CAMINHANDO PELA PRAIA
Trekking Porto Seguro/Prado
Sei que vou com mais sete pessoas
completamente desconhecidas, caminhar à beira-mar, nas areias macias do Sul do
litoral baiano, na tentativa de redescobrir-me e ao Brasil, pois foi lá que
tudo começou.
Serão 11 dias de muita emoção,
congraçamento e Amor, mostrando como o ser humano é incrivelmente gregário e
extremamente curioso.
No dia 19/Jul/2001, 5ª feira, às
21:00 horas, cheguei na Rodoviária Novo Rio e já encontrei uma parte do grupo que
iria fazer o “Trekking” Porto Seguro/Prado, organizado pela Agência de Viagens
‘CCTur’, e que tem esta parte, sob o comando da experiente D. Lúcia, e está
funcionando às mil maravilhas como veremos a seguir.
Como havíamos combinado por
telefone, já lá estava na Rodoviária, o
Alcinei ou melhor; Nei, como ele gosta de ser chamado. O Nei seria o nosso
guia, nesta aventura, e olhando ao longe aquela figura delgada e despojada, já
senti que seria uma dura parada, segui-lo na areia fofa que nos esperava. Junto
com ele, ali na primeira fila de cadeiras, na parte de cima da Rodoviária, bem
em frente à escada rolante que sobe, junto com o Nei, um casal vindo diretamente de
Sertãozinho-SP, o Ailton e sua esposa Edna, que já estavam na Rodoviária desde
às 18 horas, pois são de chegar cedo nos compromissos e por questão de conexão,
foi a melhor hora que encontraram para chegar ao Rio sem problema de atraso no
horário de partida para Porto Seguro, já que nosso ônibus sairia às 20:30
horas. Fui até o grupo e cumprimentei todos sem muito papo inicial, pois sou
meio tímido e minha mulher Lucinha estava comigo para o meu bota-fora.
Lá de longe onde eu dava os
últimos amassos na minha gata, vi quando se achegaram junto ao grupo, mais duas jovens, sendo que
uma eu já conhecia do encontro preparatório ocorrido no dia anterior, seu nome
é Aline e é estagiária em Comunicação na CCTur, e ia nesta viagem para dar uma
cobertura jornalística e fazer uma reportagem sobre o já famoso “Trekking”. A
outra jovem que mais tarde vim a conhecer é a estonteante Astrid que embaixo de
sua jovem aparência tem uma vivência de Matusalém, depois explico.
De repente o Nei acena para mim e
sai em direção à plataforma de embarque para Porto Seguro, olho no relógio e já
são 20:20 horas, nem vi o tempo passar, de fato estava num amor gostoso e
prazeiroso com a minha gata que nada senti quanto ao tempo do prazer.
Adentramos no confortável ônibus,
nas cadeiras 3 e 4 o Nei junto com a Astrid, logo atrás deles ficamos eu e a
Aline, e nas cadeiras 9 e 10 ficaram o casal paulista Ailton e sua encantadora esposa Edna. Pouco
falamos na viagem que transcorreu sem problemas, apesar do ônibus estar lotado
e das terríveis paradas técnicas; mesmo assim,
foi uma noite de sono tranqüila e lá pelas 15:30 horas, do dia
20/07/2001, 6ª feira, chegamos finalmente
Enquanto esperávamos a chegada da
Toyota que é o nosso apoio logístico e tem como comandante o grande motorista
Rogério e seu assistente, o eficiente Jorge, ambos incrivelmente dedicados e cordiais,
sem falar da educação, pois nada reclamaram da gente, pelo menos que
escutássemos, e olha que a missão deles é hercúlea, desmontar as barracas
quando partimos de um ponto, identificar de quem é o quê, e montá-las já lá no
nosso ponto de chegada com tudo o que é de cada um em sua devida barraca, é
coisa de equipe organizada, e eles deram de fato conta do recado, bom para nós
é claro. O interessante de tudo, é que o Nei que é o responsável, pouco dava
ordens para eles, como se previamente já tivesse com eles conversado e montado
todo o esquema. Ponto mais uma vez para a capacidade logística do nossos guia
que mais do que um profissional competente se torna um amigo no transcorrer da
jornada, pois não dá opinião e nem cobra nada da gente, segue tranqüilo o
caminho moderando ou aumentando o passo sempre que o tempo urge, mas nunca
deixando que a gente de fato perceba o que ele realmente esta fazendo com as
nossas vontades e preguiças no caminhar.
Chega a Toyota vinda do Camping de
Santa Cruz Cabrália, carregamos nossas coisas nela e já começamos ali mesmo o
nosso turismo, pois subimos para a Cidade Histórica, que está otimamente
conservada, já que no ano passado, final do século XX, houve uma reforma geral
tanto no mobiliário quanto nos remanescentes, conforme o noticiário informou
que algumas cabeças indígenas foram quebradas, tal qual a fúria dos primeiros
degredados portugueses que por aqui chegaram. Nada para reclamar, nosso negócio
é gozar o momento, e seguir o que o maior poeta português proclamava: “Turistar
é preciso, viver não é preciso”, e turista não quer saber o que há, quer é
conhecer e fotografar o diferente, e principalmente comprar... comprar e
comprar.
Saciados e cansados deste primeiro
dia/tarde de aula de história dada pelos garotos e garotas que como rábulas
destilam a mesma cantilena contando o Descobrimento do nosso Brasil, desde
Cabral até os dias de hoje com o FH, sentimos ou melhor o Nei sentiu que estava
na hora de irmos para o acampamento e lá fomos nós, aboletados na Toyota, rumo
à Santa Cruz Cabrália para o merecido descanso.
Para mim foi a primeira surpresa,
ao entramos no Camping, lá estava elas, lindas maravilhosamente montadas,
nossas barracas azul & amarelas. Logo o Nei pediu que cada um escolhesse a
sua, exceto o casal paulista, cada um teria a sua própria barraca, nada de
economia de espaço ou trabalho ou idéia de promiscuidade. Já lá vem o Rogério
com fita adesiva branca para identificar a barraca de cada um e também a pedir
que cada um de nós identificasse seu material, sacolas, bolsas e mochilas com a
fita colante e o nome bem legível, tudo bem organizadinho, né?
Tudo certinho, pessoal de banho
tomado e ávido por emoções, fomos nós à procura do jantar bem em frente ao
Camping há uma rua que no seu final tem um restaurante bonito e à beira-mar
montado, para lá fomos famintos e lá iniciamos nossa viagem à famosa cozinha
baiana, mas também ao jeito baiano de ser.
