quando deles chegas perto, são de descomunal altura e seu ranger é incrivelmente parecido com os urros de almas penadas, talvez uma imitação mecânica dos ais emitidos pelas figuras sobre-humanas todas feitas de ferro, ali encontradas num chamado Monumento ao Peregrino, que está assentado onde nas antigas, era um hospital de peregrinos e ermida dedicada a Nossa Senhora do Perdão.

Berros lancinantes de quem não obteve a graça da Virgem, por suposto.

É uma parte bonita do Caminho, vês de tudo, plantações as mais diversas e tens uma vista bem panorâmica desde Pamplona até perto de teu destino à frente, e já começas a ter uma idéia, agora mais geral, do que te espera adiante.

Seguindo a orientação do nosso livro guia, o famoso El Camino de Santiago a Pie, ao chegarmos a Óbanos e após uma lanche rapidinho (bocadilho de fritada, regado a vinho e um pratão de cerejas grátis, de sobremesa), entramos numa variante á esquerda, a fim de visitarmos a Ermida de Nossa Senhora de Eunate, maravilha Templária que nem cabe aqui comentários, alguns puristas dizem que Eunate nada tem de Templário: discussões à parte, há que se ir lá para sentir as vibrações de energia positiva daquele ponto central tão cuidadosamente escolhido por aqueles que ali colocaram um pedaço de Jerusalém.

Em volta da ermida há um muro octogonal que acompanha o conjunto total da casa de Deus, dando a quem ali entra, uma sensação de segurança, de bem estar total; e quando adentras à nave central e te deitas ao chão sagrado, embaixo da conjunção dos arcos do octógono, tens realmente a sensação de que estás no bom Caminho, e de que tua peregrinação tem uma razão de ser ainda desconhecia para ti, já que a solução virá num ponto dali até tua chegada a Santiago de Compostela ou quem sabe dentro da famosa catedral quando estiveres assistindo a tua Missa do Peregrino.

Dali da octogonal Eunate, que não é no alto de colina nenhuma, e sim na planície, vamos por uma trilha estreita e sinuosa em direção a La Reina e começamos a cruzar estradas e rodovias sem fim, até que num passe de mágica ela aparece com suas chaminés altíssimas, moradas de cegonhas caseiras, que aninhadas nos seus largos ninhos majestosos, parecem as famílias de moradores das grandes cidades que do alto de suas moradas em arranha-céus como que espetando as nuvens, ficam a nos olhar, e admirar a ousadia de peregrinar por nossos 800 km, deixando para trás o conforto que eles imutáveis teimam em manter, para as aves há explicações dadas pelo instinto natural, mas para os homens! 

E assim imóveis, cegonhas e homens, famílias tão dessemelhantes,  nos vêem qual formiguinhas muchilentas, que assemelhadas a caramujos, passam a seus pés numa só direção, seguindo o sonhado e etéreo Caminho das Estrelas.

Nem vou falar mais dos pequenos povoados silenciosos pelos quais passamos, e são muitos, e vão num crescendo em quantidade à beira do Caminho, e diminuindo em população, quanto mais se caminha para o interior de Espanha, menos gente se vê nas ruelas das aldeias, pelos motivos que acima descrevi e também pela proximidade de pólos de atração maiores.

A Espanha está em franco desenvolvimento, e cidades chamadas pequenas estão rapidamente se transformando em preparadoras de mão de obra especializada, dado a quantidade de cursos técnicos que estão criando. A União Européia é uma realidade palpável em sua placas azuis estreladas à margem das estradas que cruzamos, em sua maioria novas em pavimentação ou em alargamento.

-: XXII :-

Puente de La Reina, é a maravilha tão esperada, principalmente pelas mulheres, pois logo na entrada há um hotel novo que tem um andar como se fosse um Albergue, reservado, com preços populares 2.000 a 3.000 pesetas e os peregrinos que sobram do Albergue dos padres Reparadores, que cobram 350 pesetas, vão todos para lá, já que há máquinas de lavar e secar roupas e esta etapa é a hora exata de dar uma real e verdadeira geral na roupa limpa, mas encardida pelo rápido e mal lavar constante.

As mulheres ficam felizes e nós homens também, pois como se está careca de saber a alegria é contagiante, ainda mais quando a gente está longe de tudo e de todos e aberto a novas experiências. Quando digo as mulheres ficam mais alegres que nós homens, falo com a convicção de ter reparado no comportamento da minha amiga Silvana, tão diferente da do seu maridão o Andréas, ela mais feliz que pinto no lixo, quando a encontrei junto com ele na hora de carimbar as credenciais. Ela falava em lavar e secar a roupa e alvejar tudo o que era branco e encardido estava, numa alegria incontida e contagiante, enquanto ele, o Andréas, assim como todos nós homens da fila, não conseguíamos mesmo entender o porquê, mas lembro-me bem que estávamos todos felizes devido a alegria contagiante da Silvana e demais mulheres que ali estavam.

La Reina é o entroncamento dos Caminhos Francês e Aragonês, já que as rotas se juntam em Óbanos. Logo a quantidade de peregrinos já começa a ser sentida, o Albergue dos padres é bem grande e espaçoso, mas mesmo havendo muita gente que prefere ficar no hotel, fica lotadão e há peregrinos que dormem em colchões no chão. O engraçado é que nos Albergues seguintes não há tanta gente assim!

Foi no restaurante do hotel que iniciamos uma conversa com peregrinos de diversas nacionalidades, que saiu um assunto que sempre foi para mim muito importante, mas que nunca havia propagado em público. Critique-me se fores capaz!

Um peregrino espanhol, falou com satisfação de haver lido todos os livros do escritor brasileiro Paulo Coelho e que estava consciente de que muitos dos brasileiros, senão a maioria, estaria a fazer o Caminho, por influência dele, o escritor brasileiro é famoso no mundo inteiro. E passou a fazer elogios agradáveis e interessantes das qualidades dos escritos do nosso escritor, no que foi cumprimentado por outros peregrinos franceses, ingleses, holandeses, argentinos e até de duas finlandesas que vieram mais tarde me perguntar em Inglês, se o que entenderam estava certo, já que não compreendiam muito bem o Castelhano ou Espanhol.

Pois bem! Umas duas brasileiras e mais um brasileiro, discordaram da maioria presente e passaram a desancar o nosso Paulo Coelho, falando barbaridades sem fim num arremedo de ‘Portunhol’ sofrível, mas que dava para todos entenderem, devido ao ardor pessimista do mal que falavam, naquele momento, deixei correr só arquivei para mim, a completa baixaria, e mais tarde, quando os ânimos serenaram, e num momento de descontração, me acheguei a elas e ele, e coloquei meu ponto de vista que se resume no seguinte:

- Se estou falando de futebol no Brasil e sai o nome do Pelé e alguns dizem que ele não foi o jogador especial que se propaga no mundo todo, posso até concordar sem me aborrecer, mas a coisa ficará feia se o mesmo acontecer no exterior, ouvindo de um brasileiro o mesmo comentário deselegante; Por quê?

Estou careca de saber desde o primeiro grau que quem inventou o avião foram os americanos, e que cada país ou povo educado, puxa sempre a sardinha  pra sua brasa. Qual a razão então de o brasileiro (a) sair pelo exterior falando mal de um brasileiro famoso no mundo inteiro?

Cito até outros exemplos, numa corrida de Fórmula Um, na Argentina, ouvi também comentários desnecessários sobre a capacidade do nosso Ayrton Senna, críticas destrutivas, de um de nossos pilotos maiores, senão o maior. A verdade é que não sei o porquê, a razão de fazer-se isso no exterior.

Conforme explico acima, acho que assuntos domésticos devem ser tratados dentro de casa, se lá no exterior Pelé, Ayrton Senna e Paulo Coelho, para ficar só nestes três, são cultuados, são famosos e quando os estrangeiros sabem que somos brasileiros, nos perguntam sobre essas figuras internacionalmente importantes, creio que seria até mais elegante e confortável a gente falar bem deles, mesmo que discorde domesticamente falando; me entendes?

Marco Pingret e eu reencontramos a Ana Paula e dos cinco que saíram de SJPP no mesmo momento, pelo menos três estão juntos para um aconchego maior, passamos nossas recordações a limpo, e na manhã seguinte, vamos à ponte para tirar fotos, e fico sozinho em La Reina, no hotel Rural, diária de 4.500 pesetas, já que achei por bem descansar mais um dia, 22 e 23/05/2000.

O Marco vai-se logo com seu passo de fotógrafo, olhando para os lados mais que para frente, caminha devagar; e a nossa Ana Paula com os pés enfaixados queda-se por momentos em dúvida se vai ou não, e após umas duas horas, aproveitando os bancos abertos, pega algum dinheiro necessário para seu continuar peregrino e num arroubo tão feminino, prefere continuar manquitolando pesadamente, mas sempre em frente.

Contatos com a Ana e o Marco, só os terei através bilhetes deixados em livros que para esse fim existem nos Albergues da vida do Peregrino do Caminho de Santiago de Compostela.

-: XXIII :-

24/05/2000 <> A direção agora é Estella, distante uns 22 km; peregrinação a ser feita em quase 6 horas, por caminhos incrivelmente bonitos que por momentos te lembram demais as glórias romanas, já que peregrinas por extensas e empedradas calçadas romanas, e passas até por baixo de uma ponte medieval.

Caramba! Perdi-me anteriormente em discussões nacionalistas e corrijo o erro; pois ao sair de La Reina, ao atravessar a Ponte, que já havia visitado no dia da partida do Marco e da Ana, impossível não falar e fotografar a dita cuja. É um monumento incrível e de uma beleza inenarrável, passa por debaixo dela, o rio Arga, largo e profundo, e sua forte correnteza como que muda o cenário cada vez que admiras o conjunto arquitetônico em harmonia com a natureza viva.

A água clara do rio reflete a ponte em toda sua extensão e ficas ali a contemplar a beleza de uma complementação tão feliz. Puente La Reina –  construída no século XI. Tenho uma foto linda, e daí é que me veio à mente mandar para casa, postais de todas as localidades que passasse, foi uma boa, e agora quando quero me lembrar melhor de algum lugar onde estive, pego minha coleção de postais, escritos e endereçados à mão, às vezes garatujas quase ilegíveis, devido ao frio, cansaço ou até nervosismo, e me deleito enquanto em minha mente caminham junto comigo,  aqueles momentos inesquecíveis.

O Caminho até Estella é tranqüilo, passas por longos pedaços ainda bem conservados de calçada romana, maravilha de engenharia; e um pensamento me ocorre pela segunda vez, e me acompanhará a todo e qualquer momento que vestígios de estradas romanas eu veja pelo Caminho: - Já pensou se os romanos naquela época conhecessem vulcanização? Se eles tivessem pneus em vez de rodas de madeira protegidas por aros de ferro em suas carroças de transporte?

Com certeza o mundo seria diferente hoje. Eles conquistaram o mundo conhecido na época, fazendo suas estradas calçadas de pedras irregulares que, se dificultam até hoje o caminhar dos Peregrinos, era com certeza um quebrador de rodas de carroça bem eficiente.

Calcula o que seria se o pneu de borracha vulcanizada que se adapta ao chão por onde passa, já tivesse sido descoberto e sendo usado! 

Seriamos com certeza romanos todos nós hoje, e o mundo falando Latim. Ia ser um tal de língua destroncada!

24/05/2000 - São 13h:50 minutos, o Albergue de Estella é luxuoso, 500 pesetas, o hospitaleiro é um profissional em massagem, gente boa e rigorosa quanto ao nosso comportamento no Albergue, mas tem respostas para  todas as perguntas e está sempre pronto para as dicas. Foi ele que nos indicou, a mim e à Maria, uma baiana de Salvador, arretada e sangue bom, o melhor restaurante de Estella, ‘O Navarra’ pra gente comer por 2.800 pesetas, por pessoa,  o famoso leitão assado no forno à lenha escolhida. É a metade de um leitãozinho, bem pequenininho, um verdadeiro bacorinho, delícia pura, desmancha na boca, prato típico e imperdível. De fato é meio que parecido com o nosso mineiro leitão à pururuca.

Não deixe de ir visitar a igreja de São Pedro de la Rua, maravilha arquitetônica, assim como assistir a Missa do Peregrino na igreja paroquial de São Miguel Arcanjo, onde até o selo(carimbo) é muito significativo.

-: XXIII :-

 

Continuei seguindo as sugestões do livro Guia El Camino de Santiago a Pie, pernoitando em Los Arcos, 25/05/2000, bem acolhedora com um comércio forte, Albergue 300 pesetas.

Chego cedo em Viana, 26/05/2000, e por sentir-me acolhido, fico para o pernoite no Albergue de 300 pesetas. Vou fazer minhas orações na Igreja de Santa Maria, maravilhosa construção com sua entrada renascentista do século XIII, aproveito e compro uma bolinha macia pra apertar com as mãos e aquecê-las, principalmente nas manhãs frias do Caminho. Ainda me lembro que jantei 2 codornizes deliciosas por 1.300 pesetas.

Saio as 9 horas de Viana e cruzo Logroño, sem parar, há momentos que procuro evitar cidades maiores; distante que estou neste momento, do Rio de Janeiro, minha cidade natal. Lembro-me bem que além de fazer meu desjejum numa bela Cafeteria; comprei um par de cuecas de malha, já que as minhas de seda estavam completamente rotas; e vem a mim um pensamento interessante que se prende àqueles que vivem em cidade grande, na verdade na cidade em que vives, se é média pra grande, já existe dentro de ti o vírus do consumismo.

Essa pode ser uma explicação do medo que tinha de pernoitar em cidades populosas e com comércio agressivo, que faz de ti no momento sensível em que vives como peregrino, acometer-se de uma orgia gastadora em lembranças, esquecendo por momentos as limitações do peso que tuas costas e ombros podem suportar, depois do surto comprístico, teres que perder um bom tempo indo aos Correios para remeter mais um pacote para o teu destino final, em terras de Espanha.

Paro em Navarrete, 27/05/2000, cidadezinha pequena, mas atraente de se ficar, Albergue grátis.

No dia seguinte caminho mais 17 km e estou em Nájera, 28/05/2000, o Albergue é grátis,  mas estava cheio e fui para o hotel Hispano II, novo e ótimo, paguei 3.000 pesetas. Comi codornas assadas; muito bom o gosto e especial o sabor. Ademais a ponte sobre o largo rio Yalde é inesquecível também.

Impossível deixar de pagar 200 pesetas para visitar o Monastério de Santa Maria la Real, início da construção no séc IX e ampliado até chegar os séculos XV e XVI; é um convento franciscano muito lindo e que mostra uma maravilhosa sala de julgamentos religiosos, onde eram resolvidas as coisas católicas naquela época.

Chego finalmente a Santo Domingo de La Calzada, 29/05/2000, adidonde a galinha cantou depois de assada, é uma cidade diferente, nem sei se por causa do galinheiro dentro da Catedral, ou por ter escolhido do menu do Peregrino justamente galinha assada com batatas. O Albergue é grátis.

Faço um pernoite no pobre refúgio de Belorado, 30/05/2000, Albergue grátis e no dia seguinte senti o que é sede pela primeira vez em todo o Caminho.

Peregrinas uns bons 12 km desde Villafranca Montes de Oca, por caminhos íngremes e difíceis, tens que parar para descanso inúmeras vezes e nem uma fonte, um bar, um oásis, nada... e ainda há o medo ancestral dos famosos lobos, que principalmente no Inverno, devido a dificuldade de caçar animais menores, viriam para a beira do Caminho, para atacar incautos Peregrinos que caminhavam sozinhos. Para mim, os lobos da época, seriam hoje as maldades que fazem morada dentro de nós, nossos demônios interiores, que na oportunidade da solidão da grande, solitária e penitente travessia ondulada, de mais de 12 km, de Villafranca Monte de Oca até San Juan de Ortega, encontram um de seus melhores momentos para nos atormentarem com medos virtuais, já que o verdadeiro Peregrino ao caminhar com Deus no coração e mortificar a sua própria carne, não deixa quartel para que nenhum mal exterior o amedronte, que dirá um mal que dominado está e dominado ficará até o final dos tempos!

Quando chegas em San Juan de Ortega, 31/05/2000, vislumbras uma máquina de refrigerantes num vermelho berrante, que te chama como que te hipnotizando, para aplacar a sede que te aflige, e como um zumbi sedento te rendes àquela atração; e como um Drácula moderno te entopes de líquidos das mais variadas cores e sabores tendendo sempre ao rubro, principalmente daquele universal refrigerante que quando bebido à noite, lembra um pouco a cor do sangue coagulado; em compensação;  O Albergue grátis é acolhedor.

Ali, na igreja do santuário de San Juan de Ortega, início da construção no séc. XII e conclusão da obra no séc. XV, toda remodelada; e apesar de lá dentro fazer um frio enorme, mesmo no verão, tens um belo momento para refletir sobre ti mesmo, comparando a tua idade e a da igreja; e por momentos, imaginando a possibilidade neste momento sempre sonhada,  de poderes também com a graça de Deus, remodelar-te internamente, corpo, alma e coração.

Não estou descrevendo em detalhes todas as cidades por onde passei, é que umas marcam mais forte que outras, sendo assim, há a possibilidade de esquecer-me de anotar aqui algumas.

Dias 1º e 2/Jun/2000 - Falo agora com ressalvas de Burgos, uma cidade histórica em franca descaracterização. Vens pelo Caminho no meio da natureza verdejante e acolhedora, e ainda na periferia encaras logo uns oito quilômetros de asfalto com grande movimento de tráfego, sombras para um rápido descanso? Não há! Caminho alternativo, nada! Ou pelo menos opção viável para aqueles que são peregrinos de primeiro Caminho.

E adentras em Burgos pela zona industrial, é um tapa na cara do Peregrino, desacostumado que está em movimentar-se numa cidade grande; enorme, onde as setas amarelas e as bandeirinhas vermelho-branca, inexistem ou estão em bases de postes ou nas guias das calçadas. Ficando o peregrino em dificuldade de se orientar pelos métodos tão seus conhecidos até esta etapa do Caminho.

Felizmente os espanhóis são muito amigos e tolerantes, e têm o maior prazer de ensinar com exatidão, onde fica o Albergue, que se localiza do outro lado da cidade, já na saída do Caminho e num lugar onde ocorrem assaltos freqüentes. Marca registrada de cidade grande.

Chegamos juntos a Burgos, eu a Silvana e o imponente Andréas, e cansados nem fomos para o Albergue longínquo, ficamos num hotel confortável, Meliá, 12.000 pesetas a diária; E minha primeira providência foi sorver largos e longos goles de água clorada, puramente para matar as saudades. Vez em quando dá mesmo essas bobeiras, água natural das fontes por onde passamos, e/ou bastante água mineral, mas o nosso organismo como que adestrado e bem ou mal acostumado, necessita sua dose de cloro e sei mais lá o que existe nas águas das grandes cidades.

Minha canela estava inchada e doendo muito, assim, procurei um massagista e encontrei uma clínica de Quiromassagem,  e a massagem à princípio, funcionou perfeitamente, tive que ficar dois dias, pois o técnico aconselhou-me a fazer outra sessão no dia seguinte.

Valeu a pena ficar em Burgos; acostumado em cidade grande, senti-me em casa, e a companhia do casal Silvana & Andréas foi maravilhosa, jantamos em lugares de comidas típicas que deixaram saudades até em nossos estômagos e os bolsos mais leves.

Por questão de comodidade e um pouquinho de medo – por momentos pensei nos pecados passados, que através da dor que estava possuído seriam desligados aos poucos, sentia que estava pagando por coisas erradas, um dia cometidas e até então não totalmente esquecidas e perdoadas; não por Deus, já que como católico vou a missa e ao confessar-me ao sacerdote do Senhor de todos nós, faço a penitência imposta ou proposta com muita fé, pedindo a absolvição divina completa, mas sim por mim mesmo que por mais que sabia da bondade de Deus, ainda não acredito o bastante na minha própria bondade e humildade para perdoar-me a mim mesmo.

Dá pra sentir que de fato, eu estava pra baixo e me lembro que veio em minha mente: - Desistir! Nem pensar! Posso dobrar os dias que faltam e dividir os 500 km que faltam para chegar ao final,  em partes de 25 km por cada jornada, ou até menos quilômetros, pois um dia chegarei à Santiago de Compostela, com certeza!

Diversas razões me fizeram caminhar pouco ao sair de Burgos e parei, por pura sorte, em Tardajos, 03/06/2000, onde a hospitaleira do Albergue (grátis) é a famosa Victória Galindo, alma transparente e pura e extremamente competente, administra o local como sua casa, já que mora ao lado, pois o prédio é geminado. Cheguei reclamando de dores e ela providenciou no ato uma bolsa de gelo, com recomendações de mais massagens, neste dia nem janeite, fiz um bocailho de queijo/presunto que comi avidamente acompanhado de 1 lt de Coca-Cola e ao mesmo tempo que me sinto triste por não sentir-me curado completamente, continuo firme na Fé e fazendo todo o possível para ficar são; Desistir nem pensar, sou aposentado, tenho tempo, posso dobrar os dias andar 20 ou 25 km por etapa, mas tenho certeza que chegarei a Santiago de Compostela.

Victória foi uma enfermeira & irmã para mim, ajudou-me com minha canela ainda inchada, deu-me a força e passou a energia que naquela hora tão longe de casa e dos amigos, eu precisava. Na manhã seguinte ao sair de Tardajos, despedi-me de Victória Galindo, com minhas forças totalmente recuperadas.

Obaaaa começou minha primeira chuva, paro no caminho já enlameado, e com satisfação tiro minha capa virgem, ela veste bem a mim e a minha mochila, pois tem uma corcova que encaixa perfeitamente, como estou de boné, o capuz não atrapalha minha visão,  a lama gruda nas solas da minha bota e sobe pelos lados dela, é muita lama, mas resisto bravamente e até minhas dores desaparecem com a friagem;  Há uma simples aldeia com umas 20 casas habitadas e muitas outras vazias, chamada Hontanas, 04/06/2000, com sua igreja do século XIV. Uma vilazinha que não tem nada demais, o que me prendeu foi justamente sua localização aparentemente dentro de um buraco, vens caminhando por estreitas e serpenteantes trilhas, já todo enlameado e cansadão e nem sabes quanto falta para chegar, pois não vês o casario de Hontanas, o teu destino. Até que peguei o desvio para o refúgio do Arroyo San Bol, que é simples já que não tem luz elétrica nem água corrente, mas que dá perfeitamente pra descansar um corpo fatigado., mas ainda era cedo , tomei só um café pra aquecer internamente, e continuei caminhando;  e...

De repente, lá está a cidadela, Hontanas em todo o seu esplendor! Possui umas casas diferentes, peculiares mesmo, e quando descortinas as habitações silenciosas e vazias, sentes que há vida no ar, és observado, examinado. Adentras suas tortuosas ruelas e és engolido por elas, não entras na aldeia, ela é que entra em ti.

Até hoje sinto uma sensação que anteriormente passei por lá, sonho talvez, explicável tendo em vista o que conto no início desta narrativa. Ainda há marcas nas paredes e muros da igreja e de algumas casas, feitas por  salteadores e bandoleiros que por lá passaram. Um morador contou-me que quando a aldeia era atacada por salteadores, todos se protegiam na igreja que com suas paredes de pedras largas e seus poucos e estreitos buracos lá no cimo das paredes, onde entra um pouco de luz, era a garantia de que os bandidos não invadiriam um lugar santos, e só saqueariam a cidade, levando alimentos, animais e ferramentas.

Hontanas possui dois Albergues e paguei 500 pesetas no que fiquei, era muito bom mesmo; era um Domingo e ainda era cedo, perguntei pela missa, e o hospitaleiro me falou que seria as 13 horas, subi rapidinho, escolhi minha cama, lavei minhas botas, tomei meu banho morninho e corri pra Igreja onde rezei e comunguei feliz, sai da Igreja e passei pelas ruas de paralelepípedos, sem lama é claro, e o jantar te confesso que o Menu do Peregrino foi bastante satisfatório, onde a sopa de alho é imperdível.

-: XXIV :-

Parti feliz de Hontanas com a intenção de chegar ao albergue de Fromista, que dista  puxados 35 km, e estive pela primeira vez no Caminho, face a face com a tentação do mal, e graças à Deus e a Santiago, foi a última vez.

Mentiria, se tentações anteriores negasse; inúmeras pessoas especialmente nos Albergues me convidaram para fazer os trechos mais difíceis do Caminho, em ônibus, trem ou até táxi, mas eram somente insinuações, nada forçosamente agressivo, como o jovem brasileiro que encontrei neste trecho do Caminho que mais parece uma alameda tal o número de árvores lindas em suas margens, esta parte de Hontanas até Castrojeriz é meio monótona pela manhãzinha, não há movimento grande na rodovia. Caminhava eu despreocupadamente, quando um jovem andando com seu passo apressado, disse-me que desde ao longe observara que eu andava um pouco fora dos eixos, devia estar com os pés machucados. Assenti quanto a pergunta daquele jovem apressadinho e continuei no meu passinho tranqüilo e ele diminuindo o seu começou a conversar coisas do Caminho e num determinado momento contou-me à boca pequena que sabia haver em Castrojeriz um ônibus que saia de manhã com destino a Carrión de Los Condes, que era baratinho e se me interessava, num convite muito cômico se não fora trágico. Nem me dei ao trabalho de negar tão agradável oferta para meus pés, minhas pernas, meus ombros e minhas costas cansadas. Simplesmente fiquei surdo para a tentação do mal e levei a coisa para o lado da provação, levei o assunto para temas alegres e felizmente o rapaz não insistiu, talvez pela careta que mesmo sem querer devo haver feito, pois conforme já disse anteriormente, o Peregrino fica tão sensível a tudo e a todos que percebe com muita facilidade quando não está agradando.

Creia-me que não sou místico, zen ou dogmático, mas de fato senti naquela manhã numa percepção inesquecível, a tentação do mal.

- Coisas do Caminho!

 À entrada de Castrojeriz, 05/06/2000, segui a seta amarela que me fazia sair à direita da estrada principal e o meu jovem “recém-amigo”  despediu-se de mim dizendo que ia direto pela rodovia que era mais fácil localizar a parada do tal ônibus. Castrojeriz localiza-se no alto de um monte e nas suas alturas perto do Albergue (grátis), que me pareceu bem confortável e grande, há um bar onde fiz meu desjejum que foi fantástico, pois havia encarado a tentação de frente e saído vencedor; e a compensação veio logo em seguida, alimentei-me bem e à farta e preparado estava para encarar e quase escalar a subida do Alto de Mostelares, que é íngreme, cansativa, mas maravilhosa. Quando por lá passei estavam construindo um mirador.

Depois de atravessar uma ponte medieval de sete arcos ainda inteira, porém estreita, que só dá mão pra um carro de cada vez, mas que tem tráfego movimentado de carros, parei para um descanso antes de entrar numa escondida estrada que vai para Itero de La Veja, fiz um lanche gostoso, banana, pão, laranja e água mineral, tirei uma fotinha, e após peregrinar por trilhas onde caminhava sobre flores sempre vivas, passei ainda ao largo de uma ex-cidade, das inúmeras que aqui menciono, a ex-cidade, talvez o nome seja Bodegas, no caso, ao olharmos de longe, tem tudo, ruas pavimentadas, água, luz e até telefone, mas um aviso cá na beira do Caminho por onde eu passava dizia: - População: 1 habitante; para mim deve ser o vigia do patrimônio, pois comentando com alguém mais tarde, vim a saber que o governo Espanhol está desenvolvendo um plano de realocação dos antigos imigrantes espanhóis ainda no exterior e mudança de volta as origens, com auxílio pecuniário para quem aceitar morar naqueles paraísos abandonados no fantástico e conservado interior da velha Espanha.

A verdade é que nem consegui ir além, até Fromista, fiquei mesmo no ótimo, albergue de Boadilla Del Camino, neste dia 05/06/2000, com seu Rollo Jurisdiccional (uma coluna artisticamente talhada no século XV, em estilo gótico tardio, que simbolizava o poder jurídico da Comarca, e servia para acorrentar e penalizar os condenados); só vendo e admirando a imponência da construção para saberes do que estou falando, senti que dava pra ir mais a frente, porém preferi ficar pois já havia caminhado 28 km., aproveitei pra lavar roupa pois o varal era grande, a água farta e tinha sabão em pó grátis.

A hospitaleira é amiga e o atendimento no albergue bem acolhedor, paguei 500 pesetas, e o classifiquei de excelente; o Menu do Peregrino, 700 pesetas, é muito bom e o café da manhã, 350 pesetas especial.

E lá vou eu feliz e me recuperando das dores na canela esquerda, coloquei uma tornozeleira que havia levado e não é que deu certo?

06/06/2000 <> Bastante animado entro no Caminho de Santiago, estrada de terra, com destino a Carrión de Los Condes uns 25 a 26 km, ia tão alegre e desatento que de momento senti que alguma coisa não estava certa, minha alegria arrefeceu e uma tristeza obnubilou minha mente, parei de supetão. Olhei pra trás, alguma coisa estava errada. Voltei-me completamente para trás como um autômato e senti-me caminhando de volta, com outras pernas que não as minhas. Após uns 30 metros voltei-me outra vez de frente para Santiago de Compostela e sem saber como e porque observei por vez primeira uma bifurcação à esquerda de quem vem de onde eu vinha, e numa árvore, bem na esquina, estava lá! Sim! A seta amarela grandona e brilhante estava lá e eu não tinha visto! Mas não tinha visto nada mesmo!

Uma Maravilha havia acontecido comigo e o interessante é que eu vinha cantando os versos atribuídos a São Francisco, quando tudo aconteceu: “Senhor... fazei-me instrumento de vossa paz...

Quis voltar a cantar e não consegui ... e ela veio... aquela força de dentro, impossível de dominar ou evitar e no afã de controlar que aflore, tentas cadenciar tua respiração, em vão; a boca se abre para ajudar na respiração já que sufocas em querer controlar o incontrolável, tudo inútil; ardem os cinco buracos frontais da cabeça e os outros dois laterais zumbem e estalam, nem podem sequer ajudar.

Por fim o coração libera geral e barreiras quebradas, rompidas, derrubadas deixam fluir numa sinceridade comovente para ti mesmo, a mais pura água que jamais existirá sobre a terra... tuas lágrimas temperadas com tudo o que de melhor dentro de ti tens, pois jamais o Homem conseguirá fazer um fluido agridoce tão calmante, como o que experimentas quando não consegues controlar teus sentimentos mais profundos...

Até hoje nem sei a quem devo meu obrigado; se a São Francisco ou se a Santiago que conforme diz a lenda, sempre está ali, ao lado do peregrino que caminha com pensamentos puros em espírito, para ajudá-lo e não deixá-lo errar o Seu Caminho.

Faz mal não! Amo igual; quando chegar na catedral de Santiago de Compostela rezarei agradecendo a todos os Santos, pois quero estar bem com todos e nunca ficar em dúvida de nada.

Ao meu lado direito estava o famoso Canal de Castilla, largo, lindo que refresca muito bem essa parte da caminhada até Fromista, e do meio do mato me sai um cachorrinho pequenininho que olha para minha cara, sorri e passa a andar atrás de mim como a me seguir.

Rápido, saco meu cajado que está enfiado entre minhas costas e minha querida mochila, pois carrego meu  bastão como se fora um antigo Samurai a carregar sua afiada e longa espada.

O bichinho nem dá bola pro meu gesto de espanto, precaução e receio, e fingindo que não é com ele, continua com seus passinhos quadrupedemente cadenciados a me acompanhar.

Sempre tive medo de cachorro, pequeno, grande, médio! Não me importa! Se é cachorro! Tenho medo!

Dou uma paradinha estratégica,  e o dito cujo passa por mim todo faceiro e se vai a minha frente como se meu guia fosse. Porém na primeira bifurcação à esquerda, uma pequena trilha, ele, o cãozinho pára e me espera passar.

Controlando meu receio, passo batido com meus mil olhos arregalados, a nuca antenada e completamente sensível a qualquer som, e com o rabo do olho, meio sem querer querendo, consigo ver o cachorrinho vindo atrás de mim outra vez, agora a uma distância maior, e assim caminhamos até as eclusas perto de Fromista, quando o cãozinho segue em frente pela estrada e eu, dando-lhe uma última e ainda receosa mirada, atravesso o canal por cima de uma passarela de aço para começar a cruzar de ponta a ponta a cidade de Fromista, rumo certo do Caminho. Na verdade nem creio que o cachorro me seguia a fim de comida, penso que era somente companhia que ele queria, já que ainda é chamado o melhor amigo do homem.

-: XXV :-

Passo rápido por Fromista, mas paro o tempo suficiente para colocar um cartão postal no Correio e tomar um cafezinho já à beira da longa estrada que ao lado seguirei num Caminho de Peregrino que a margeia até Carrion de Los Condes.