As comidas vieram com alguma
demora, não muita pois, a nossa Astrid curiosa por natureza e mais ainda por
ser mulher, adentrou à cozinha baiana e junto com a cozinheira foi logo dando
seu recado de mulher especial que é, nem sabemos o que ela aprontou naquele
primeiro dia juntos, mas no transcorrer da viajem sentimos que na sua vontade
de ajudar e de tudo ver, há muito de inocência e vontade de servir e ajudar,
vê-se nela uma mulher carente de afeto real, de cuidados particulares para com
ela, sem ser egoísta, ela se mostra ciosa de seu papel no grupo e está sempre
ali, pronta pra ajudar mesmo que muitos não entendam sua maneira de ser.
Incompreendida, ela nada pede, nem compreensão e continua sua vida talvez à
espera de sua alma gêmea que não tardará a chegar com certeza.
Comida à farta, todos felizes e
bem alimentados e lá está a Astrid dando uma geral no que ficou, escolhendo os
quitutes não mexidos e fazendo aquele famoso PF, come bem a nossa cara e
interessante amiga. Por ela esperamos e depois de satisfeita tanto pela boa
comida quanto pela atenção à ela dispensada, fomos felizes para nossas barracas
colchonetadas onde por vez primeira dormimos na horizontal em solo baiano.
Amanhece o dia 21/07/2001,
Sábado, e mais uma vez o nosso nei já
tinha tudo programado e olha que foi uma conversa normal sobre o que fazer no
dia seguinte que é hoje, e para surpresa nossa, fomos para o embarcadouro de
Santa Cruz Cabrália às 09:00 horas, para embarcar numa viagem através do
estuário do rio João Tiba com destino ao ilhéu da Coroa Alta e após uns
sessenta minutos e emoção que nada nos lembrava a viagem rodoviária, chegamos
ao paraíso onde encontramos além da beleza das piscinas naturais com suas águas
tépidas que nos atraiam para o banho, aquários ao ar livre onde tivemos o
prazer de alimentar peixes com nossas próprias mãos, tudo graças ao Nildo,
competente timoneiro do nosso barco, que por ser natural da terra, sabe tudo do
lugar eu considera sagrado, pois sobrevive como pescador e desde criança por
ali caminha, antes ia com seu pai para brincar, hoje ali vai guiando turistas e
contando histórias do que já viu por ali. Inclusive foi dele a idéia de quebrar
alguns ouriços e entrar nos aquários naturais para alimentar os peixes que
ávidos e sem medo vêem à nossa mão comer, e há peixes com mais de um palmo,
para nós considerado grande, já que em aquários a gente não costuma ver peixes
tão grandes assim.
O destaque desta vez ficou por
conta da nossa jovem Aline, a jornalista, que babava e quase chorava de emoção
à cada cardume que em sua mão vinha se alimentar, e que para nós com os seus
cabelos negros e compridos e com sua tez clara, mais parecia uma nereida
encantada que a nós fascinava ante tão indescritível momento de descontração e
beleza. Acrescento à beleza a castidade, pois somente uma pessoa tão pura tem o
poder de atrair os irracionais que não vêm em tão pura criatura, mal algum, nem
físico nem espiritual. E um pensamento deve ter passado pela cabeça de todos
nós; será que pela comida todos os animais vencem o medo, são de fato capazes
de tudo para sobreviver?
Após vermos até uma tartaruga
grandinha numa piscina natural, rumamos para o nosso barco que agora estava
muito mais longe, já que a maré estava subindo rapidinho, e lá atrás ao longe
divisamos o nosso Nei que gosta de andar descalço mas ali no atol tava fora do
seu habitat e sofria com as rochas perfurantes e ásperas e andava tal qual um
albatroz como bem o qualificou o nosso . Bem que o Nildo lhe ofereceu um par de
sandálias havaianas explicando que se acostumara desde menino a por ali andar
descalço, mas o Nei recusou e encarnou mesmo seu espírito de monge, pois
apregoa aos quatro ventos que aprendeu levitação num curso relâmpago feito no
Tibet e junto com o Brad Pitt de quem é amigo.
... Coisas do Alcinei!
Demos uma parada na Ilha Paraíso
que é uma atração à parte naquela baía, e lá compramos diversos doces baianos
que são considerados afrodisíacos e têm uns nomes bem sugestivos que por
questão de censura não ouso escrever, ou talvez por não lembrar; mentir pra
que?
Com ainda eram 15:00 horas, o
Nildo deu uma idéia de entrarmos pelo rio João Tiba acima e apreçarmos os mangues
e restingas lindos quando vistos ao longe tanto sua flora fechada e com suas
raízes à mostra como sua fauna, aves e animais terrestres vêm se mostrar aos
turistas, como se a natureza mostrasse que ainda resiste à nós que os chamamos
de animais racionais.
Chegamos ao porto lá pelas 16:30
horas, pagamos quinze reais por pessoa e mais uma surpresa, o Nei também pagou,
já que era uma conta geral de R$ 90,00, e notei que ele sempre pagava
religiosamente todas as contas, inclusive em restaurantes, coisa que qualquer
turista sabe que guia não paga.
... Coisas do Alcinei!
Chegamos no camping e já ficamos
meio preocupados, pois o casal carioca Regina & Miguel ainda não tinham
chegado e a gente tava doido pra completar o grupo, o casal vinha de carro que
deixaria estacionado no camping com a obrigação de ter que voltar de ônibus
desde Prado e depois de terminada a jornada, mas como ainda não haviam chegado,
rezamos para que tudo estivesse bem com os dois e com o carro é claro.
Nosso guia programou então uma
rápida visita com jantar,
Juntei-me ao casal paulista Ailton & Edna que como eu são apaixonados
por frescos frutos do mar, e fomos para
um restaurante comer a famosa mariscada de Porto Seguro, prato considerado
caro, mas gostosíssimo, e abundante deu pra nós três comermos de tudo, só
lagosta comi duas, e pagarmos só um
preço, e olha que há refil pra tudo, isto é; quando eles vêm que acaba o arroz,
vem logo outra tigela de arroz e assim com todas as guarnições, exceto é claro
o prato principal e isso é uma constante em qualquer restaurante naquele pedaço
abençoado da Bahia de todos os deuses.