Caminho sempre o mais perto da rodovia, que está à minha esquerda, mas não adianta nada, o problema é que ao meu lado direito existe uma plantação constante de cevada, com seus milhares de habitantes alados, moscas, besouros sei lá o que são, só sei que há momentos em que eles vêem lamber teus olhos, e são muitos, centenas e incomodam bastante. Tiro meu cajado mais uma vez e rodando à minha frente, na altura do meu rosto como se fora um limpador de pára-brisas, vou em frente, resoluto e apressado, e assim por alguns quilômetros atravesso nuvens zumbidoras.

Chego cansado em Carrion de Los Condes, 06/06/2000,  cidade espanhola média,  acolhedora e com dois albergues e diversos hotéis baratos. Escolho um hotelzinho no centro, 2.500 pesetas, pois preciso descansar minha canelinha esquerda e também procurar alguém para uma massagem.

Entro no hotel, mostro meu passaporte, a moça pede para deixá-lo com ela enquanto hóspede for, mas prefiro deixar com ela uma cédula de identidade do Instituto Feliz Pacheco lá do Rio de Janeiro – Brasil. Ela aceita sem problemas. Brasileiro sabendo conversar, consegue tudo com os espanhóis! Espanhol ou espanhola são sangue bom!

Vou na farmácia e pergunto se há massagista na cidade e ele me dá um telefone de uma moça chamada Raquel, uma jovem que é fisioterapeuta formada, curso superior feito em Madrid. Rapidinho, ligo para ela e marco uma sessão para as 22 horas no seu consultório, que é dentro do apartamento da família dela. De bem com a vida vou para um restaurante e janto Sopa de peixe; Filé de peixe c/molho de tomates e papas fritas. quase 22 e corro pra casa da massagista.

A Raquel de fato fez um ótimo trabalho e diferente dos quiropráticos que me trataram em Burgos, ela usa um outro método que funcionou muito melhor, foi usando somente a ponta dos dedos no lugar que mais doía, por pelo menos uma hora, e tornei-me insensível quando ela perguntava se doía muito, o machão brasileiro imitando os famosos Maguila & Popó, ainda sorria e brincava com ela, no afã de não deixá-la perceber o sofrimento mais espiritual que físico, pois nas milagrosas mãos dela estava o meu destino.

Mais de uma hora de tratamento com as pontas dos dedos, e ela passou para os choques quente frio; infravermelho e gelo alternados. Paguei a bagatela de 2.500 pesetas, aproximadamente R$25,00, pouco para tanto!

 Só sei que quando sai do consultório era mais de meia-noite, porém estava livre, leve e solto,  novinho em folha, pronto para qualquer desafio. Era outro homem; um Peregrino renovado, e ao consultar o meu livro guia, tava lá: 405 km até Santiago de Compostela; e do alto do meu bem estar; exclamei:

̶  Beleza! Minimizei! Está bem pertinho agora!

Peregrino com fé, é isso ai. Achar tudo  natural, não temer o inusitado, estar preparado enfrentar todos e tudo;  sem ter medo de ser feliz; olho no relógio, quase meia-noite vou dormir, aviso pro porteiro me acordar as 8:30 horas e só que desmaiei...

- Coisas do Caminho!

-: XXVI :-

Foi a segunda vez que as vi; na primeira vez não fiz caso, mas eu estava nos começos do Caminho, naquele trecho cheio de lindas árvores e muitas fontes que fica entre Larrasoaña & Pamplona e como um bom neófito nem dei atenção à beleza da ocasião, agora era diferente, já estava mais maduro, mais cansado também e sentia que não era mais um simples aspirante a caminhador e sim um veterano Peregrino.

Estava eu feliz, alegre e satisfeito, saindo de Carrión de los Condes, desta vez convencido que minha canela esquerda jamais me causaria dores e pesares, quando as vi!

Elas vinham em bandos alegres e palradores, de quatro, cinco, seis ou mais, juntas naquela tribo de cabeças loiras e vermelhas, como se foram amazonas nórdicas, porém não calipígias, mas com os dois seios, estes sim volumosos, conquistando com sua bravura feminina, não feminista, mais uma vez os paraísos ensolarados da Península Ibérica.

Visão bem brasileira, tive naquele momento, pois aqui à minha frente estavam as reais e verdadeiras loiras, nada do que se vê no nosso Brasil, pura falsidade lavável com xampu ou esverdeável à um mergulho desavisado numa piscina clorada.

Foi o que senti, mas logo me arrependi. Quem sou eu para julgar? Se pecado é; sai de mim pensamento maléfico... Sou da paz, ainda mais da paz olhada com admiração.

As belas deusas, com coroas capilares loiro meio branco ou avermelhadas, quando em grande quantidade, chamam mesmo atenção e é coisa bonita de se ver; de se admirar. Não devo negar, porém, que elas olharam para mim entre sorrisos cúmplices entre elas mesmas ao olharem para aquele peregrino com uma grande mochila de onde destacava-se um mastro feito de galho de árvore fininho que terminava em seu ápice com a tremulante e belíssima verde-amarelo-azul e branca Bandeira do Brasil.

Me chamam de mulato claro lá no Brasil, mas aqui depois de milhares de horas sob um causticante sol europeu que tem seu arrebol depois, bem depois das 21 horas, eu tava mesmo é negão, camisa de manga curta e bermudas bem acima dos joelhos, completamente queimadão, negão saradão mesmo, e o contraste se fazia logo notar, elas de camisas de mangas compridas, calças compridas, óculos escuros de sol e chapéus, bonés ou quaisquer outros protetores que possas imaginar, tudo para proteger-se do sol inclemente que pra elas é causticantemente queimador. Creio que é por ai que se inicia a observação mútua, um olhando pasmo e meio envergonhado, talvez por estar em total minoria, para outras, e outras sorridentes e curiosas olhando inquietas pra um, numa troca incrível de trejeitos e dissimulações inenarráveis.

Em que estás pensando?

Saiba que o peregrino também é filho de Deus e tem suas horas de descontração e no meu caso de prazer em ser um homem que sabe valorizar o que é belo, mesmo que longinquamente intocável e intangível, não por falta de charme, sim pelo momento impróprio quanto ao objetivo a alcançar, assim como o cansaço e outras obrigações morais nem te dão tempo para pensar mais profundamente em lances animais.

- Coisas do Caminho!

-: XXVII :-

Ao acordar, sentindo meu coração leve e animado, desde a noite anterior após haver assistido a ótima missa do peregrino, na Igreja de Santa Maria del Camino , saio de Carrion na direção do primeiro povoado distante, cujo nome me recuso a citar, pois no Albergue que parei pra tomar um refrigerante gelado numa máquina estrategicamente colocada, o pai do hospitaleiro que substituía o filho titular ausente, me tratou não muito bem; mas minha alegria naquele momento era tão maior que nada mudaria meu humor mesmo os quase 18 km de caminhada dura com subidas maiores que baixadas e lá ia eu muito tranqüilo e feliz, após o episódio das loiras e ruivas que assim como apareceram, sumiram da paisagem como se miragem fossem ou aparição, mandada secretamente pelos meus mais íntimos sentimentos, escondidos no cerne da minha memória, que num momento de Sem Censura devido ao cansaço, tivessem seu momento de liberou geral, para darem uma força àquele Peregrino tão carente de amizade no momento presente, mas com o espírito prenhe de energia advinda da certeza de que fora chamado, aceitara o chamamento, e escolhido fora entre muitos para peregrino militante glorificar o poder de Deus e de Seus apóstolos.

Chego em Ledigos, 07/06/2000, à beira da Rodovia do Caminho de Santiago, e vejo com meus próprios olhos o que a Raquel, a fisioterapeuta, lá de Carrión de los Condes, tão bem me explicou:  ̶  Manny! As aldeias menores e pequenas vilas estão acabando em Espanha, presta atenção!

Em Ledigos fui zeloso o bastante para sentir o inexorável declínio de uma cidade, conversando com um aposentado na pequena pracinha a beira da movimentada rodovia que trás o progresso, trás? Ele narrou o acontecido com sua cidade, o senhor está vendo aquela escola de primeiro grau? Ela só funciona mais este ano; ano que vem o administrador escolar vai alugar um ônibus para levar nossas poucas crianças para uma cidade maior, onde ainda exista o ensino elementar, como já é feito com os jovens do segundo grau. E assim a coisa vai num crescendo até chegar a ponto da cidade estar completamente abandonada, habitando nela somente uns poucos aposentados, velhos e doentes, não se vê jovens e nem crianças os que realmente dão vida, continuidade e crescimento a qualquer povoação. Chamamos isso progresso?

Após caminhar subindo e descendo uns 18 km, beirando rodovias e assistindo a construção de auto-estradas em quase todo o percurso, chego finalmente a Sahagún (se pronuncia Saagún), 08/06/2000.  O Albergue maravilhoso, 500 pesetas, é dentro de uma antiga igreja católica desativada e adaptada para caber uma ótima e espaçosa Sala de Música com um grande palco e na parte de cima os dormitórios confortáveis dos peregrinos. Uma beleza deitar-se na cama superior do beliche e admirar os encaixes das velhas, mas ainda vigorosas toras de madeira que sustentam o telhado.

Sahagún é uma cidade em franco crescimento, além da restauração de construções antigas, vê-se construções novas por todos os lados, tanto casa, apartamentos e casas comerciais também, é uma cidade preparada para turismo, e te dá todas as condições de visitar sem se perder. Quando entras cansado na recepção do Albergue há duas lindas espanholas jovens alegres com o trabalho que fazem, que te tratam não como um peregrino e sim como um turista ávido para conhecer tudo, e te dão um mapa da cidade com todos os pontos principais, bem explicadinho e fácil de entender.

Ficas logo alegre e esquecendo o cansaço deixas a mochila e o cajado, colocas a Vieira, identificação do verdadeiro Peregrino, pendurada no pescoço e vais a luta, na vã tentativa de ver e entender tudo em tão pouco tempo, ou seja: Das 13:00 horas até às 20:00 horas, hora da missa sempre imperdível para os católicos, o Albergue tem um horário um pouco melhor e fecha somente às 22:30 horas.

Tempo de correr e ver o máximo no mínimo de tempo disponível e no dia seguinte ao que cheguei, iria haver uma corrida de Touros pelas ruas da cidade, e havia cercas enormes e de madeira por toda a urbe e era interessante e um pouco triste, caminhar por lugares que sabíamos no dia seguinte muitos se machucariam naquela corrida louca à frente de touros em desabalada carreira.

Sahagún estava alegremente em festa, era então o início do fim de semana da festa da cidade, 9, 10, 11 e 12 Jun, e estava todo mundo feliz, o povo, os comerciantes, e os donos de restaurante então nem se fala, pois à porta de cada um estabelecimento de repasto, havia cartazes discriminado as comidas mais apetitosas e seus preços de ocasião, tudo uma beleza só. 

Me lembro muito bem... Em quase todos eles o Menu do peregrino anunciava-se apenas a 900 pesetas, baratíssimo em se tratando da qualidade e da quantidade da comida servida. É meu amigo, minha amiga; Peregrino também gosta de comer bem e barato! Fui numa farmácia e perguntei ao farmacêutico se tinha alguma pomada milagrosa para amenizar dor na canela e ele simplesmente mandou-me fazer massagens na parte dolorida,  e colocar um tobilho = tornozeleira, sinal de que eu estava no caminho certo da cura. Comprei um bloqueador solar de 15, por 1750 pesetas, já estou muito negão e minha pele está ressecada demais assim como meus lábios.

-: XXVIII :-

Caramba! Hoje tenho que acordar e sair cedinho daqui de Sahagún, pois vai haver Corrida de Touros e eu que tenho medo de tudo quanto é quadrúpede, nem quero ver a aproximação dos mesmos. E foi o que fiz, peguei minhas roupas na corda lá na Área de Serviço, bem cedinho e me mandei da Cidade em festa tendo Leon como meu destino principal, mas duvidando da possibilidade de chegar até lá.

Dou um amistoso adeus a Sahagún quando à saída da bela cidade, passo pelo Pórtico ou Arco imponente construído no século XI, no que seria a verdadeira entrada da cidade.

Há horas que o Peregrino fala consigo mesmo: - Minha idéia é chegar a tal ponto, tal cidade, aldeia ou povoado, mas de repente e sem saber o porquê, mudas tudo e paras num lugar que não tem nada a ver.

-  Coisas do Caminho!

E não deu outra, após caminhar por 18 km, lá estou eu parando de novo numa cidade que parece maior que Sahagún chamada El Burgo Ranero, 09/06/2000, é outra das tais cidades em crescimento, porém o Albergue é longe do tumulto da cidade, e muito confortável por 300 pesetas, mas já vemos rodovias em construção bem pertinho do local.

Mensagens que encontrei no Livro de Visitas:

- Msg do meu amigo Marco Pingret, deixada  no dia 04/06/2000: “Mannyboy, espero que o ‘Caminho’ tenha te dito alguma coisa. My way está sendo uma benção de Deus. Nos veremos um dia!”

- Msg da minha amiga Ana Paula, deixada no dia 07/06/2000: Manny! Cadê você, Homem???” Nessa coloquei o seguinte adendo: A @N@ Peron já devia a essas horas estar uns 5 kg mais magra!

Estou no Caminho, peregrinando para chegar à Santiago de Compostela, porém meu pensamento maior está em chegar primeiro na cidade mais próxima do roteiro exigido, serão 38 km até Leon.

Estou passando por um povoado de uns 250 habitantes, e cada família tem a sua adega particular encravada nas rochas das alturas que cercam Reliegos, são chamadas caves, covas ou bodegas, e estão em cada lado do Caminho que corta a cidadezinha. Para mim é tão interessante saber que cada família tem a sua própria adega que paro até para tirar uma foto, e logo após pergunto a uma moça natural dali, o porque de tantas adegas, e ela me conta que no passado a aldeia era conhecida pela qualidade dos seus vinhos nobres, mas que hoje é mais tradição, porque ninguém mais cultiva vinhedos por ali.

É verdade! Mas Leon vai ficar pra amanhã mesmo! Me espantei exclamando em alta voz, ao avistar ao longe a bela cidade de Mansilla de Las Mulas, 10/06/2000.

Não me arrependi; é realmente uma cidade mágica. O casco velho, como chamam a parte antiga da cidade, é toda cercado de muralhas romanas, com seus característicos pedregulhos encaixados e suas torres e seteiras que chamam a atenção, principalmente dos não europeus.

A cidade estava toda em obras, estavam colocando calçamento novo por toda a parte e fui dar uma volta para admirar as velhas muralhas ainda bem conservadas em alguns trechos e dei de cara com um bairro bem populoso de pobres, sinal mais que suficiente para mostrar que é uma cidade grande e em expansão.  O Albergue de 300 pesetas é grande, acolhedor e bem administrado pela Laura, uma jovem espanhola que gosta de falar portunhol com uma entonação muito graciosa e trata nós brasileiros com o maior carinho. No dia que lá estive ela vestiu até uma camisa de futebol do Flamengo, muito louca a Laura e seu marido é o Wolf, um alemão que tem o dobro da idade dela, e já fez o Caminho oito vezes. O Wolf é um ótimo papo, sabe tudo das Coisas do Caminho.

          Saio cedinho de Mansilla, após tomar um café da manhã especialmente preparado pela Laura e seu marido o Wolf, eles cantam na manhã, brincam conosco os peregrinos. Uma verdadeira festa de despedida!

          Imagina fazer durante anos e todos os dias a mesma coisa com alegria, e entenderás o porquê da minha alegre citação do casal hospitaleiro aqui.

          São 18 km até Leon, 11/06/2000. Uma caminhada pesada, por ser perigosa, já que andas muito pelo acostamento, e és obrigado a cruzar várias vezes, uma auto-estrada movimentadíssima, sinal de cidade grande por perto. Há uma ponte de pedra sobre o largo rio Esla, que é inesquecível, tal o perigo que passas ao atravessá-la juntinho com carros velozes e caminhões pesados. Um perigo real à cada passada, tudo isso porque já estás acostumado à tranqüilidade do Caminho bem cerca da Natureza e quando sentes o progresso tão perto, os avisos de perigo espalhados por todos os lados, riscos até assinalados no livro guia, ficas de fato preocupado com tua segurança e nem curtes o momento especial, que é de chegar a uma grande cidade como Leon, que é bem mais interessante e acolhedora que Burgos, a começar pela chegada que é muito mais agradável.