Sábado e a cidade fervilhando de
turistas e naturais numa confraternização que é famosa no mundo todo, shows ao
vivo pelas praças, bailarinos sem camisa, mostrando peitos torneados e
bailarinas sinuosas e morenamente atraentes em seus corpos protuberantemente
brasileiros nos convidam a entrar na dança que tem um quê de sensual ou até
erótico. Sei lá, mas dizem que os frutos do mar são altamente afrodisíacos,
creio nisso. Aproveitei o embalo e fiz uma tatuagem de arame farpado sobre meu
bíceps do braço esquerdo, o Nei colocou duas de aves e a jovem Aline um pequeno
golfinho à altura do tornozelo.
Chegamos ao camping lá pelas 22
horas e à noite à beira-mar é sempre fresco ou até frio, e após nossa higiene
noturna, cada um foi para sua barraca na ansiando pelo dia seguinte, começo da
jornada de nove dias pelas costas baianas que Cabral tão bem soube apreciar.
Ledo engano quem pensou em dormir,
o Nei tinha falado em mosquitos, não havia, mas foi difícil conciliar o sono
com o som de um gigantescamente mastodontico Trio Elétrico que tocava lá na
praça de Santa Cruz Cabrália, distante uns dois quilômetros da gente, mas que o
som entrava diretamente pela barraca em nosso ouvidos impedindo de ter-se um
sono realmente tranqüilo e repousante, e olha que a gente estava meio que
cansado, e lá pelas tantas ainda ouvimos uma correria e gritos, após isso tudo
e lá pelas 04:30 horas da matina, quando após várias vezes a gente escutar o
locutor anunciar ‘a última’ é que conseguimos realmente nos entregar ao
descanso merecido.
Manhã do dia 22/Jul/2001, Domingo,
surpresa pra nós, o casal tão altamente esperado havia chegado e estava pronto
para começar conosco a aventura, e no alto da experiência deles, os dois são
especialmente grandes em altura, e a bagagem é claro faz jus ao tamanho dos
dois, eram bolsas, mochilas, aparelhos pra medir distâncias, binóculos,
máquinas para filmar, máquinas para fotografar, tudo grande como eles, acima
dos seus 1,80 de altura, sendo que o Miguel deve chegar aos dois metros ou
pertinho, sei lá.
O entrosamento não foi assim tão
rápido como se o nosso grupo avalizasse os recém chegados como ETs que poderiam
desequilibrar o grupo já adrede formado, mas despojadíssimos a Regina e o
Miguel souberam se aprochegar e num átimo já éramos velhos amigos e antes da
aventura começar trocávamos amabilidades como irmãos.
Café da manhã na própria cantina do
camping, e eu desjejum, sucos exóticos e naturais (cacau, mangaba, umbu, etc.)
mais o trivial, coisa boa para um primeiro dia que passaríamos pelo menos oito
horas comendo o cardápio do Nei, laranja, alguns doces embrulhados e os
fatídicos ‘Nutry ou Nutri’ sei lá nem o nome guardei, mas ao mencionar o sabor
ainda vem à minha boca, era um quebra fome, mas com o passar dos dias tornou-se
objeto de troca entre nós e os nativos, como num ritual dos tempos de Cabral,
fazíamos escambo na troca de nossos ‘Nutrys’ por qualquer coisa comível ou
alguma miçanga que nos atraísse, já havia o dedinho da Regina nessas novidades.
Ganhamos do Nei,um saquinho de
plástico resistente, onde colocamos o víveres, inclusive água mineral, para a
nossa sobrevivência no nosso primeiro dia de caminhada, o saquinho estava cheio
de comidinhas e todos ainda levavam mochilas pequenas com outras coisas úteis,
como máquina fotográfica, papel higiênico, canivete e outras coisas que
pensávamos poderiam ser úteis.
Subimos na Toyota e fomos para
Porto Seguro onde por balsa atravessamos o rio Buranhém, chegamos às 09:30
horas
Passamos por Mucugê, Taipe, Rio da
Barra, etc e conforme o Nei havia avisado, havia de fato muitas barracas de
comidas e bebidas geladas, também era Domingo e o movimento teria que ser
grande, demos uma paradinha para descanso em um pequeno restaurante bem típico
e ouvimos a Regina pedir ao garçom em alto e bom tom, que queria aipim frito,
mas só se fosse frito na gordura do recém frito camarão, para dar só o
gostinho. A risada foi geral, de fato uma tirada incrível da inteligente esposa
do Miguel, que conta sempre uma graça ou aproveita um dito de alguém.
Quase sem querer passei a notar que a ordem do nosso caminhar passou a ser quase em fila indiana, exceto no caso do casal Ailton/Edna que em poucas vezes os víamos separados.
A ordem era mais ou menos a
seguinte: Normalmente à frente ia o Miguel e seu GPS novo, às vezes acompanhado
da sua cara metade Regina, ambos têm pernas compridas, o Miguel ou a Regina,
algumas vezes porém davam uma travada em seu caminhar, ou para ficarem por
último por necessidades do corpo, o que acontecia com todos nós, é claro, mas
normalmente o faziam para acompanhar ou dar uma palavrinha a nossa ultima
caminhante, verdadeira andarilha, quem? Aline, a quase jornalista.
Então tínhamos o Miguel/Regina à
frente da comitiva, no grupo do meio, o Nei, um pouco atrás o Mannyboy,
revezavam-se atrás de mim ou a Edna/Ailton, ou a Astrid, nossa ondulante
caminhante, na verdade a nossa amiga Astrid é um caso à parte por qualquer
ângulo que a olhemos, é uma jovem mulher experiente, pois caminhava com um
tênis velho e acostumado aos seus pés, carregava pouca coisa consigo e pouco
falava, estava mesmo numa viagem interior enquanto fazia suas pegadas no areal
praiano sem fim, mas quando algum de nós se aproximava, ela era todo sorriso, e
conversava normalmente, mas a gente sentia, nem sei o porquê, que ela preferia
ficar e/ou estar sozinha, e assim foi feito quase que em todo o longo percurso
que fizemos. Então para organizar as coisas, à frente Miguel/Regina – Nei –
Manny – Astrid – Ailton/Edna – Aline. Foi quase sempre assim com algumas
variações por motivos diversos, banhos de praia, obstáculos a serem
ultrapassados, etc.