-: XXIX :-

Chego em Leon e vou diretamente para o Hotel Paris, 7.000 pesetas de puro luxo,  bem no calçadão central da cidade grande, creio que maior que Burgos, cidade bonita, muita gente e como fiquei lá sábado e domingo, foi um descanso total.

Fui chegando e após retirar minha segunda pele amiga, a roupa completa; e minhas protetoras dos pés, minhas botas e minhas quatro meias, minhas amigas, já que estávamos desde a base francesa mais que íntimos; mergulhei na banheira de água morna, para um repouso demorado e merecido.

Já tinha decidido que ficaria dois dias na bela cidade grande, para uma recuperação completa de corpo, alma e coração. A princípio dois dias no hotel que por estar bem localizado no calçadão principal do centro da cidade, tem um atendimento de primeira classe tanto a cafeteria como o restaurante que é um dos melhores de Leon.

É hora de uma reflexão de Peregrino. Me lembro que evitei cidades grandes e até falar mal delas falei em elucubrações anteriores, mas naquele momento do Caminho, tudo havia mudado em mim, vivia minha vida em serenidade e aceitava o que meu corpo pedia e o que minha carteira podia suportar, e conforto pedido era dado sem um quê de dúvida ou discussão.

-  Coisas do Caminho!

Estava num bar de frente para a belíssima e gigantesca catedral de Leon, sorvendo Cocas-Colas e água em demasia, pois como estás careca de saber, no centro de uma cidade grande, por ser tudo asfaltado e por ter muitos edifícios altos, o calor se faz presente e  o Peregrino, acostumado a vida ao ar livre, sente-se abafado, agoniado e para mitigar o desconforto, bebe líquido à larga e ao ficar também com a boca nervosa, passa a comer quitutes até então proibidos, quando naquelas cidades menores ou quando em sua cidade de origem a balança não era lá muito amiga.

Mas... Estou eu lá lendo meu livro guia “El Camino de Santiago a Pie”, que é um ótimo exercício para nossa imaginação, quando noto que estou pertinho de Santiago de Compostela, só faltam 310 km! Agora tudo se explica. É justamente o momento de gozar as delícias do Caminho, fazer tudo o que tenho direito, todos os livros que falam do Caminho e de suas Peregrinações num ponto são unânimes quando citam que é o nosso corpo de faz a andadura, que decide sem que percebas, tudo o que acontece contigo. Mais forte que a sabedoria e a vontade, nesse momento ele, o nosso corpo, é o soberano, tem o poder de decidir o que é melhor para todo o resto da nossa máquina maravilhosa criada por Deus.

Quando começas a analisar tuas sensações, percebes que os melhores momentos que passaste, foram quando teu corpo estava feliz, alegre e completamente são. Alguns poucos podem até discordar, mas, cada um tem seu momento de completa felicidade no Caminho, alguns tem mais que uma, porém, a experiência mais marcante é quando da primeira vez teu corpo sente que está em plena forma e que tu estás satisfeito com o desempenho dele.

Nem estou ficando maluco ou louco, farás o Caminho e verás as sensações diferentes que sentirás quando sozinho. Aliás, sou mesmo fã incondicional e te peço que faças o Caminho de Santiago de Compostela, sozinho, pelos menos uns 100 km ou mais, para que possas melhor escutar as mensagens do teu corpo e dos teus sentimentos em geral. Somente sozinho é que te voltas mais para ti, para teu interior, assim é que podes sentir as maravilhas do Caminho.

Egoísta! Nem pensar! Ora! Nascemos sozinhos e morreremos sozinhos. Por que então não podemos passar alguns dias sozinhos numa peregrinação com tanto significado, seja para os cristãos seja para os incrédulos?

Falando em sentimentos e lá vou eu obedecendo a voz do coração, já que o corpo feliz e descansado e relaxado, já nem opina. Levanto meu acampamento numa surpresa até para mim, e ao meio-dia de 12/06/2000, estou lá na fila do Albergue grátis, no Monastério Benedictino, na mesma grande cidade de León, só que um pouco afastado do centro.

A maior fila na porta quando lá chego, nem titubeio, passo ao largo e entro direto como sói acontecer com o Peregrino calejado, que vai entrando, desbravando para ver o que está acontecendo. E lá dentro já perto da segunda porta de entrada, encontro amigos do Caminho por quem passei ou fui passado, vagas lembranças, porém alegres, e entramos naquele bate-papo comum, com perguntas onde paraste? Vieste como? Teus pés estão bem?

O engraçado é que fico feliz, depois de haver passado tanto tempo longe da fraternidade peregrina. Pergunto o porquê daquele tumulto lá na entrada principal e um peregrino mais calejado, me explica que León é escolhida por muitos aspirantes a peregrino para ser o início da peregrinação e o que vi são caravanas enormes de iniciantes ou aspirantes, à procura de sua primeira dormida num Albergue. Muitos inclusive com apoio motorizado, é claro que vi isso também em muitas partes do Caminho, principalmente nos finais de semana. Pra mim é indiferente, trato igual, Amo igual, sou do tipo cada um com o seu cada um!

Mas que foi bom, foi bom ter obedecido ao meu coração e vir cedo para cá!

O hospitaleiro nos chama e entramos conversando numa boa, acostumados que estamos com a hospitalidade tão agradavelmente comum na maioria dos albergues ao longo do Caminho.

-: XXX :-

 

12/06/2002 - A rápida mudança de ambiente, do fino hotel para o movimentado e barulhento Monastério Beneditino das Hermanas Carbajalas, onde a disciplina maior é na hora da missa imperdível, às 21 horas; emoldurada que é por cantos gregorianos com vozes femininas, uma espetáculo, por mim bem sentido, porque estava realmente em paz com Deus e comigo mesmo. Era uma sensação serena, de calma e tranqüilidade, e a única coisa de diferente que me lembro foi a superlotação do Albergue, pois à hora da saída, estava bastante descansado, acordei mais cedo que o normal e ainda pude ver gente dormindo em colchonetes, e até em sacos de dormir diretamente sobre o cimento, numa área interna onde há uma quadra de esportes. Quero aqui esclarecer que há em Leon outro Albergue que é municipal, é perto da Praça de Toros e por ficar bastante longe do centro da cidade, os peregrinos aspirantes, neófitos de primeira viagem, dão preferência ao refúgio das Hermanas Carbajalas, razão pela qual o movimento é tão grande todos os dias.

Adeus cidade de León! Linda com seu verde magnífico e com suas praias fluviais do largo Rio Bernesga, seu coração líquido e que dá a cidade um frescor encantado, que quando da saída a gente sente a diferença, pois é um longo caminhar até sair completamente da urbe para retomar o Caminho nosso conhecido, e entrar diretamente no seio da Mãe Natureza.

E lá vou eu pela variante do Caminho que escolhi, sigo então em direção a Villadangos del Páramo, 13/06/2000, o Albergue, 300 pesetas, é bem na beira da rodovia, a cidade fica um pouco mais acima e como é na beira de uma movimentada estrada, tem restaurantes e um comércio razoável, porém é uma cidadezinha pequena.

Ah! No meio do Caminho de León para Villadangos, passo batido por uma peregrina, que ia meio que tranqüila bem na beirinha da rodovia, seguindo mansamente, no seu passinho cadenciado, pensando na vida e no Caminho. Vou passando rapidinho, quando ela fala num bom Português: - Ei! Brasileiro! Tá com pressa de que?

Bom explicar mais uma vez, que pregada na minha mochila, usava uma bandeira brasileira e outra havia sempre tremulando, num pequeno e fino galho de árvore, que enfiado num furo da mochila, ficava a uns 30 cm, acima da minha cabeça. Razão pela qual era fácil para as pessoas verem minha origem. Coisa muito boa, porque recebia muitos: Hola! Buen Camino! Brasil! Quando por mim passavam ciclistas, peregrinos ou não, motociclistas peregrinos ou não, motoristas diversos e, sobretudo Peregrinos como eu, que mais passavam por mim do que eu os ultrapassava, já que meu caminhar era lento e gostoso, de acordo com o que meu corpo me pedia, e era ele sempre que dava as ordens.

Pois bem, a jovem senhora, chama-se Audelucia, e é brasileira, gente finíssima e foi aquela amizade à primeira vista. Uma força superior nos uniu e como velhos amigos, recomeçamos uma conversa que sempre houvera, nos entendemos maravilhosamente bem, e fomos em frente com o mesmo objetivo. Só que ela tinha pressa, havia começado sua peregrinação em León e estava muito feliz no seu primeiro dia de caminhada.

Esclareço que por passar às vezes dois ou mais dias sem falar meu idioma, quando encontrava um brasileiro ou uma brasileira, tinha na minha cachola, assunto para conversas ininterruptas de horas, ainda mais estando vindo de Saint Jean Pied de Port, na França; em sendo assim a alegria tomava conta de mim, e inúmeras vezes fui alertado para falar Português, pois mesmo a pessoa falando comigo no meu idioma pátrio, eu lhe respondia em Inglês ou Espanhol, traições mentais talvez, ou a férrea vontade que eu tinha de ficar esperto naqueles idiomas, aproveitando a facilidade de assuntos e a quantidade de pessoas que falavam as duas línguas.

Quando chegamos ao Albergue de Villadangos del Páramo, os pés dela já estavam meio que machucados, ela sentia dores em outras partes do corpo, e olha que ela só havia andado seus primeiros 21 km, e com inúmeras paradas que fizemos. Tentei dar uma assistência com as poucas coisas de primeiros socorros que tinha, mas ela preferiu procurar uma farmácia onde comprou tudo o que tinha direito e aí, só então é que fui saber que ela é médica e sabia cuidar seus ais.

Ficamos frente à frente no mesmo grande salão do Albergue, onde dormimos enfiados nos nossos sacos de dormir, sobre colchonetes no chão, creio que ela ficou bem recuperada, também! Era seu primeiro dia;  e na manhã seguinte ela com outra sua amiga doutora, chamada Cristina, se foram cedinho, e nem as vi, pois tinham tempo certo e contado para chegar à Compostela.

E lá vou eu mais uma vez, agora com a certeza de chegar até Astorga, uma maravilhosa cidade com dezenas de monumentos para se apreciar, e eu com tempo para deliciar-me e aos meus olhos.

 No caminho a gente passa sobre o rio Órbigo, por uma Ponte Medieval, séc. X e XI, conservadíssima e muito bela. Verdadeira maravilha usada somente por pedestres, o que ainda a torna mais atraente, pois podes caminhar com os olhos voltados só para ela e para a beleza que dela se descortina.

Astorga, 14/06/2000, é uma cidade média, magnífica em sua beleza onde se admira o velho e o novo, num espaço pequeno. Desde  ruínas de “banhos e muralhas romanos”, passando pelo incrível Palácio de Gaudi, séc. XIX,  ao visitar lá dentro o Museu do Caminho, ficas ainda mais entusiasmado com o que estás fazendo, e vale o preço do ingresso sim. Sem falar que uma visita à Catedral de Santa Maria de Astorga é imperdível, assim como saborear os amanteigados de Astorga, uma beleza para os olhos e uma delícia para o paladar do peregrino, que nem segue dieta quando no Caminho, pois o corpo queima tudo o que se consome. Ah! Maravilha viver caminhando! Podes te esbaldar nas comidas que no dia seguinte, estás lá firme, queimando as calorias ontem extrapoladas, numa constante em todo o Caminho até Santiago de Compostela ou prosseguindo no embalo até Finisterre, para os mais ousados.

Nem posso esquecer o Cozido Maragato, que servem no restaurante de mesmo nome em Astorga, é meio caro, e pra mim não foi muito bom, enjoei só em ver a quantidade de carnes e coisas, nem o cheiro me agradou muito, parece com a buchada de bode do nosso Nordeste. Belisquei, nem comi e como já foi explicado anteriormente, os garçons não ficaram muito felizes com meu comportamento gastronômico, mas turista é assim mesmo e como estava em paz comigo mesmo, eles viram na minha cara que não deixava a comida por mal, e sim por algum problema, talvez por saberem, já que ao ser perguntado, lhes respondi com algum orgulho, mas com a simplicidade de Peregrino,  se assim é possível,  que vinha caminhando desde Saint Jean Pied de Port, da França; nome de um país gostoso de pronunciar, para quem é brasileiro e conhece a história.

O Albergue de Astorga, é grátis,  pequeno e pouco confortável, tem só um sanitário com chuveiro para homens e um outro semelhante para o sexo feminino; o dormitório é bem acanhado com camas beliches triplas (triliches), o que dá um medão enorme para quem fica lá no terceiro andar como eu fiquei. Menos mal, pois o peregrino quando deita, não dorme, desmaia e assim na manhã seguinte bem recuperado dos amanteigados e cozidos, parti para fazer os 21 km, para grandes e agradáveis surpresas, até a localidade de destino.

Rabanal está além do jamais esperado. Verás!

Aliás, surpresas são uma constante no amanhecer do verdadeiro Peregrino, que após levantar-se e orar agradecendo à Deus,  a vida de mais um dia, já que “Viver é acordar”, parte sempre em frente tendo a certeza que até seu destino final muita coisa boa vai acontecer, e nada de mal o poderá deter. Quem tem Deus no coração e sabe o Caminho a seguir, não tem medo de nada, não tem medo sequer de assombração, como lerás mais adiante.

- Coisas do Caminho!

-: XXXI :-

Saio da bela Astorga às 08:30 horas da matina, e nem sou o último, deixei lá uns cinco pseudoperegrinos, vagamente conhecidos, que estavam de carro, coisa que já havíamos notado no Albergue de Villadangos del Páramo.

Que havíamos notado, ou melhor,  que a Audelucia e a Cristina haviam percebido. Ah! Mulheres! Elas de fato sabem tudo e vêem mais que nós homens, mesmo quando cansadas, estropiadas e desgrenhadas, pois chega um momento no Caminho que o asseio é importante, mas pintura da face e outras ‘cositas más’, são deixadas para segundo plano, não que as mulheres tenham olvidado em ficar mais atraentes, sim que em suas mochilas não há mais espaço para supérfluos, o sabem bem as já calejadas Peregrinas, cientes que ainda faltam 258 km para chegar à Santiago, muito ainda há que se caminhar.

É o momento onde a beleza interior se exterioriza, toda a mulher é bonita, linda, maravilhosa, nesta parte do Caminho de Santiago de Compostela, uma beleza rejuvenescedora, mostrada na maciez natural da pele castigada pelas intempéries, mas com seu viço saudável,  na brancura dos dentes, na aparência casual dos cabelos, lavados até com sabonete comum.

Isso mesmo, contemplas aqui a mulher ideal, a mulher que se ombreia contigo, lado a lado com um só destino, carregando em suas costas sua casa, com seus poucos pertences, sem a vaidade obrigatória do dia à dia da cidade, da sociedade e do trabalho, e de outras mulheres. Aqui a mulher está livre, leve, e desobrigada de tudo; e senti que elas estavam numa boa. Porque transmitiam a todos nós que as olhavam, uma pura imagem ancestral da Eva primeira; mãe de todos nós.

Paro em Castrillo de Polvazares, uma vila com algumas casas, mas com um amigo dos brasileiros que não pode ser esquecido, falo do Ramiro, famoso proprietário do “Bar Cowboy”, a foto dele está na página 158 do Livro Guia, ‘El Camino de Santiago a Pie’ e é claro, pedi a ele que colocasse uma dedicatória para mim, que guardo com orgulho.  A acolhida dele quando me viu ao longe, com minha bandeira do Brasil lá no alto tremulando na ponta do meu arremedo de haste, feita com um galhinho de uma árvore qualquer, mas natural do Caminho, foi aquele grito de alegria: Hola! Brasileiro! Assim mesmo, bem explicadinho e num bom Português, e lá dentro de sua ‘Meson’ como ele chama seu estabelecimento, vi a razão de tanta euforia. Há diversas lembranças de brasileiros por todas as paredes do bar, e como faltava nosso símbolo nacional,  é claro que lhe dei, com muito prazer e satisfação, uma das minhas Bandeiras do nosso Brasil (20x14cm), no que ele ficou tão contente que nem cobrou as duas latas de Coca-Cola que logo desapareceram pela minha goela sedenta, que tomei e num repente, assim como uma garrafa de água mineral que peguei para a viagem.

Ramiro, amigo! E se fores ao Brasil, um dia,  manda um e-mail pra mim, taqui meu endereço eletrônico! <mannyboy@mannyboy.com.br>

É que sigo a cartilha contemporânea: “Hoje ou és  < alguem@algumacoisa.com >; ou não és nada".