Após muitas gargalhadas, mergulhos
no mar e pouco cansaço, chegamos à Trancoso, nome dado ao local, devido ao
momento em que os portugueses entrando no rio com a maré cheia, porém ao
voltarem, a maré estava baixa, e os mesmos ficaram trancados, daí, o nome
Trancoso, onde encontramos nossas barracas montadas bem à beira das altas
falésias, nos davam uma vista maravilhosa, além do dormir ouvindo o marulhar da
ondas quebrando lá embaixo, na praia.
Ouço o sino da Igrejinha badalar
chamando os fiéis para a missa das 17:30 horas,
e alguma coisa dentro do meu coração me lembra que é domingo, primeiro
dia da semana e dia do Senhor, tenho uma obrigação então, no bom sentido é
claro, e tomo uma banho rapidinho, boto uma roupa apresentável e lá vou eu para
minha primeira missa em terras baianas.
A igreja é simples assim como os
fiéis que estava presente, percebo logo que o padre é itinerante, vai oficiando
missa por todos os lugarejos pertencentes à sua congregação. Há poucos fiéis na
nave e junto-me a eles com fervor que só as minorias são possuídas, e todos
rezamos e cantamos e comungamos numa harmonia católica emocionante. Ora...
tenho 63 anos, e à cada comunhão eucarística, ainda me sinto emocionado, como
se fora a minha primeira comunhão.
... Coisas de Jesus Cristo! Nosso
Senhor!
Prazer do espírito em dia, vou
saindo da igreja e encontro do lado de fora quase todo o pessoal conversando
com o pároco, entro no papo e noto que somos em maioria turistas de passagem,
creio que o povo de Trancoso prefere a missa matinal.
Nos juntamos e vamos procurar um
lugar para o jantar, por sorte nossa encontramos um self-service muito bom, bem
em frente à igreja, só que do outro lado da enorme praça, isto é, andamos bem
um cinco minutos cruzando o grande arborizado e gramado espaço para
satisfazermos agora o prazer do corpo. A comida permanece sempre quente, pois
está dentro de panelas de metal, de
barro, bandejas e tabuleiros de alumínio tudo sobre uma imensa chapa de metal, onde por baixo crepita
o fogo vivo, como que nascesse da madeira seca. Nos balcões em volta há as
saladas, molhos diversos e a fatídica balança, que sempre mostra um peso além
do na verdade queríamos que mostrasse. A fome é tanta que repetimos mais uma
vez ou até duas, e a sobremesa naturalmente exótica, pois feita com produtos
naturais da terra e por mãos experientes de cozinheiras que com certeza muito
aprenderam com suas mães, avós, bisavós até chegar num passado distante, onde
tudo começou, falo aqui da comida realmente brasileira, que teve sua origem na
miscigenada Bahia.
Vamos às compras e à cada lojinha
que entramos, nosso olhos se enchem de alegria e prazer, tanto artesanato
diferente e inventivo, terços, miçangas, colares, brincos, pulseiras, anéis,
coisa incrivelmente feitas manualmente e pintadas sei lá com que tintas,
contrastam com as camisas padrão encontráveis em todo o mundo, é claro que com
os desenhos exaltando a localidade. Satisfeito e com algumas bugigangas nas
sacolas, voltamos para o acampamento alegres e tendo o Miguel e seu GPS
novinho, no alto dos seus quase
Bastante necessário passarmos
creme hidratante em todo o corpo, antes de dormir, foram quase
Lá pelas 21:30 horas todos cansadamente
recolhidos e prontos para dormir, embalados pelo marulhar das ondas que abaixo
quebravam na praia brilhantemente iluminada pela lua cheia. Poesia pura.
Dia 23/Jul/2001, segunda-feira,
acordamos numa alvorada bem matinal, o nosso Nei, impassível dizia para todos
que o dia seria pesado, uma caminhada de
Falar em bananas, passamos ao
longo da famosa praia de nudismo de Trancoso. Mulheres peladas não as vi, porém
as mulheres viram homens pelados à farta e foi aquela gozação que fizeram
conosco, frustrados que ficamos à falta do belo sexo para ser apreciado, mas
também pudera, era um segunda-feira e neste dia da semana, quase toda a mulher
sempre alega dor de cabeça, e aqui à beira mar, ambiente paradisicamente
turístico, nada melhor permanecer na cama para um bom descanso após uma noite
maravilhosa. Nós homens é que pulamos da cama cedinho, mesmo após noites de
paixão, simplesmente porque nossos ancestrais nos legaram o tal espírito
provedor masculino.
... Ah! Menos mal, pois no tempo a
pedra a vida era mais dura!
Passando pela praia rasa, que tem
uma extensão de areia imensa, o Nei propôs uma brincadeira de ‘senso de
direção’ que foi por todos aceita e que consistia em selecionarmos um ponto ao
longe, fecharmos os olhos e seguirmos em frente, que ele velaria para que nada
de errado acontecesse. Após uns longos minutos ouvimos um grito do Nei, todos
abrimos os olhos, e era a Aline que rumara totalmente à direita e já se
adentrava no matagal, bem afastado da areia, bem longe da praia, o interessante
é que cada um estava num ponto diferente do que imaginara, como se cada um
tivesse um Norte diferente em sua mente.
Fomos convidados pelo Nei para
conhecermos um amigo dele de longa data, foi assim que tivemos contato com o
seu Olegário, um preto velho de tem mais de 80 anos e que há 42 anos mora numa
choupana separada da praia por um braço do rio do Frade, sua choça está
localizada entre coqueiros, muitos coqueiros, muito receptivo, o seu Olegário
foi logo perguntando se queríamos água de coco, todos concordamos e ele chamou
um seu filho de uns 62 aninhos para pegar um cocos lá no coqueiral, inclusive
indicou quais os coqueiros a serem visitados. As meninas lá foram atrás do
filho do véio para ver como ele se saia na cata de cocos e ficaram surpresas ao
verem que o homem qual um macaco subiu com extrema facilidade tão alta árvore e
cortava com maestria os cocos verdes e grandes. Seu Olegário começou então a
cortar os cocos para que pudéssemos beber a água e a conversa ficou mais amiga,
ele começou a contar seus causos e um ficou até hoje na minha imaginação e à
cada rio que eu atravessei dali em diante, seja nadando ou sobre uma canoa,
jamais deixei de sentir um pouco de receio ao me lembrar do Tintureiro.
Tintureiro era o nome do tubarão
que um dia na preamar subiu o rio do Frade e encontrou uma mula que carregada o
rio atravessava, deu tal abocanhada no jumento que ele sumiu nas profundezas, a
cara ficou boiando mas a mula desapareceu e seu Olegário termina relatando que
no dia seguinte o Tintureiro foi pescado bem lá ao Norte, em Belmonte, perto de
Santa Cruz de Cabrália, e quando aberta sua barriga foi encontrada meia mula no
seu estomago, á água de coco apesar de estar na temperatura ambiente, estava
doce e gostosa e o papo bastante interessante e foi quando a Regina já
descalça, perguntou se havia algum perigo em ir ali no braço do rio, lavar as
meias, o seu Olegário rapidinho tomou a palavra e lhe ensinou uma cantiga
protetora que era mais ou menos assim: “Ò Deus sarve o oceano/ Ò Deus sarve o
oceano/ pras minhas meia lava/ pra modi
di fica limpa/ e eu pode carça!”
Após muita água de coco e muita conversa, chegou a hora das calorosas despedidas, pagamos R$ 1,50 por cada coco, e ainda passamos pra ele todos os “Nutrys” que tínhamos em nossos embornais,creio que o seu Olegário jamais vai se esquecer daquelas pessoas que uma dia por ali passaram e lhe deixaram tantas guloseimas que até hoje seus poucos dentes ainda doem de tanta doçura.
Ninguém quis atravessar o raso rio
do Frade, que segundo a lenda local, há centenas de anos atrás, um frade morreu
afogado ao atravessar justamente naquele trecho do rio, e pelo vau, e sim
pedimos ao filho do seu Olegário que nos atravessasse na sua canoa, quatro de
cada vez, mas mesmo assim a canoa deu lá suas tremidas, principalmente a que
estava o Miguel e ele confessou mais tarde que o seu medo maior era perder seu
equipamento, principalmente seu GPS novinho, para mim era outra coisa, era como
se os reflexos psicológicos do Tintureiro, ainda estivessem presentes no ar.
Mais praias maravilhosas, mais
banhos de mar, mais rios e riachos a serem atravessados e creio que uma
mensagem agora se somara à tantas em nossa mente, e se o sócio da tinturaria
viesse das profundezas faminto a procurar vingança?
Lá estava Curuípe, que significa
Sapo Grande, eram 16:00 horas, notamos que a Toyota ainda não havia chegado,
ficamos à espera comendo aipim frito, pedido pela Regina é claro e que de fato
psicologicamente teria gosto de camarão, enquanto cada um matava sua sede
escolhendo a bebida que mais lhe conviesse.
A recepção calorosa e amiga feita
pelo seu Alberto Sousa Campos, que prefere ser simplesmente chamado de “baiano”
e que é o feliz proprietário da Pousada do Baiano à beira da praia de Curuípe
plantada, foi especial, ele sabe como tratar os hospedes, ora sugerindo
comidas, lazeres e conversando muito, agradando de todas as maneiras,
fazendo-nos em pouco tempo sentirmo-nos em casa, o que era necessário, pois ela
Dara a notícia ao Nei que a Toyota estava retida na estrada por causa de um
conserto e que demoraria bastante sua chegada, menos mal, pois ali dormiríamos
em apartamentos, já que não é permitido montar barracas na região de Curuípe
onde tudo ainda é meio que primitivo.
O sol ia esfriando rapidinho,
sendo substituído por um vento frio que vinha do mar e em nossos corpos que já
tinham caminhado uns
Já que mencionei que estávamos nos
sentindo em casa, o Miguel que é alto, uns quase dois metros de envergadura,
conforme Regina sua esposa sorri ao dizer, vem caminhando em nossa direção,
vindo do mar, quando de repente ta lá um corpo estendido no chão. Corremos
todos e o nosso Miguel, sem o GPS, quase desacordado passa a mão na testa
sangrando, ele deu uma senhora testada nos batentes da cumieira da varanda da
pousada e quase derruba o imóvel e o “baiano” correndo pressurosamente repetia
em alta voz que casa de baiano é sempre baixinha assim e que se há de tomar
cuidado sempre e que ele faria os primeiros socorros e inclusive se fosse o
caso de suturar, não haveria problema pois ele fora enfermeiro militante por
muitos anos antes de montar seu tão bem sucedido empreendimento.
Naquele momento senti o que é a
Força do Amor de uma mulher. A Regina de um salto achegou-se à seu marido caído
e tentava socorrê-lo até atrapalhando que ele se levantasse, ela estava a ponto
de chorar ao sentir o ocorrido e pedindo gelo, sua voz traía o medo de uma
problema maior com o seu homem, quem olhava para os seus olhos, notava o quanto
de Amor eles dardejavam em direção ao seu Miguel e ao ferimento que sangrando
estava, como se com aquele olhar embevecido ela pudesse curar ou pelo menos
mitigar a dor do amado, e seu espanto em ver tantas pessoas à sua volta, que no
intuito de ajudar, mais atrapalhavam que ele se levantasse.
Felizmente, graças à Deus, após
uma boa limpeza, viu-se que o ferimento era superficial, um arranhão profundo,
nada que uma assepsia correta e banhos de mar, não pudessem curar em poucos
dias, razão pela qual voltamos a ficar felizes e alegres, mesmo perturbados
pela ausência das nossas coisas.
O jantar foi totalmente em estilo
greco-romano, à
Quando estávamos no final do
jantar, nas supimpas sobremesas, eu que a Toyota dá sinal de chegada e os rapazes vão chegando no
alpendre/sala de jantar todo iluminado à luz elétrica, mas abundantemente
decorado com velas acesas em recipientes dos mais diversos. Notamos que o
motorista e seu ajudante pararam à uma distância e confabularam olhando para
nós, e foi preciso que o Nei fosse até lá para que alguma coisa que ocorria
fosse esclarecida.
É que quando os cansados jovens
chegaram, o que viram foi uma confraternização umbandista cujos personagens
eles não conheciam e ficaram ao longe por respeito e receio de perturbarem.
... Coisas da Bahia!