E ele: - Muito bom Mannyboy, mas se eu for ao Brasil, nem sei se terei tempo de visitar todos os brasileiros e brasileiras que me deram o endereço e até o telefone, com hospedagem gratuita e tudo. Estou realmente pensando em um dia ir lá pra gozar da hospitalidade brasileira, e até procurar uns parentes há muito esquecidos, que por lá moram.

No que respondi: - Vai mesmo Ramiro, que o pessoal recebe bem e estarás em casa e serás bem tratado como nos trata aqui, um verdadeiro pedaço do Brasil perdido num lugarejo longínquo, no interior da Espanha.

Ah! O povo brasileiro, sempre semeando felicidades por onde passa!

-:XXXII:-

Uma subidinha boa para se chegar a Rabanal del Camino, 15/06/2000, que tem três albergues, mas a pesada quase escalada para o albrgue onde fiquei, vale à pena, é um enclave, quase cidadela,  elevado e solitário, numa seqüência de alturas. Um ponto de grande energia religiosa, graças aos padres e irmãos da Confraternity of Saint James, que com a sua missa cantada, nos fazem até chorar sem querer, ouvindo aquela repetição de orações em latim, que entram em nossos ouvidos, como lamentos de todos os peregrinos que passaram por aqui, no medo louco dos assassinos e bandoleiros de estrada, que pululavam nesta área, longe que era do policiamento implacável dos Cavaleiros do Templo, cujo castelo-sede que está sendo reconstruído, é em Ponferrada, distante uns 33 km de montes, morros, quase montanhas, que teremos que vencer com galhardia amanhã, nem digo se Deus quiser, porque tenho certeza que Deus quer, e por isso estou aqui. Certeza que está dentro do coração de todo o Peregrino que iniciando o Caminho seja de onde for, tem dentro do coração a luz que ilumina a alma e revigora a inteligência e a vontade: “A Fé”.

Meus passos me levam para o Refúgio Gaucelmo, grátis, de frente e na mesma quadra onde está a Confraternity of Saint James. Explico meus passos, porque outros peregrinos quando chegam na bifurcação, têm três opções a seguir, e assim na verdade, o Albergue é escolha da sorte de cada um.

- Coisas do Caminho!

Sou recebido pela não menos famosa hospitaleira Célia, uma jovem portuguesa de Lisboa, que encanta e dá brilho àquele aconchegante, limpo e agradável  Albergue, que é um dos poucos do Caminho que tem até uma ótima biblioteca.

Ante tanta hospitalidade, tomo a liberdade de dizer pra ela que gosto de dormir até tarde, gosto de ser o último a sair, e ela prontamente me manda para os dormitórios anexos, construções de pedras encaixadas, teto escorado por toras gigantescas de madeira, antigos depósitos de víveres, agora transformados em dois dormitórios espaçosos e gostosos de se dormir, pelo menos no calor da Primavera européia, porque no frio deve ser geladíssimo, pedras largas e enormes costumam manter a temperatura interior sempre baixa, razão de ser ali o depósito de cereais.

Material arrumado, banho tomado, lá existe um secador de roupa elétrico e grátis, enxugo minhas roupas lavadas e as coloco para pegar aquele cheirinho de roupa secada ao sol, junto com minhas botas que já estão escovadas, calço minhas chinelas Rider, e saio para o tradicional reconhecimento da localidade, sei por onde cheguei e quero logo saber por onde sairei continuando minha peregrinação, seria mais um incentivo para a mente e o corpo saberem que no dia seguinte, o caminho seria aquele já visto e previsto.

Saio a visitar a Igreja de Santa Maria, mas está fechada, assim sendo, vou até o Albergue de Nossa Senhora do Pilar, lá embaixo perto da rodovia, e minha felicidade não tem fim mesmo; encontro as minha amigas Cristina e Audelucia, todas felizes e rodeadas de amigos de todos os cantos da terra. Elas de fato são a atração de Rabanal, alegres, felizes e católicas, nos fazem reunir-se num grupo onde se junta também a não menos famosa Maria Del Carmem, a espanhola que agora estou sabendo que é hospitaleira também, e lá vamos nós caminhar pra cima e pra baixo nas ruas calçadas de pedras, na velha Rabanal del Camino, com seu cinqüenta  e poucos habitantes, muitas casas vazias como sempre, mas com uma hospitalidade humano-arquitetônica marcante para quem por lá passa.

Na verdade nosso grupo que já era bem grande, ficou de papo lá no Albergue de baixo, até a hora da missa normal, às 19:00 horas, quando todos comungam. Às 21 horas, fomos assistir à missa cantada que é uma missa toda especial, somente para ser assistida. Uma beleza à imitação dos rituais dos velhos tempos.

Para mim Rabanal del Camino, marcou a arrancada final rumo a Santiago de Compostela, sei lá! Mas me lembro bem melhor de tudo o que se passou comigo dali em diante, como se minha mente ficasse mais clara, mais aberta, mais viva e a contagem de quilômetros para a chegada, passou a fazer parte da rotina das minhas anotações, feitas em sua maioria no meu próprio Livro Guia.

-: XXXIII :-

Eram 08:00 horas, Albergue vazio, sou como sempre o último a sair;  e grito lá do pátio: - Célia lindinha! Estou indo agora! E ela vem correndo lá da cozinha e fala pra mim: - nem pensar em ir sem tomar pelo menos um café com leite e comer um ‘bocadilho com mermelada, queso y mantequilla’!

Mas Célia nem precisa!

Precisa sim vem logo pra cozinha que ajudo a preparar o teu desjejum.

E sem querer querendo lá fui eu e dou de cara com o ainda sonolento recém chegado hospitaleiro substituto dela,  o jovem brasileiro Marcelo, com seu sorriso amigo e feliz.

Os dois me ajudam a preparar o desjejum e trocamos perguntas e respostas, sempre a respeito do Caminho. Bem alimentado física e espiritualmente, me despeço dos dois acolhedores hospitaleiros, não sem antes deixar umas moedas na ‘caixinha’, e quando chego no portão de saída, já lá esta um peregrino chegando para ficar e olha que ainda são 08:15 horas da matina! A Célia olha pro Marcelo e exclama: - Vamos Marcelo, me ajuda que temos que preparar tudo para mais um dia!

Parti de Rabanal del Camino, deixando um pedacinho do meu já retalhado coração, nem penso que agora não tem ponto intermediário, só daqui há 33 km é que está me esperando a maravilhosa e deslumbrantemente histórica Ponferrada.

Logo ao sair do lugarejo, começas a subir e a descer num sobe e desce sem fim, sempre com mais subidas que descidas, e passa numa cidade fantasma com 0 (zero) habitantes, chamada Foncebadón, há diversas casas até bem conservadas e duas construções uma que será futuramente um bar cujo nome já foi escolhido e deverá ser La Taberna de Gaia, e outra já acabada que nos mostra uma torre de transmissão, que nem sei se é automática, ou se gente trabalha lá dentro, pois minha preocupação maior é passar batido e rapidinho por ali. Dizem que há matilhas de cães abandonados que são os ferozes donos da aldeia desocupada, felizmente não vi nenhum cão, sorte param mim que tenho o mó medão e mais sorte ainda é que logo um pouquinho acima, pegas a estrada asfaltada e de pouquíssimo movimento, que te leva para o alto e para cima, diretamente ao lugar que vai deixar tua carga mais leve, e tua alma mais suave:- A famosa e mítica Cruz de Ferro, que encima a montanha que coleciona os duros, pesados e eternos pecados do mundo.

Hoje é o dia 16/06/2000, e paro a contemplar o acúmulo de centenas, milhares de pedras jogadas a esmo umas sobre as outras, pedrinhas e pedronas ou pedregulhos, pedaços de retratos esmaecidos, restos de coisas identificáveis ou não; calçados dos mais variados, chinelos, uma loucura o monte onde no alto está lá, majestosa, a Cruz de Ferro, encravada num monte de pedras que simbolizam os pecados de todos nós, ali deixados pelos peregrinos cristãos, para que junto do céu, - estamos neste momento a 1.504 metros de altitude - fiquem mais fácil de serem observados, e que Deus em Sua suprema piedade absolva a todos que ali lançamos nossas faltas, simbolizadas por uma pedra, mas que na verdade junto com o simples gesto há uma mentalização positiva de passagem, e como se fosse num filme, todos os erros e pecados cometidos, de repente vêm à nossa mente, num repente que nem dá pra notar direito, e jogas ali tudo de uma só vez, teus pecados e de todos os teus amigos que te pediram para levar uma pedrinha simbólica do seu pais de origem, e lançar lá também murmurando o nome de cada um.

Creio que neste ponto mágico onde até o firmamento é mais azul, há uma ligação bem forte entre o céu e a terra, e a Cruz de Ferro serve como uma antena transmissora potente, onde as  energias negativas fazem terra, e adentram ao solo rochoso e ao redor, de cima e do o alto flui sobre todos nós o perdão dos erros cometidos e a certeza de que poderemos até errar outra vez, mas já tivemos a sensação da graça da misericórdia de Deus. Nos sentimos mais leves e partimos dali com o espírito num crescendo que vai explodir no nosso destino final, tão aguardado.

Há que se acreditar sempre, que o nosso comportamento é mais importante que a nossa crença, não basta parecer cristão, tem que procurar estar sempre com o pensamento voltado para a divindade, na certeza de ser ouvido e perdoado, já que para viver a realidade de sua religião, o crente há que orar e meditar incansavelmente ad-infinitum; e momentos como este, aqui e agora é a hora de mostramos a nós mesmos do que somos capazes.

-: XXXIV :-

 

Bastante aliviado dos pecados de todos nós, agora começo uma descida sem fim, numa paisagem linda vista dali dos altos, passo ainda por mais duas povoações abandonadas, uma com um albergue bem simples onde paro para tomar um café com o famoso místico Tomás de Manjarim, dali em diante  pelo menos não vejo nenhum cão feroz e nada de seres humanos, só pássaros que cantam por todos os lados, flores que colorem as beiradas da estrada vicinal asfaltada, Carro não passa nenhum nas três ou mais horas que caminhei, até pegar um desvio e após uma longa descida íngreme, chamada de lá vai um, pois o caminhozinho estreitinho, só dá pra passar uma pessoa de cada vez, chego ao cheiro de estrume de vaca que entra solenemente forte nas minhas narinas. 

El Acebo, 16/06/2000, algumas casas ladeiam a rua principal que é calçada de pedras, creio que uns vinte moradores habitam a vila, o cheiro de natureza animal, é forte e marcante, o nosso corpo inexplicavelmente vai se acostumando rapidinho com tal odor e vejo uma placa de refrigerantes. Há um bar para um merecido refresco.

Entro no bar e encontro outros peregrinos e peregrinas,  já conhecidos, e após beber uma garrafa de água mineral, e ver no quadro de avisos uma mensagem para mim deixada pelas irmãs Inês e Selma, penso melhor e fico por ali mesmo, a Taberna é também um Albergue novo que tem um ótimo alojamento na parte de cima.

Pago 500 pesetas e vou me alojar num amplo salão com banheiros novos, tudo bem arrumado.

Após o banho, saio para dar uma olhadinha nos arredores, e vejo já quase na saída do lugarejo, num lugar privilegiado, com uma vista incrivelmente bela, um parquinho com balanços e gangorras e logo meu pensamento me lembra do nosso Brasil, da famosa pracinha com chafariz, só que aqui o parquinho é para as crianças que partiram para outros lugares maiores, e não existem nesta velha aldeia de velhos adultos. Qualquer semelhança entre gastos de políticos não seria mera coincidência, já que o europeu peninsular tem um pezinho na nossa cozinha.

O jantar até que não foi muito agradável, pois o cardápio só tinha o Cozido Maragato que é uma mistura de carnes menos nobres (joelhos, orelhas, etc. além disso é pesadíssimo e caríssimo. Sendo assim, tive que me contentar com batatas cozidas e um bife de filé bem passado; em compensação em El Acebo, comi como sobremesa uma torta de Santiago, que é feita de amêndoas e que até hoje ao falar ainda sinto o sabor; recomendo, é imperdível!

-: XXXV :-

17/06/2000, saio para uma caminhada tranqüila até Ponferrada, são só 18 km! Vou devagar,  passo por trilhas e fazendas entre gado bovino e ovino e cachorros mil, deitados sobre os gramados coalhados de flores na manhã primaveril, dormem o merecido sono, depois de mais uma noite de vigília e guarda, outrora vigiavam lobos, hoje animais de duas patas, muito mais perigosos.

Pensamentos variados enxameiam minha mente, minha peregrinação agora, é mais que um caminhar rumo à Santiago,  há assuntos que penso e repenso desde que comecei o Caminho, porém somente agora os sinto diferentemente, e os posso separar para analisar mais profundamente. Questionamentos diversos, tais como: Quem são realmente meus amigos? Morrerei mesmo antes dos 100 anos como minha mãe que chegou aos 94? Chorarei copiosamente quando na Catedral de Santiago de Compostela?  Estes me lembro agora ao escrever, muitos discuti comigo mesmo e creio que quase todos consegui resolver, inclusive o meu comportamento na Catedral que foi completamente diferente de tudo o que eu havia  imaginado ou um dia no Caminho pudera supor. Verás no final.

Caminho no meio da natureza, subindo e descendo sem parar, é um caminho estreito e em algumas partes ainda se passa e se pisa em vestígios de antigas calçadas romanas, na verdade estás caminhando à cavaleiro da nova autovia , que vislumbras quando em certos trechos olhas para baixo e a vê serpenteando as colinas irregulares, abaixo vou por uma descida longa e perigosa e entro numa rodovia, que vai me levar a Molina Seca, e seguindo com os olhos o leito do rio,  já descortino lá na frente, uma grande piscina artificial.

Atravesso uma ponte românica sobre o Rio Maruelo, que é límpido e um pouco rápido, mas a piscina artificial feita com o represamento do rio, o faz calmo e agradável de ser ver e se divertir. São 10:30 da matina e já tem gente nadando nas águas claras de um rio de sonho, em Molina Seca, que atravesso por estreitas vielas onde o sol nem penetra com sua força de aquecimento, e entro em uma outra rodovia, que me levará até meu destino final de hoje, Ponferrada.

Há percursos que tão ensimesmado estás, que passas quase sem nada ver ou admirar como deverias, mas nossa mente ajudada pela visão periférica, tudo cataloga e no momento do evento cremos que nada vimos ou observamos, mas quando nos lembramos do local e do ambiente que passamos, tudo vem claro à nossa mente e sentimentos fortes anunciam que temos conhecimento sim. Maravilha do Corpo Humano!

Agora caminho pela estrada que liga Molina Seca a Ponferrada. É uma estrada movimentada e que tem casas, indústrias e algum comércio dos dois lados. Em determinado trecho abandonamos a rodovia e adentramos por um caminho gostoso e arborizado, subimos uma pequena colina e entramos nos arrabaldes de Ponferrada, que para a Espanha, podemos chamar de cidade média para grande. O movimento é intenso de gente e carros, e a chegada até o Albergue é meio complicada, já que se tem que atravessar uma ponte sobre a via férrea, e a sinalização é precária, sorte que parei para fazer meu desjejum numa cafeteria ao pé da ponte, e a menina que me atendeu foi bastante cordial e deu-me as dicas que precisava, pois setas amarelas não existiam e quando a perguntei o porquê ela respondeu-me que o Albergue antigo era alcançado por outro caminho e que o novo ficava do outro lado e ainda não haviam organizado todas as indicações necessárias para os peregrinos.

Atravesso a ponte de pedestres que passa sobre o caminho de ferro, e me encontro no lado novo da cidade, prédios altos, ruas arborizadas e construções pra todo o lado, passo por um terreno baldio e vejo ao longe meu destino. O Albergue de Ponferrada, 17/06/2000, que é dentro do terreno da Igreja de Carmen.

O Albergue grátis, é novinho e muito confortável mesmo, são diversos quartos uns com dois beliches/quatro camas somente, o salão de recepção que é junto com a copa-cozinha, é enorme e tem uma mesa comprida que faz com que todos os peregrinos sentem-se perto um do outro, facilitando a aproximação, quando vais lanchar, tomar café ou escrever.

A Victória, hospitaleira espanhola, e a Maria, brasileira, são pessoas que tudo vêem e orientam a todos que para lá acorrem, numa eficiência aliada a paciência que só mulheres que prestam um serviço voluntário, por Amor, podem fazer.

Pego meu carimbo, escolho meu beliche, tomo um banho rapidinho, lavo minhas meias e as coloco nas grades da janela que dá para a parte dos fundos do Albergue. De posse da minha máquina fotográfica e do meu livro guia, lá vou eu para o casco velho da cidade, uma maravilha que começa ou termina, depende de por onde inicias teu tour, pelo magnífico e espetacular Castelo do Templo, antiga base daqueles que começaram por ser  chamados "Os Pobres Soldados de Jesus Cristo e do Templo de Salomão", "Cavaleiros do Templo de Salomão", "Os Cavaleiros do Templo", "Os Templários" ou simplesmente "O Templo".

Gosto mais de chamá-los Cavaleiros Templários; e leio logo à entrada uma breve e muito sucinta explicação da história dos Cavaleiros, assim como deste Castelo Fortaleza, que foi habitado pelos monges-guerreiros desde 1178 até o término da Ordem dos Templários, em 1312.

Cabe explicar ainda, que esses chamados monges-guerreiros, provinham em sua maioria da alta nobreza européia da época, uns abandonavam suas famílias, outros solteiros ou viúvos, e traziam todos os seus bens que passavam para “O Templo”, já que faziam voto de pobreza e castidade.

Este Castelo do Templo que conheci, é lindo e maravilhoso, situado numa das partes mais altas da cidade, tem um comandamento total das planícies em volta. O local foi escolhido à dedo, com certeza, e creio que dificilmente poderia ser destruído num ataque frontal, já que pelos outros três lados, é cercado pelo Rio Boeza. Uma parte do castelo está em obras de restauração e vedado ao público, mas mesmo assim dá para se ter uma bela idéia do conjunto arquitetônico e da maravilhosa obra da engenharia medieval.

Visitando o Castelo, conheci uma figura humana incrível chamada Denis Pizzato, um gaúcho templário, gente fina e sangue bom, que fez uma comparação entre os famosos monges-guerreiros e os gaúchos cavaleiros dos pampas do sul do nosso Brasil. Só que os gaúchos que conheço e/ou conheci, não são de abandonar mulher ou sequer fazer voto de castidade.

Nem posso esquecer também no casco velho o Arco do Relógio e a Praça da Prefeitura que é um largo gigantesco cercado de belas e antigas construções, deslumbramento maior é quando sais de uma ruela apertada e dás de cara com aquela imensidão vazia, calçada de paralelepípedos e pedras irregulares.

Volto para o Albergue pleno de tanta beleza e descubro que uma das minhas meias não está lá na grade. Olho para fora, e também não a vejo, dou uma longa volta pela rua para chegar aos fundos do terreno do Albergue e a entrada tem um portal onde está escrito que ali era um cemitério, hoje desativado.

Titubeio... As pernas meio que tremem... Sou homem... Sou peregrino... Ando com Deus... E quem anda com Deus no coração não tem medo de assombração!

Entro no antigo cemitério cercado por muros altos, grossos e largos e vou até lá no fundo onde vejo a minha janela. Procuro nas proximidades dela a minha meia perdida, encontro outros pertences, de outras pessoas que não ousaram como eu, escovas de dentes, de cabelos, meias diversas que não a minha, etc.

Meus pelos da nuca se arrepiam, como pode ser isso? Cadê a minha meia perdida? Volto rapidinho pro Albergue atravessando um mato crescido e caminhando pela trilha por mim antes deixada.

Quando entro no meu alojamento, vou dar uma procurada mais minuciosa e lá está! Minha querida meia que muito me fez pensar e sentir coisas inexistentes.

À meia-noite, noite de lua-cheia, acordo para ir no banheiro fazer xixi, e na volta paro um pouco em pé à janela do meu quarto para admirar a beleza prateada que Deus fez, a luz da Lua ilumina a árvore gigante que existe no terreno ao fundo do Albergue e faz sombras que parecem se movimentar nos muros centenários. Nem tô com medo di nada!

Mas não consigo dormir e uma necessidade de rezar toma conta de mim. Aquela paisagem prateada de cartão postal, com a lua se destacando no céu em toda a sua plenitude, talvez tenha sido a razão.

Peço ao Pai que zele com carinho pela alma de todos aqueles cujo pó está adubando a terra onde árvores e capins abundam, e rezo com fervor um Pai Nosso e uma Ave-Maria e vou deitar para adormecer tranqüilo à espera do novo amanhã que já está por chegar.

Lembro-me bem que parei inúmeras vezes de manhãzinha, às entradas dos cemitérios que existem ao longo do Caminho, normalmente nas saídas das cidades ou aldeias, e pedi à Deus um refrigério agradável para a alma daqueles cujo pó ali permanece e pedi também para aqueles cujo pó pisamos no nosso caminhar de peregrino. Estou sempre feliz ao fazer essas orações matinais em alta voz, é claro!

- Coisas do Caminho!

-: XXXVI :-

A saída de Ponferrada é muito linda, olhas para trás e vês imponente e majestoso o Castelo do Templo, e à frente a estrada é plena de flores e quando entras no que era o antigo Caminho mesmo, que hoje são ruas residenciais, passas a peregrinar sob árvores frondosas e flores, as vês por toda a parte, um verdadeiro jardim, não resta dúvida que estou  em plena Primavera européia.

Meu destino é Cacabelos, e hoje é o dia 18/06/2000, e descubro que é um Domingo. De fato sem o compromisso do trabalho e outras cotidianas coisas, perdes a idéia de dia útil ou não útil. É como se teu próprio subconsciente te poupasse de mais essa obrigação e te desse mais liberdade para viveres cada dia como um dia de lazer, daí a não necessidade de se saber em que dia estás.

A caminhada de Ponferrada até Cacabelos é cansativa e pesada, não por causa de altos e baixo e sim por caminhares por lugares sem atrativos e com a mesma paisagem sempre, sem falar do calor que está muito forte.

De repente começam umas plantações e após cruzares uma série de estradas vicinais adentras em Cacabelos também chamada ‘El Bierzo’ pela Rua dos Peregrinos que passa à porta de um restaurante famoso no mundo inteiro e que tem até site na Internet, Casa Prada, “Prada a Tope”, < http://www.pradaatope.es/tienda/> sigo pela rua, dobro à esquerda em frente a ermida de São Roque e lá está o Albergue grátis que está localizado no que foi uma antiga escola.

É um Albergue agradável, mas desconfortável, sei lá, meu julgamento pode estar sendo severo demais, já que deixei para trás o confortabilíssimo Albergue de Ponferrada, mas o hospitaleiro é gente boa, e nos dá as dicas do que há de melhor na cidade alem do restaurante famoso, e junto com outros peregrinos e peregrinas vamos para dica melhor de todas, a piscina nova feita pela prefeitura em represando o Rio Cua.

Foi a primeira vez que usei minha sunga de banho. O sol estava a mil, mas a água estava quase a zero, fria demais e aquele choque era gostoso e ficamos ali nadando e curtindo o momento. Era um Domingo e havia muita gente aproveitando o dia maravilhoso.

Reencontrei minhas amigas finlandesas, as quais me refiro no capítulo II, e que agora sei seus nomes, Hilkka  & Pirkko, como velhos amigos peregrinos, conversamos bastante sobre nossos encontros e desencontros e creio que ficamos por ali mais de três horas, ela elogiavam o lindo Sol, coisa difícil para não dizer impossível lá em Helsinque.

Quase 16:00 horas e a fome aperta e lá vou eu me deliciar com o almoço de Domingo lá no Prada a Tope. A hora foi muito boa, os turistas já escasseando, o salão do restaurante enorme estava quase cheio ainda, mas já havia mesas vagas. Mas antes de entrar, fui ali no depósito e tenda que vende coisas diversas para turistas, e onde podes provar das famosas “empanadas” = fritada ou empadão com recheio, e vinhos finos especiais de diversas qualidades, sem pagar nada.

A jovem espanhola que atende é uma graça, faz agrados mis para que degustes também o queijo artesanal que ela oferece. Aproveito e provo tudo, é claro que um pouquinho de cada acepipe e um pouquinho de cada vinho, vale a pena, é tudo da melhor qualidade. Antes de sair deste local tão agradável a moça chama a minha atenção para o complexo de salas que ficam em volta do restaurante, são ambientes onde se pode ter uma idéia de como a Casa Prada começou, veio num crescendo e hoje tem filiais em diversas cidades da Espanha e do mundo. Há de tudo, desde fotos até utensílios centenários desgastados e que agora são peça de museu. Tudo é interessante e tem a real intenção de agradar ao turista.

Apesar dos tira-gostos e dos vinhos de prova serem excelentes, e gratuitos, meu estomago de peregrino queria mesmo é comida à farta. Adentrei então no restaurante e escolhendo uma mesa bem pertinho da cozinha limpinha,  pedi uma salada mista como entrada e em seguida um congrio frito ou a “la plancha’, que veio e sabia uma delícia, já que desmanchava na boca, a cada naco que colocava por sobre minha ávida língua.

Refeito da fome que me assolava, parti para sobremesa delícia suprema da Casa Prada, as famosíssimas Castanhas de Prada, caseira especial. Manjar dos deuses, delícia para os afortunados, o máximo em sobremesa artesanal. Prêmio para os curiosos pelas boas coisas que a vida pode nos dar. Maravilha das maravilhas.

Paguei por tudo com gorjeta incluída, apenas 2.275 pesetas, preço aquém do bom gosto, atendimento, finura e gostosura do “Prada a Tope”; http://www.pradaatope.es/

Recomendo!

-: XXXVII :-

19/06/2000, saio bem cedinho, manhãzinha mesmo em direção a Vega de Valcarce, pego logo um pedaço meio perigoso de auto-estrada, mas num desvio estratégico abandonas o movimento e caminhas entre parreirais em flor, de repente Villafranca Del Bierzo aparece ao longe e à beira da estradinha, do lado direito, lá está o albergue novinho; passo batido são apenas 09:45 horas da matina e o sol ainda está fresquinho.

Mesmo o sol fresco e rico em raios ultra-violetas não evitou meu erro na tomada do Caminho certo, bem lá na saidinha da cidade de Villafranca, há um desvio numa subida que infelizmente não vi e tive que caminhar pela auto-estrada com pistas de alta-velocidade, perigosíssima e movimentadíssima, ainda mais que estavam fazendo uma outra pista em alguns lugares até paralela, bem mais larga que vai substituir a que eu caminhava amedrontado.

Menos mal. Com o calor que estava fazendo, bebi bastante água mineral e Coca-Cola nos inúmeros postos de gasolina que existem ao longo dos 20 km da  estrada que percorri, mas me lembro com saudades o descanso embaixo das sombras de árvores centenárias que muito viram e que guardam as marcas do passado, pois quando deitas à sombra e olhas para cima, examinas o tronco forte e as ramificações das copas e sentes a força da natureza presente em cada casca do caule, em cada galho, em cada ramo, em cada folha que às vezes se desprende e em volutas cai perto de ti, cobrindo o chão e uma sensação atávica desperta a nossa mente para o final. Um dia estaremos como esta folha, cairemos e também jamais levantaremos, pó viraremos para alimentar outros seres da cadeia da vida.

O novo Albergue grátis de Vega de Valcarce, é muito bom e confortável, fica um pouco afastado do núcleo da cidadezinha, que tem de tudo, desde bares com música, até restaurantes com comida a preço fixo. Explico: Pedes um prato e há a repetição do mesmo, e comes a quantidade que quiseres, até que passe a tua fome. Ali, comi muita carne tipo churrasco, acompanhada com muito pão, arroz e salada. Falar em pão, nunca é demais lembrar que por o trigo ser cultivado ali mesmo, as diversas qualidades de pão e guloseimas que há nas padarias, são sempre gostosas, agradáveis ao paladar e feitas com uma beleza artesanal não vista aqui no nosso Brasil.

À semelhança de Cacabelos, Vega tem também uma bela piscina natural, com água límpida e acolhedora.

Encontrei Francisco, um espanhol, meu amigo de peregrinação por um longo trecho quando nos encontrávamos nos Albergues. Inclusive ele me ajudou quando das dores que senti na altura da canela, ensinou-me a fazer massagens com terra preta, além de banhar os pés quando passasse por riachos límpidos e na chegada aos refúgios banhasse com água bem fria e sal.

Francisco! Estás ainda por aqui? Que houve? E ele me respondeu que teve problemas estomacais e dores no corpo tão fortes que teve que ficar no Albergue de Vega de Valcarce por uns cinco dias. Nada quero opinar. Mas talvez por já estar sentindo dores na canela, havia dito ao Francisco que não andasse tão depressa com ele vinha fazendo, pois sempre eu o estava alcançando, então pra que acordar tão cedo, às 5 horas da manhã, fazendo barulho pelos Albergues onde dormia, se vez em quanto, eu que acordava tarde e era o último a sair, quase sempre depois das 8 da manhã, o encontrava após dois ou três desencontros, porque eu obedecia meu corpo, parava onde ele queria. Não seguia o livro guia nem minha intenção de adiantar-me mais e mais à cada dia!

O comentário é geral dentro e fora do Albergue: - A subida é pesada, tem gente que não agüenta ir pelo caminho do peregrino a pé e sobe pela estrada asfaltada por onde transitam as bicicletas e carros. Porém há aqui na cidade um motorista de táxi, que leva as mochilas até Pedrafita do Cebreiro, por 400 pesetas cada, e só aceita a incumbência se houver mais de 6 peregrinos a fim da moleza. Muita gente ou melhor, a maioria fazia ouvidos moucos à tal proposta e nem discutia os prós e contras, notei que principalmente os peregrinos que vinham de mais longe, talvez calejados que estavam e conheciam seu potencial, os que titubeavam e perguntavam mais, eram aqueles que à pouco haviam iniciado, teriam andado assim uns 100 km mais ou menos.

Nem posso me esquecer que hoje faz um mês que comecei a peregrinação lá na longínqua cidade de Saint Jean Pied de Port, nem vou me ufanar, mas sinto-me um vencedor, e minha festa é meu caminhar. Minha comemoração é orar à Deus, louvando-O e agradecendo Sua bondade para com este humilde e cansado, mas feliz, muito feliz peregrino

-: XXXVIII :-

No dia seguinte, 20/06/2000, saio tarde como sempre, são somente 12 duros quilômetros sempre subindo, e deixo um montão de peregrinos no Albergue. A razão da maioria era dar mais um dia de descanso para o corpo, antes de encarar a subida do monte carinhosamente chamado de  O Cebreiro, que dizem pode ser uma representação alegórica da montanha do purgatório que não pode ser escalada pela selva escura. No nosso caso, na brilhante Primavera européia, não há escuridão que infunda medo ou temor.

Neste trecho do Caminho de Santiago de Compostela, após haver andado uns 650 km, a Fé em ti mesmo e nas forças do bem que estão contigo dentro do teu coração, não te deixam com receio de nenhuma espécie, e partes sempre em frente obedecendo teu corpo que sabe bem tua capacidade de superação após tanto caminhar. Fui tranqüilo e feliz cantando minhas canções religiosas preferidas e quando me dou conta estou aos pés da grande subida, cheia de pedras soltas que rolam, muito cocô de cavalos e até de vaca, creio, já que mesmo sendo citadino, estou começando a entender até de bosta, mas o que mitiga o cansaço é uma sombra enorme que se estende por abaixo  do arborizado e íngreme percurso, o que propicia aos teus ouvidos belos trinados e cantos de diversos passarinhos e outros sons que não sei definir, porém é uma caminhada sinuosa sempre para cima, mas que te dá níveis de descanso, quer para respirar oxigenando teu corpo e mente, quer para ouvires melhor o gorjeio dos pássaros, uma boa desculpa, para descansares da dureza da subida.

Passas por três aldeias pequenas, uma é Herrerias que têm gado leiteiro como principal produto, bebes água fresca da fonte de La Faba, com bicas abertas, que jorram sem parar, e segues em frente na Fé de chegar inteiro no alto dominante e para alguns, inacessível a pé e com mochila nas costas.

Passo ao lado de um muro contínuo e alto, saio numa rodovia asfaltada e vejo a seta amarela apontando para uma entrada um pouquinho abaixo. Minha tensão aumenta, a adrenalina somada à endorfina toma conta de todo o meu ser, e entro em um lugar mágico, uma aldeia no cimo de um monte, com palhoças celtas ainda em bom estado e construções centenárias por toda a volta. É O Cebreiro!