A manhã do dia 24/Jul/2001, uma
terça-feira, em Curuípe estava chuvosa, mas foi clareando e como era dia de
descanso, pois ali ficaríamos mais um dia numa ótima recuperação, cada um tomou
seu café da manhã numa hora diferente e só voltamos a nos ver todos lá pelas 11
horas, uns na praia, pois o sol já lá estava, outros visitando a localidade
paradisíaca, felizes marcamos que preferiríamos jantar após muita preguiça, nem
comemos todos juntos e nem na mesma hora, alguns até foram comer em outro
restaurante perto, tivemos tempo ainda de um papo noturno onde cabeças que não
têm o que pensar começar a inventar coisas e foi assim que fiquei sabendo que
tinha sido enganado pela CCTur, eu paguei pelo passeio R$ 799,46 e fiquei
sabendo ali que o Miguel/Regina haviam pagado somente R$ 250,00 e que o
Ailton/Edna a bagatela de R$ 200,000, e mais perturbado e aborrecido fiquei
quando perguntando à Astrid quanto ela havia pago ela me disse com a maior
cara-de-pau que pagará somente R$ 150,00, pois fora uma oferta tentadora. Fiquei
chateado com tudo, mas nem esbravejei e fui dormir preocupado, ah! Isso fui.
O Nei em sua experiente sapiência
propôs mais uma de suas mirabolantes idéias, cada um deveria achar na
caminhada, um objeto qualquer, que seria um presente a ser entregue no almoço
do último dia. O sorteio dos amigos ocultos foi feito e cada um já se preparou
para encontrar, talvez jogado pela mar na praia, um presente que seria a cara
do seu amigo só por si conhecido.
Lá pelas 22 horas o silêncio já
tomava conta outra vez da Pousada do Baiano e nós descansávamos na preparação
para o novo dia que viria com uma caminhada pesada, mas de somente uns
25/Jul/2001, quarta-feira, nossa
despedida do baiano e do pessoal da pousada foi muito bonita assim como o café
da manhã que foi farto e agradável, e quando chegamos à beira-mar para
reiniciarmos nossa pequena mais cansativa etapa, muita coisa havia mudado.
Alem de todos estarem mais
bronzeados, a indumentária despojada não era mais privilégio do Nei, poucos
carregavam algumas coisas extras, o que se notava agora é que até a sacola
plástica tinha mesmo era água mineral, pouco comestível, e pouca roupa também,
muitos descalços e com os tênis pendurados ou dentro das mochilas magras. Como
sempre a experiência evolui o homem.
Após rios, riachos e banhos
divertidos, e passarmos em frente à uma “Laxoneti”, assim estava escrito, e que
felizmente estava fechada, já pensaste em tomar alguma coisa ali e ser mesmo
laxante? Como ficaria a caminhada?
A praia à frente belíssima e com
uma larga faixa de areia clara, faz a delícia dos caminhantes, olhas à direita
o mar calmo, ondas macias e peixes saltadores se mostrando orgulhosos, à nossa
direita alturas, barreiras nuas de morros solapados pelo mar. Acolá, bem à
frente a faixa de areia é quebrada por um desbarrancamento, e o Nei fala: Vamos
subir aquela encosta que teremos uma surpresa para os olhos e para o coração.
Subimos nas alturas e de lá o Nei,
sempre ele, dispara: “Olhem para o mar! Que se vê?”
Incrivelmente se vê o céu no mar
que é azul e verde ao mesmo tempo, é um reflexo maravilhoso, o sol clareia a
água e nela reflete sua luminosidade, que todos dizem a uma só voz: “É um
espelho da Natureza!” No que o Nei
recita, como se sempre soubera a resposta e antevira o futuro: “Esta praia é a
famosa Praia do Espelho. Hoje, após 4 meses, estou lendo na Veja nº 45, de
14/11/2001, pág 69, que a Praia do Espelho**** é a 4ª melhor praia do Brasil
nos quesitos beleza natural, estado de preservação, cor e limpidez da água.
Depois de um banho de beleza salgada tanto no admirar o espelho aquático à frente quanto no suar amargo após subida tão íngreme, descemos o costão e descortinamos a continuação da praia do Espelho, falo da Praia de Coruípe****, que é a 5ª melhor praia do Brasil, belíssima já que continuidade do mesmo Espelho, mas estamos agora no mesmo nível e a praia de Coruípe nos mostra outras belezas, vemos os peixes acrobáticos e o marulhar é mais sereno, menos forte. Lembro-me que lá de cima, à cavaleiro, ouvia-se um estrondear bem mais alto e o ondear parecia mais suave.
Ainda estupefaciados ante tanta
beleza, logo um pouco à frente atravessamos o rio Caraíva que divide a praia de
Coruípe em duas; o Miguel sem o seu GPS novinho, que estava seguro no colo da
onipresente Regina, ia à frente andando entrando nas águas turvas e agridoces,
pelo vau e eu mais baixinho fui é nadando, o restante do grupo foi de canoa
mesmo, ainda receando inconscientemente os efeitos Tintureiro.
Já eram mais de 4 horas da tarde
quando chegamos à outra margem onde existe o povoado de Caraíva, e na areia,
espojados ao sol, dezenas de jovens branquelos formavam grupos com um só
objetivo, fumar maconha e/ou crack e até pó, tenho certeza que nenhum deles
ousara sair de tão longe, os sotaques traiam paulistas, capixabas e mineiros,
somente por causa dos raios de sol e sim pelo brilho criminoso ou pelo marrom
fedorento do vício que vem matando jovens em todo o mundo.
Dessa vez a dormida seria mais uma
vez diferente, a Toyota não pode atravessar o rio Caraíva, porque não há balsa
para, então a vila é dos pedestres e das carroças e o caminhar é pesado pois as
ruas são todas de areia fofa, o que faz nossa locomoção bastante cansativa,
mesmo assim fomos a procura de uma pousada que o Nei nos consegui, era uma casa
em bom estado e de dois andares, e combinamos o seguinte: na parte de cima
dormiria a Aline num colchão individual; Regina/Miguel num colchão de casal e
em outro a Edna/Ailton, em baixo haviam três colchões de solteiro e dormiríamos
eu o Nei e a Astrid, um em cada colchão, é claro.
Alta madrugada e quase me
arrancando da cama, ouço uma voz que fala para mim e alto e bom tom: “Mannyboy!
Levanta daí, pega teu lençol e vai dormir lá em cima”. Nem discuti, tal o tom
da voz e meu cansaço e subindo as escadas fui lá pra cima em seguida desmaiando
nada mais vi ou senti.
Na manhã seguinte como numa novela
toda a trama foi desvendada, entremeada de sonoras gargalhadas, o Miguel sem o
seu GPA novinho, é um roncador nato e o casal Ailton/Edna não conseguiram
dormir tal o som do ronco do Miguel, razão pela qual desceram na mal dormida
madrugada dispostos a tudo para dormirem um pouco e como eu sou um finíssimo
roncador, me colocaram lá pra cima para fazer um dueto com o Miguel, o que
aconteceu lá em cima é que o Miguel acordou quando viu o movimento de troca e
quando adormeci e comecei imediatamente a roncar, aê nem o Miguel conseguiu
dormir, a Regina e a Aline não viram nada e nada ouviram, o mesmo aconteceu com
o Nei e com a Astrid que realmente desmaiam quando dormem. Só mais tarde
descobri porque o sono da Astrid é tão profundo.
Senti que após aquela manha havia
mexido com o íntimo de cada um, e dali em diante as coisas jamais foram as
mesmas, oito pessoas desconhecidas dormindo juntas num mesmo ambiente, mexe sei
lá com o que de cada um, e onde só víamos virtudes, defeitos começaram a
aparecer. Leváramos tudo na brincadeira, mas algumas coisas mudaram após nossa
estada no Paraíso dos Maconheiros.
26/Jul/2001, quinta-feira, e o
Nei, havia providenciado um local para o café da manhã que foi muito bom e
farto, mudou até um pouco o humor geral do pessoal, passamos a margear então a
Reserva indígena dos Pataxós, que se estende até Corumbaú, que significa Um
Lugar Longe de Tudo, o percurso de uns
Caminhando por praias lindas e
extensas emparelhei com o Nei para perguntar sobre o negócio do pagamento da
viagem, pois aquilo não saia a minha cabeça, e ele respondeu dizendo que nada
sabia da contabilidade, que era outro departamento, senti então que o negócio
dele era mesmo não se envolver.
Após atravessarmos o rio Corumbaú
que significa lugar longe de tudo, o pessoal se animou para caminhar os sete
quilômetros restantes, pois a praia fica diferente, muda, espraia-se, a areia
fica dura e caminhávamos com mais firmeza e facilidade, mesmo assim eram 14:30
horas, sol forte, e paramos para saborear camarão e peixe frito que apesar de
demorar mais de uma hora para serem servidos, estavam de fato deliciosos e até
o aipim estava realmente com gosto de camarão, dedo da Regina, com certeza ou
até da Astrid que sempre ia dar uma inspecionada na cozinha que preparava
nossos quitutes.
Sentados à sombra saboreando os
frutos do mar, pára uma carro próximo de nós e o Nei chama o Lorinho, nosso
anfitrião em nossa próxima parada, ele é um mulato claro e risonho, o que nos
trás a questão do porquê do nome.
Após tal descanso merecido, seguimos
em frente passando pelo Hotel Jocotoca, que bem localizado, tem um mar
belíssimo pela frente, além da praia com ondas baixas, ainda se via ao longe
cardumes pulando de alegria, sei lá se é normal ou se estavam saudando a nossa
passagem.
Do lado direito, pois caminhávamos
pelo nosso litoral brasileiro em direção ao Sul, havia a flora exuberante que
nos lembra uma parte da saudosa Mata Atlântica, cuja fauna ainda nos brinda com
pássaros em movimento, como pica-paus que vimos e ouvimos no seu toc-toc-toc
sem fim.
Fiquei para trás para conversar
com a nossa jovem futura jornalista sobre a reportagem que ela faria como
estagiária na CCTur, lhe disse que o pessoal estava estranhando porque ela
quase não anotava nada e nem fazia perguntas à cada um sobre qualquer tema, lhe
disse que como um escritor menor, precisava anotar tudo para não me perder
quando fosse fazer meu relato virtual, e elazinha na firmeza dos seus 20
aninhos me respondeu: “Tenho tudo gravado na minha memória, e andando lá no
final, há mais de um quilometro de distância de vocês, vejo tudo o que fazem,
maneira de andar, comportamento, e já tenho um perfil bem definido do que vou
escrever, te garanto que será uma grande surpresa”. Estou esperando a
reportagem para saber como estou à vista de uma menina de 20 anos.
Enfim chegamos a Salgado ou Mato
Grosso, uma placa dizia: “Sítio Nordeste – Pousada do Lorinho – Restaurante da
Lia, mas o nome da mulher dele é Maria, dexa pra lá. Entramos no camping onde
estava montado o nosso acampamento, de fato, senti que todos nós já estávamos
com saudades das “nossas” barracas e dos nossos pertences e conforme o
combinado com o Rogério, minha barraca foi montada longe da do Ailton, para que
pelo menos a minha paz voltasse a reinar, já que eu andava meio chateado de
roncar tão alto e prejudicar o descanso do pessoal.
Em Salgado, um lugarejo sem nada
de especial; chegamos cansados, tomamos nossos banhos, lavamos nossas roupas e
fomos jantar em grupo, sentei-me perto do que não estava lá de muito bom humor,
à causa do mal dormir da noite anterior e porque falo muito alto quando estou
animado e feliz, e tive que trocar de lugar na mesa do jantar, mas tudo normal
num grupo que está em fase de sintonia,
onde o cansaço, um machucado, um mal estar ou uma entorse, trazem o medo
de não se chegar ao final, o que paira sobre todos nós como uma ameaça
silenciosa. A graça da nossa estada, foi quando o Miguel perguntou ao Lorinho o
porquê do nome e ele explicou que seu nome mesmo é Lourival, mas todo o mundo
prefere chamá-lo Lorinho e após isso, começou também a contar causos, de cobras
gigantescas e onças sorrateiras, quando era peão de obra no Parque Ecológico do
Monte Pascoal, inclusive o já conhecido causo do Tintureiro, este com maior
riqueza de detalhes, é claro.
Hoje, 09:00 horas da manhã do dia
27/Jul/2001, sexta-feira... Café da manhã trivial, bem servido pela Dona Maria,
a esposa do Lorinho, uma cozinheira de primeira, que já tinha nos brindado com
um belíssimo jantar e que deu-nos deliciosas cocadas como sobremesa, mas sem
desfazer de todo o seu esforço, a Regina/Miguel quando em Curuípe foram jantar
fora na segunda noite, e nos trouxeram uma cocada mais que especial, e que
jamais comemos dela nem mesmo em Cumuruxatiba ou Prado.
... Coisas da Regina!
Vamos caminhar hoje somente
Até chegarmos ao estuário do Rio
Cahy, foi uma caminhada bastante cansativa, mesmo assim nos divertíamos com
brincadeiras e dávamos boas gargalhadas com a menção das piadas pelo Miguel já
contadas e que a um simples mencionar de uma frase, desenrolava toda a piada
por nossa mente, e quando um ria, todos os outros riam em uníssono, numa
tentativa segura de afastar o cansaço e os medos do não conseguir.