A primeira impressão que tenho, é a de entrar na praça forte de uma aldeia medieval; as construções são todas de pedra e cobertas com pedras também, as cabanas celtas se destacam do conjunto, são de pedra mas, o teto cônico é de palha trançada, caminho embevecido pelas ruas calçadas de pedras irregulares e a aldeia pré-histórica vai me absorvendo aos poucos. Aquela imaginação fértil que tenho povoa minha mente de batalhas passadas, de guerreiros lutando num corpo a corpo contra camponeses mal armados e sem beligerância, já que quem trabalha a terra, a princípio é um ser pacífico.

Assim, nos lugares onde inexiste calçamento, piso com emoção na terra crua, que com certeza tem ali misturado o pó de nossos ancestrais. A mágica está em abrires tua mente e teu coração para sonhar e imaginar o que acontecia ali no passado.

Subo até um mirante que tem uma dominação sobre todos as outras elevações em torno, e a vista é deslumbrante e especial, o sol  como que furando e atravessando as nuvens grossas, destaca com seus raios focais, partes do vale muitíssimo ondulado e cultivado, em volta do monte mágico; seriam como holofotes guiando teu olhar somente para os pontos mais importantes de se ver, se admirar, se embevecer; de pensar em Deus com todas as forças do teu ser, para agradecer teres chegado ali são e salvo, com saúde e força.  Vivo e com olhos de ver, para contemplar Sua obra perfeita, que o homem teima em aniquilar.

Tiro a mochila, armo a máquina fotográfica e pela primeira vez sem pena, tiro fotos de tudo, concorrendo sobremaneira com os belos postais que depois vim a ver, são vendidos nas tendas, existem muitas, que alojam-se nas casas de pedra do passado que continua vivo ali mesmo, como se uma magia pairasse como auréola por cima do cume da montanha onde não há contraste, tudo lá é velho, antigo realmente.

É dia de semana e não haverá missa na linda Igreja de Santa Maria A Real, mas fui lá rezar e agradecer a Deus a minha presença aqui, e vejo relíquias místicas e famosas, quando aproveito para pegar meu carimbo com a Marta, que é a responsável pela administração da casa de Deus ali n’O Cebreiro.

Começo a conversar com a jovem e sinto que há alguma coisa diferente no seu falar, e pergunto: - Marta! Por que falas palavras que soam como Português, minha língua? E ela me responde que além de ser galega, é Filóloga e que está fazendo especialização ou mestrado em Língua Portuguesa. O assunto muda para a criação das novas palavras da informática e iniciamos discutindo sobre o porquê de Ordenadora em vez de Computadora, termo usado na América Latina, ou Computador usado no nosso Brasil, e o assunto discorre sereno e tranqüilo e vai se alongando quando digo que se para tudo sobre informática eles adaptaram ou criaram termos nacionais na língua Espanhola, como eles usam o verbo aportuguesado Deletar. E ela:- Ah! Esse ainda está no original; é Deletar mesmo.

Sorrisos e alegrias naquele papo gostoso, mas já é mais que hora de ir para o Albergue, que só abre às 14 horas. E lá vou eu de bem com a vida em busca do meu local de descanso, que ouso exclamar com pouca humildade e devido ao local onde estou:

¾  Ah! Repouso merecido do guerreiro!

-: XXXIX :-

O hospitaleiro já chegou, o Albergue grátis está começando a encher, pego meu carimbo, e sou dirigido para um alojamento com quatro beliches e oito camas. Qual não é minha surpresa em encontrar já arrumando suas coisas, as minha amigas escandinavas a Hilkka e a Pirkko, neste singelo encontro, as finlandesas de Helsinque, vêm  mostrar a todos nós com é a rotina do Caminho, os encontros e desencontros peregrinos.

Juntos de novo, me autodenomino guia turístico, peço a ambas que peguem suas máquinas fotográficas, e saio a mostrar o que de belo encontrei no lugar, primeiro subo no ponto culminante, mostro as choças de palha com o teto que sobressai do conjunto em volta, depois descemos para o meio da aldeia e visitamos cada lugar público, um por um.

Vamos à Igreja, onde faço questão de apresentar a Marta, filóloga, que não fala Inglês, e eu  servindo de interprete me sinto muito bem, é bom sentir-se útil e querido, no meio de tanta gente estrangeira,  ainda mais quando se está tão longe de casa.

Voltamos para o Albergue, já está tarde, é hora do banho, da lavação de roupa e da preparação para o jantar.

Vamos ao melhor restaurante do lugar, numa construção de pedra que junta hotel e restaurante, é parecido com um castelo, logo à entrada da aldeia e ao lado da Igreja, pedimos o Menu do Peregrino e para sobremesa, pedimos a especialidade local, Queixo (queijo fresco) do Cebreiro com Marmelada. Divina loucura palatal, o queijo fresco desmancha na boca e a marmelada é realmente o puro fruto do marmeleiro, e com pouco açúcar, o que dá um sabor todo especial ao queijo tão saboroso.

Nada mais a fazer, já escurece e a nevoa peculiar e o frio da montanha começa a mostrar seus efeitos, assim como o lauto jantar que nos completou o magnífico dia, e lá vamos nós para o merecido descanso, tendo em mente que de agora em diante será só descida e facilidades. E como diz o ditado que pra baixo todo o santo ajuda, seria uma confirmação do obvio.

Ledo engano porém! Quanto entramos no nosso quarto, já encontramos dois peregrinos adormecidos, e uma bagunça no “nosso” lugar de repouso, as nórdicas só ciciam alguma coisa que não entendo e eu sozinho, blasfemo reclamando para mim mesmo, que não existe felicidade plena e sim momentos felizes, e ainda não sei de nada.

Lá pelas 3 da matina, todos acordam em alvoroço, um dos estranhos peregrinos dá dois socos que soam como tambor, no seu companheiro. De fato era impossível dormir com o ronco entremeado de falas, murmúrios e ais, que faziam eco no pequeno espaço em que duas mulheres e três homens dormiam.

Me levanto, vou ao banheiro e na volta semi-abro a janela para entrar um arzinho e ver se melhora o ambiente. Graças à Deus, no meu retorno, tudo já está calmo e nem ouso ligar minha fiel lanterna, deito para mergulhar num sono povoado de batalhas medievais, quando soa um barulhão que nos acorda a todos.

O peregrino que dormia no beliche acima do meu, e que havia dado um murro no seu companheiro, está lá! Jaz deitado bem ao meu lado, no chão frio do pequeno vão entre os dois leitos do pequeno alojamento. Ele se levanta meio que tonto e ninguém dorme mais. Os dois são os peregrinos chamados de rapidinhos ou adiantados, tudo escuro e eles de lanterna na mão, ciciando, sussurrando, fazendo barulhos diversos, tentam juntar toda a bagunça de roupas e trastes que espalhados deixaram por todo o espaço que encontraram vazio no momento de sua chegada, como se àquela hora não vissem bem claramente que já haviam três camas com a marca da posse, ou seja: - O saco de dormir aberto e a mochila mexida sobre o leito escolhido.

As duas meninas aproveitam, e vão na onda, se levantam e também se preparam para a próxima etapa,  com mais vagar, é claro.

Eu fico lá, acostumado que estou a deixar o barulho passar para dar ainda uma dormidinha reparadora.

 Para nada tenho pressa, não tenho pressa pra nada!

- Coisas do Caminho!

-: XL :-

São 08:15 horas do dia 21/06/2000, acordo e olho pela janela entreaberta, vejo a neblina ainda bem forte e espessa; levanto sonolento e vou para o banheiro agora vazio; faço minha higiene matinal e aproveito pra eliminar os supérfluos, interessante é que o organismo se automatizou, sendo no vaso e as coisas naturalmente acontecem, mesmo se eu não acorde com vontade, aliviado volto para o meu quarto onde como sempre faço, tomo um ou dois copos de água mineral. Arrumo minhas coisas e sem pressa saio do Albergue agora oco e sem ninguém, batendo a porta com força para que se tranque, já que acostumado estou com o regulamento não escrito de que o último a sair fecha a porta.

Do lado de fora, a minha vontade é ter o trabalho de retirar a mochila tão penosamente colocada confortavelmente às minhas costas, ¾ são duas as minhas perguntas que considero irrespondíveis, mas que farei com certeza a alguns peregrinos e peregrinas, quando chegar em Santiago de Compostela: - Tens alguma idéia de quantas vezes tiraste a mochila de tuas costas, e quantas vezes tiraste e calçaste tuas botas? ¾ e retirar a capa para não me molhar com a neblina espessa que teima em cair, mas a preguiça e a confiança que tudo mudará quando na baixada chegar, me inibe, e preguiçosamente vou descendo o meu Caminho à procura do brilho do sol.

O vejo por momentos, mas nunca o consigo alcançar nem sequer um dos seus inúmeros raios de luz que qual holofotes conseguem atravessar a cerrada névoa. Por momentos me lembro da travessia dos Pirineus, lá também a cerração tem horas que baixa forte e como uma fina chuva, impregna nosso exterior com gotículas mínimas de água gelada, que na constância do caminhar vão se juntando e penetrando aos poucos pelos poros de nossas roupas tropicais feitas para o frio, mas para o frio do nosso Brasil.

Distante dos Pirineus, penso em nosso Deus. A roupa que Ele nos vestiu é de melhor qualidade, esfregas as mãos uma na outra e aquecidas passas nos rosto, afilas o nariz e massageias os pavilhões auriculares e tudo fica quentinho por longos segundos, o que dá uma sensação de calor.

Meu devaneio é interrompido com o barulho da minha respiração, e vejo logo a razão! Estou descendo em grande velocidade a montanha. Meu corpo por conta própria e querendo minorar o frio que estou sentindo,  acelerou minhas passadas e de fato sinto um calor gostoso  envolver todo o meu ser. Vou tirar o agasalho!

Ia tirar minha proteção, quando uma seta amarela aparece e me indica um atalho que vai me poupar quilômetros de caminhar pela rodovia, preciso me manter agasalhado, porque por entre as árvores e a mata fechada que só permite uma pequena trilha, o frio matinal faz-se ainda presente. Como sei disso! Ah! Já sou um peregrino calejado, já caminhei mais de 600 km, hehehe:¬o))

É um sobe e desce constante, porém ao contrário das outras vezes, aqui a gente sente que mais desce do que sobe, e lá vou eu pisando em flores e capins orvalhados com minha bota impermeável para os pés, mas sensível à natureza onde pisa. Tudo é beleza no amanhecer nevoento da descida d’O Cebreiro.

-: XLI :-

Consulto meu livro de bordo estou perto do Alto do Poio, onde comentam de um desjejum substancioso, servido por uma espanhola linda e maravilhosa. Tudo verdade confirmo e assino embaixo. São 10 horas da manhã. Do lado de fora do estabelecimento, as cadeiras e mesas de plástico branco, estão cobertas de mochilas de todos os tipos e marcas.

Deixo a minha carga em cima de uma cadeira, e um ventinho frio tremula meu Pavilhão Nacional que está  na ponta da vareta espetada na minha mochila. Entro na tienda e dou de cara com uma moça morena, olhos grandes e cabelos negros compridos. É a Carmem, creio. Estou frente à frente com a pintura da personagem principal de uma ópera famosa, de fato a moça é bonita, alegre e feliz; nem sei se porque a tienda está cheia de peregrinos, e ela faturando bem naqueles ermos. Creio que não; ela gosta mesmo do que faz. Vou ficando e comendo, é café com leche y pan com mantequilla, comendo e ficando é leche com chocolate y pastel = bolo, o pessoal vai se despedindo e saindo e aproveito para ajudá-la a arrumar a bagunça deixada, pois que ela não tem ajudantes; nada.

Ela faz tudo àquela hora da manhã na cafeteria; e conversando me diz que daqui há pouco seu pai chega e assume uma parte do trabalho, que é pesado e cansativo, pois a estrada asfaltada que passa em frente, é movimentada.

Saio aquecido por dentro e renovado por fora, ela disse para mim na despedida que nós brasileiros somos muito simpáticos e agradáveis e que só os brasileiros ajudam, inclusive há caso de até lavarem a louça para que ela possa atender melhor, os peregrinos famintos e mal educados, que infelizmente fazem parte do Caminho.

De volta ao Caminho, regula a passada com a minha, um peregrino especial, o Stewart, um escocês fino trato e com um Inglês inteligível para quem não o tem como primeira língua. Sua conversa flui precisa e fácil de entender. É sua quarta peregrinação à Santiago de Compostela e já conversou com muitos brasileiros e gosta muito da alegria que nós possuímos. Durante a conversa me pego andando mais depressa do que meu corpo está acostumado e digo pra ele que não posso acompanhá-lo naquela passada tão rápida, tão jovem e ele: - Jovem! Tenho meus 71 bem vividos e é por isso que gosto muito dos brasileiros, sabem agradar a gente.

E vamos nós subindo e descendo, ele gostou de mim mesmo, e agora estou mais aberto à uma conversa, faltam só 141 km para chegar à Santiago de Compostela e sinto como meu proceder mudou em tão pouco tempo.

Normalmente pouco conversava nos Albergues, tive até aborrecimentos com alguns franceses e francesas que para mim eram insuportáveis, mas depois fui me acostumando ao estilo latinoeuropeu de ser. Mas pouco me abria para papos, ficava mais na minha, tratando das minhas coisas e dos meus roteiros a fazer em cada povoado que passava. Raramente fazia perguntas.

Agora, estou ali, conversando animado com o Stewart, feliz e prolixo dentro das limitações do meu Inglês de pouco uso, mas certeiro no que falar; também! Foram três duros anos no “Brasas” do Méier e o melhor da minha segunda língua tá todinho na minha memória, e ao conversar tudo vem a tona como numa mágica mental e estás ali a conversar sem até atinar o como e o porquê ou de onde vêm tantas palavras bonitas.

Meu novo amigo me fala do Caminho de antigamente, poucas pessoas e sempre na Primavera/Verão; agora o movimento é o ano todo e o nível dos peregrinos também mudou, antes era gente mais pobre e menos escolarizada. Ele sente que o nível hoje é outro, principalmente por falar com mais pessoas na sua primeira língua, e nem precisar usar o seu sofrível Espanhol com peregrinos de países que não têm o Inglês como língua mater.

Passou-me dicas importantes, para quando da minha estada em Santiago, tais como: A melhor maneira de fazer o percurso até Finisterra. Como encontrar os melhores hotéis com bons preços. A melhor hora para chegar e a melhor maneira de conhecer a cidade de Santiago de Compostela. O restaurante Manolo e o Café Suzo. Coisas interessantes de saber, pois já chegas na cidade sabendo o que fazer e principalmente como.

Descida boa essa! Sempre baixando, atravessando uma serpenteante rodovia asfaltada bem umas três ou quatro vezes, a rota do Caminho é à antiga, e o peregrino vai direto ao ponto, não precisa fazer voltas já que seu corpo foi feito para viver junto com a natureza, aproveitando seus caminhos naturais melhores e mais fáceis. Diferentemente dos carros que precisam de toda uma infra-estrutura moderna.

Assim, seguimos o antigo Caminho que desliza quase reto para baixo e nos dá uma vista maravilhosa do nosso objetivo de hoje, a saber: Triacastela, onde chegamos às 14:30 horas.

É uma chegada triunfal, sinto que até agora mudaram em mim, muitas convicções anteriores, Deus mais uma vez por mim é louvado, ele realmente sabe o que faz. Era hora mesmo de abrir meu coração e conversar mais, me abrir mais e minhas dúvidas e procurar soluções. E nada melhor do que se confessar com pessoas que desconhecidas eram , são e serão e que possivelmente nunca mais nos verão. Por que não aproveitar esses ou essas ouvintes curiosas e falar, falar, falar?

São as maravilhas do Caminho, à cada momento te descobres e uma faceta a mais aflora, tudo por força da Fé que tens em manter teu coração aberto para Deus, que sempre da uma ajudazinha ao fiel para o alívio de sua carga e um descanso para Ele.

- Coisas do Caminho!

-: XLII :-

Hoje é dia 21/06/2000. O Albergue grátis de Triacastela é especial. Novinho e com quartos de dois beliches e quatro leitos, um conforto muito bom. Chegamos eu e o Stewart, nosso corpo foi fazendo a rotina de sempre enquanto conversávamos de tudo um pouco, já que ele conhece o meu Rio de Janeiro. Em sendo católico também, fomos logo após tudo arrumado e roupas lavadas, procurar a Igreja católica para sabermos a hora da missa e fomos procurar um lugar bom para jantar.

Fizemos hora conhecendo a cidade, comprando cartões postais e como sempre fiz em todo o percurso, fui reconhecer a saída do povoado para amanhã não ter dúvida para onde seguir. Explico a razão da cautela. É que sendo um dos últimos ou o último a sair dos Albergues, normalmente não encontrava peregrinos no refúgio e nem pessoas acordadas nas aldeias ou cidades, e assim ficava meio confuso à saída, pois de manhã acordo ainda meio desorientado, cada dia acordas em um lugar diferente e isso confunde um pouco, e a mim muito, pois nem confiava no meu livro guia.

Acabei então com o problema quando decidi à chegada, ter logo uma idéia da saída no dia seguinte!

Cidadezinha interessante, plantada num vale verdejante, é bem movimentada e o padre da Igreja é gente fina, fala português também e a gente conversou um bocado, como no terreno da Igreja está o cemitério da aldeia, pude perguntar pra ele, o porquê do cadeado no portão e ele me respondeu:

- É para proteger os mortos dos vivos, principalmente dos que querem levar lembranças dos caídos; e morto é para ser lembrado pela mente e pelo coração e não pela obtenção de objetos subtraídos sorrateiramente daqueles que não podem se proteger, esses desalmados ainda vivos, se esquecem totalmente que um dia “O morto poderá ser um deles!”

No aconchegante restaurante a comida simplesmente fantástica, vinha sem parar, o churrasco de carnes variadas é como aqui no nosso Brasil. Pedes o prato e anuncias o que vais comer, e a refeição vem em quantidade e as garçonetes lindas, maravilhosas e solícitas vão trazendo e recompletando o que vai faltando, numa comilança sem final.

Repenso agora se a beleza das meninas é real ou mera conseqüência do atendimento de primeira classe, já que um homem saciado só vê beleza à sua frente. Estávamos numa mesa, quatro homens e 4 nações, eu, um escocês, um alemão e um francês que fumava e que a meu pedido deu uma paradinha e na hora que apertou mesmo a vontade, foi fumar lá fora.

Não é implicância com os franceses não, mas eles pensam que podem tudo e em qualquer lugar. Nem respeitam outros povos e vai ver nem entre eles mesmos, maus hábitos como esse do vício do tabaco é normal entre eles e se com eles ficas terás teu câncer passivo com certeza.

Mas o peregrino vai se adaptando e o francês, foi educado o suficiente para atender meus rogos, os outros dois europeus insulares, que estavam à mesa nem deram bola, e pediram uma farta sobremesa e café.

Pagamos 1.200 pesetas cada um, e voltamos livres do pecado da gula e felizes com a farta refeição. Comemos o bastante para encarar amanhã mais uma pequena etapa da nossa razão de aqui estar e como na vida, o Caminho vai nos ensinando a viver à cada um de per si, chegas no Albergue, fazes tua higiene e da tua roupa, vais à Igreja e confessas teus pecados ou omissões, quando juntas as do dia e relembradas algumas passadas e de tão longínquas, quase esquecidas mas que agora tens tempo de lembrar; em seguida com o espírito puro, alimentas tua alma com o pão da vida e livre, leve e solto, vais alimentar teu corpo cansado mas firme e feliz em poder estar aqui e te levar pelas veredas certas, iluminadas por Deus e por seu querido apóstolo Santiago, que de fato tu comprovas que faz maravilhas acontecerem quando estás com o coração completamente aberto no Caminho, que não é só o de Santiago de Compostela, mas também o Caminho da Vida, das descobertas interiores e do despojamento total, pois já tendo caminhado mais de 650 km, sobrevieste com o mínimo e nem sentes falta dos supérfluos diuturnos que usas quando estás na tua casa, na tua cidade, vivendo a tua vida normal.

 És um sobrevivente, um vencedor, o maioral. Podes tudo e te superaste a ti mesmo e a pureza de que és possuído, nada tem a ver com o pecado da soberba, nesta hora é a tua pura realidade. Regozijai, crê em Deus, e em todos os santos que somos todos nós, que temos fé e esperança na humanidade, no porvir de pureza de sentimentos e alegria de viver; purificados estamos, de corpo, alma e coração; prontos a encarar o novo ano/século/milênio que está à porta.

-: XLIII:-

Epa! São 09:30 da matina do dia 22/06/2000 e estou saindo de Triacastela, com as pesetas que troquei no banco. Dormi que nem um anjo e quando acordei o quarto estava vazio, fui o último e bati a porta mais uma vez.

O Caminho aqui é maravilhoso, a natureza em festa mostra suas veias e artérias, águas em regatos cercados de verde vivo, flores e borboletas multicores.

Pássaros canoros alegram o nosso caminhar matinal, e lá vou eu para Sarria.

Optei pela via San Xil que passa pelos povoados e perdi o contato com o Monastério de Samos, dizem que perdi. Tudo bem, perdemos aqui, ganhamos ali, tudo é uma questão de troca e não me arrependo do caminho de escolhi.

Parei para o desjejum num povoado pequeno de umas 10 casas no máximo, mas o pão era de primeira qualidade. O cheiro forte da bosta de vaca é que algumas vezes incomoda o peregrino, que mesmo querendo agradar a si mesmo, querendo provar que está aberto à novas emoções, pensa com razão que nem tudo que sai do homem ou animal é aceitável, e o odor entra ou melhor invade a cafeteria e as narinas dos desacostumados peregrinos modernos, que só conhecem boi, vaca e ouviram falar do cheiro de suas necessidades básicas, ao assistem programas rurais na TV.

Pago e saio sem reclamar, está tudo muito bom e muito bem. Pego logo de cara um pedaço de estrada movimentada à entrada de Sarria, atravesso quase a metade da cidade para chegar subindo ruas em aclive e escadarias sem fim, lá no casco velho que como sempre fica nas alturas, ponto mais elevado e nascimento das cidades medievais.

São 14:00 horas e o Alberguelotadão, descubro então que esta cidade junto com Barbadelo, são os últimos pontos de partida válidos para quem quer receber a que uns chamam de "Compostellana", outros de “Compostela” que é um certificado que comprova a peregrinação, ao chegares no teu destino final, a incrivelmente mágica Cidade de Santiago de Compostela.

É até melhor. Vou para um hostal, e pago 1.500 pesetas por uma cama de casal. Meu corpo agradece quando mergulho na banheira cheia de  água quente. Meus pés esperneiam de alegria e o balançar alegre das cabeças do meus dedinhos cansados, não é comandado por mim, mas sinto que eles se mexem e exultam como se vida própria tivessem.

Hoje é dia de Corpus Christi e a missa na Igreja de Santa Marina, é especial, falo com Aquele que se sacrificou por nós e minha comunhão alimenta minha alma.

Tudo é paz no meu coração! Faltam só 100 km, numa hora dessas tu quase não acreditas. É realmente difícil de explicar o que acontece com o teu corpo e com a tua mente, a alegria é estranhamente diferente.

Feliz... mas Ansioso ou Angustiado, deve ser essa a explicação! Quando se chega aos derradeiros quase 100 km do final.

- É... Coisas do Caminho!

-: XLIV:-

Caramba! Aqui devia haver uma aldeia, um povoado, qualquer coisa como exaltação deste ponto, mas só há um marco igual aos milhares existentes no percurso, nos mostra que faltam somente 100 km para se chegar a Santiago de Compostela. Nem parei para bater uma fotinha, continuei pelo caminho vicinal que serve aos currais próximos e continuo tranqüilo e sem pressa para chegar em Ferreiros onde vou ficar.

Começo a observar que todos os grandes terrenos que cercam as casas à beira do caminho, mostram uma construção estranhamente diferente, por sua altura, e sua base normalmente fica em cima de quatro colunas de cimento e ferro, a mais de dois metros do chão, e por sua arquitetura, é como se fora uma casa de um só cômodo com uns três metros de comprimento, por um metro de largura e dois metros de altura; cobertas normalmente com  telhas francesas e com uma porta de madeira maciça com aldrava e cadeado, e encimando o frontal uma cruz cristã em alto relevo.

Na minha falta de curiosidade, via as casotinhas, gostava do formato e da beleza arquitetônica, mas nem atinava ou procurava saber do que se tratava ou para que servia, e seguia meu Caminho pensando somente no objetivo maior, que à princípio era fazer a peregrinação à Santiago de Compostela, totalmente a pé.

Falei à princípio, porque até hoje não consigo entender quantos eram os objetivos que nem sabia e que só fui me apercebendo no caminhar solitário constante, é o aprofundamento interior que sem querer vai acontecendo contigo, te pegas pensando em ti mesmo, muitas vezes, vezes sem conta, isso começa com horas, depois dias e depois te acostumas com a coisa mental, sem sentir-se egoísta ou egocêntrico, creio ser da própria natureza do homem, tornar-se introspectivo quando sozinho por muito tempo, e ainda por estar longe de tudo e de todos a quem quer bem.

Pode ser até uma explicação dos motivos de que muitos que iniciam o Caminho sozinhos, passando a ter medo de seus próprios adormecidos demônios  interiores, procuram companheiro ou companheira para fazer o restante do Caminho, na vã esperança de que sem pensar profundamente, sem perscrutar seu âmago, jamais deixarão aflorar a porção ruim da vida vivida e não confessada, dos esqueletos que teimam a ficar nos armários da mente, do corpo e do coração.

Hoje é o dia 23/06/2000; estou chegando no Albergue grátis de Ferreiros, é novinho e muito acolhedor, aliás a esta altura, havendo uma cama e um banheiro com chuveiro, qualquer lugar passa a ser ótimo para um peregrino cansado e moído que já caminhou mais de 700 km.

Exageros à parte, mas creio que analisar hospedagem num momento desses seria chover no molhado, o corpo desconhece desprazer horizontal, amolda-se à qualquer coisa que se assemelhe a uma cama ou à um colchão. Ele, o corpo, quer mesmo é descansar, e os pés levam a gente toda hora pra perto a cama, mesmo quando a gente quer sair um pouquinho, esquadrinhar a aldeia, ver gente. Os olhos só querem olhar para dentro, prenhes que estão de tantas coisas novas vistas e ainda não totalmente absorvidas, em seu significado para o crescimento espiritual. Os ouvidos desacostumados guardam sons naturais nunca antes escutados, e os estão processando. Em suma todos os órgãos do corpo estão trabalhando a mil e querem mais é um repouso para uma recuperação total.

Passo de fato por Ferreiros, sem nada guardar, talvez por sentir-me tão cheio de emoções não assimiladas, ou talvez por estar tão perto de alcançar a tão sonhada meta, sejam a razão do meu humor atual.

Bom mesmo foi conhecer a Giselle, de Buenos Aires; preciosa  peregrina argentina,  que é feita do mesmo amalgama que eu, combinamos muito bem em nossas conversas.

-:XLV:-

São 11:00 horas da matina do dia 24/06/2000, e estou chegando a Portomarín, à vista de um lago-mar enorme e que se perde de vista em extensão, é resultante da barragem de uma das Hidroelétricas do rio Miño,  bate uma saudade da Baía de Guanabara no nosso Rio de Janeiro, vendo aquelas canoas e alguns barcos de turismo navegando cheios de turistas curiosos, a gente sente um aperto por dentro, mas o crescendo recente do povoado, e a imponência da cidade lá no alto, nos faz voltar a realidade quando começamos a subir.

Ando pelas ruas que misturam casas antigas com estilos de construção, moderna tais como apartamentos com vistas para a grande água que cerca toda a elevação onde se situa a cidade. O movimento de gente nas ruas é bastante grande e depois de muitos ziguezagues, consigo chegar até a Igreja de São Pedro, onde agradeço a amizade dele comigo, após mais de um mês de peregrinação, até agora só peguei umas quatro horas de chuva que foi a única vez que justificou a capa que trago na mochila que no total pesa uns 8 kg, que já faz parte de mim, como a corcova do dromedário, e sinto meu pescoço menor, explicação para o pescoço curvo/curto do dito cujo camelídeo.

Pego a carimbada de praxe na minha Credencial del Peregrino, e mesmo de posse do meu livro guia, pergunto à Relações Públicas da Igreja, uma moça lindíssima, graciosa e preciosíssima, qual a saída da cidade que me leva ao Caminho, e ela pegando um mapa marca a caneta qual a rota a seguir, e me dá de presente aquele esboço da cidade com todas as suas ruas velhas e novas, com destaque para a ponte rodoviária, o viaduto e a passarela que me deixou até receoso de passar, mas que tive que atravessar para continuar rumo a Compostela.

Saio do burburinho da cidade e de repente vejo tantas casotinhas à beira do Caminho que a curiosidade toma conta de mim, paro na cancela de uma casa onde na horta bem cultivada em frente há duas mulheres e um menino, que estão ao alcance da minha voz, e lanço minha pergunta aos três, apontando para aquela coisa para mim tão estranha e, a camponesa que parece ser a mais velha, caminha em minha direção, chega perto da porteira e me responde num Espanhol fácil, um nome estranho para mim: -Hórreo!”  Señor!

Torno a perguntar e ela responde: - O nome é “Hórreo” ou “Hóreo” e serve para guardar milho até amadurecer e servir para semente, guardamos também outras sementes que ficam a salvo da umidade e principalmente dos roedores.

Satisfeita minha curiosidade quase infantil, pelo menos para ela; que quando vê tremulando minha Bandeira Brasileira, ainda adiciona que tem parentes no Brasil, lá pros lados do Paraná.

Agradeço feliz pela atenção e pela resposta dada e continuo o meu caminho a repetir o nome diferente. “Hórreo”... “Hórreo”... Para não esquecer.

Até te confesso que na verdade ao ver por vez primeira tais construções, pensei que seriam uma espécie de necrotério onde os moradores guardavam seus mortos à espera do carro funerário ou de uma oportunidade para levá-los à última morada. Quanto a cruz que encima o “Hórreo”; esqueci-me de perguntar o significado!

Foi bom ter perguntado, pois que a cada um “Hórreo” que via, exclamava em alta voz o nome e o decorei depois de tanta repetição e até hoje não esqueci.

-:XLVI:-

 Após uma longa caminhada pela beira de uma estrada asfaltada mas com pouco movimento de carros e muitas bicicletas, chego em Gonzar, neste dia 24/06/2000, não tem festa de São João, não tem animação nenhuma. Abaixo explico o porquê.

O Albergue grátis, ainda está vazio, é confortável e corro a lavar logo minhas meias e minha camisa, as coloco no sol e vou dar uma olhadinha na aldeia. Começo pela Igreja que está fechada, vou na casa vizinha e bato na porta a procura das chaves e o vizinho de frente que estava na janela, me chama e diz que a responsável não está em casa no momento, e me pergunta o que quero, e lhe respondo eu gostaria de ver como é a Igreja por dentro e ele diz que não possui a chave, e me convida para tomar uma água gelada em sua casa.

A fachada da casa dele por fora é como das outras casas, mas ao entrar vejo a diferença, ele está transformando o interior da casa num palácio, cobrindo as paredes e forrando o assoalho com madeiras nobres; depois ainda me diz que vai trocar todas as janelas também, e me mostra o desenho feito por ele mesmo, como pretende que a casa fique no final da restauração.

Ele me fala que está aposentado, eu tem uma renda muito boa e que foi naquele lugarejo que ele nasceu. Diz-me também que esta sua aldeia natal era bem maior, e que hoje só moram lá com certeza 25 pessoas entre homens e mulheres, todos acima de 50 anos e nenhum jovem ou criança. E exclama: - Señor! Minha aldeia está acabando!

De fato até a cantina onde vamos jantar está fechada e tem um aviso que só abre às 17:00 horas, que é quando o hospitaleiro chega e depois descobrimos que o dono do estabelecimento é também o hospitaleiro do Albergue, que é funcionário da Prefeitura.

Tudo é diferente em Gonzar, uma cidade quase fantasma.

20:00 horas e o jantar já vai sair, somos umas 20 pessoas para comer e o cardápio é um só; sopa de massas; galinha frita com batata cozida ou frita e para sobremesa sorvete. Tudo por 1.000 pesetas. Até que não foi tão mal assim e o hospitaleiro ainda avisa que amanhã à partir das 06:30 horas haverá desjejum a um custo de 400 pesetas.

Nem vou falar mais que fechei a porta do Albergue lá pelas oito e meia e bicos, até a tienda já estava fechada, o povoado dormia, o silêncio imperava e eu de novo na estrada só tinha bons pensamentos e sentia a proximidade de Santiago em cada passo que dava e com muita emoção cada vez mais feliz ficava.

Nem vou andar hoje os quase 32 km que meu livro guia aponta, para chegar até Melide