Mergulhos alternados em água
salgada e doce continuaram sendo constantes e nada mais nos incomodava tanto,
nem o sol torridamente forte, nem o andar por seis ou oito horas com o corpo ora
banhado com água doce ora com água salgada, creio que já estávamos mesmo
curtidos pelo tempo.
Estuário do Rio Cahy ou Caí, há
uma cruz enorme de madeira marcando o local
As margens do rio Caí estão longe
uma da outra, e a correnteza forte nos faz atravessar no luxo de uma canoa à
motor, e subirmos uma elevação para chegarmos ao restaurante que teima em ficar
aberto mesmo fora da estação. Foi até interessante, pois lá no alto e ante
vista tão maravilhosa, passamos por mais uma parte do Museu Aberto, que desta
vez nos mostrava um mapa do litoral desde Santa Cruz Cabrália até Cumuruxatiba,
que significa o Vai e Vem das Águas nas Pedras.
Chegamos na praia e ali mesmo,
paramos para conversar, comer alguma coisa e beber água de coco, uma constante
por toda a caminhada, e principalmente bater fotos, coisa que a gente pouco
fez, já que carregar a máquina nos começos era meio temeroso e pesado, mas
agora nem temos esses receios, repito mais uma vez, somos vencedores calejados
andarilhos praianos invejados até pelas marias farinhas que por terem um
horizonte estreito, correm invejosamente como loucas quando nos vêm passar
lépidos, fagueiros, altaneiros e impávidos pelas praias semi-virgens do sul da
Bahia. Ah! Se elas soubessem o que sabemos da beleza da Terra, ou será que o
orgulhoso está tomando conta de mim? Já que não sabemos totalmente das belezas
que existem no fundo do mar onde elas habitam desde sempre?
Mais um obstáculo à frente, mais
uma falésia desmoronada a ser ultrapassada, mas essa tem que ser escalada e sua
de “eskibunda”, uma descida escorregadia onde o freio é sentar-se e deslizar
ladeira abaixo, espantando os urubus que tumultuadamente tinham como repasto
uma tartaruga marinha morta.
Até que enfim! Grita o Miguel com
alto dos seus quase dois metros, com o seu GPS: Já dá pra ver daqui o píer em
ruínas que fica na praia de Cumuruxatiba, assim como dá pra divisar ao longe o
Monte Pascoal e o feliz que vinha lá
atrás exulta: Lá de cima ainda deu até para falar com a minha família em
Sertãozinho! (Ante tantas e tantas tentativas, até que gostaria um dia de saber
o valor da conta.)
Realçamos a história do Miguel e
seu GPS novinho, porque quando ele consultava seu aparelho para localizar-se na
face da Terra, em que ponto realmente estava, eram momentos de espera até que o
aparelho conseguisse se conectar com os satélites daquele horizonte, daí o
Miguel fazia as coordenadas para o ponto onde estávamos indo no dia, e dava uma
quilometragem sempre aquém da real, lógico que teria que ser assim, pois o GPS
mede distâncias em linha reta, mas para nós era sempre uma alegria quando o
Miguel parava para consultar o seu GPS novinho.
Chegamos às 17:30 horas, cansados
após mais de
O que realmente sei é que todo o
mundo estava mais alegre do que nunca neste dia que antecedia o esforço
derradeiro, o acampamento confortável também ajudava e marcamos a hora do
jantar para às 20 horas, e até lá lavagem de roupa, banho e massagens gerais
desde os pés até o uso de hidratantes no corpo bronzeado, nesta hora, a Aline
ex-branquela tava lá toda feliz e satisfeita com o seu novo visual, nem era
aquela foca clara ou aquela pseudo sereis do primeiro dia, e sim uma bela
morena de cabelos negros que impressionava pelo sorriso alegre que teimava em
não sair de sua face jovem. Não que as outras mulheres estivessem menos
bronzeadas ou menos belas, isso não. É que as outras usaram protetores solares
fortes e pouco se queimaram, já a Aline creio que usou mesmo é bronzeador e
como andava sempre lá atrás, às vezes um quilômetro ou mais, ela já me
explicara o porquê, que acreditei com ressalvas, a gente nem tem certeza se ela
aproveitou o Sol mais que nós, pois ficou mais tempo exposta a ele.
Jantar maravilhoso, comidas
especiais, se come bem em Cumuruxatiba, há vários restaurantes e no fecho da
lauta e saborosa refeição há a famosa cocada da Marisa, que a gente pede ao
garçom, que manda chamar o filho dela que rapidinho vem com uma frasqueira de
vime cheia do famoso doce feito do mais puro coco da Bahia. Talvez devido ao
efeito revigorante do repasto, o Miguel puxou o assunto das passagens, dizendo
que não era bem assim, que o pagamento havia sido igual para todos, no que nem
acreditei, mesmo quando a Astrid com cara de santinha, negou tudo e disse que
pagara o mesmo que eu. Preferi não me aprofundar no assunto e notei que o
Ailton me olhava com certa apreensão, e naquele momento achei que tudo era uma
grande e original armação.
Era cedo ainda, a noite uma
criança, e nem todos voltaram para o acampamento, foram dar uma volta, ver como
é a cidade à noite, o que sei é que lá pelas 22:00 horas não havia mais barulho
no camping, o cansaço pegara todos, e eu lá na minha barraca longínqua
descansava dando vazas aos meus roncos que nunca ouvi, sonhando com os deuses
da noite, para que nos protegessem na escuridão da noite que viria no amanhã.
Dia 28/Jul/2001, sábado, sem
horário para levantar, já que nossa saída seria à noite, mas coisas estranhas
aconteceram então, tava todo o mundo acordado, uns fora da barraca, outros
ainda dentro dela deitados, mas todos despertos e isso devia ser umas oito da
matina, como se o acordar cedo fosse a melhor coisa da nossa vida, tava todo
mundo bem feliz, até a Aline dorminhoca como soe ser os jovens, estava lá de
olhos abertos e pronta para o café, sem pelo menos saber a razão de estar
acordada tão cedo naquela manhã maravilhosa.
Já se sentia no ar aquele olor de
incenso, a Astrid já estava em alto astral, meio mística, a nossa amiga
desligada, vivia algumas vezes num mundo so dela, sentíamos por momentos que
ela estava com a gente, mas dividia sua presença com uma ausência dedicada à
outras coisas talvez até sobrenaturais, sei lá!
O
Ailton e a Edna organizados como sempre; eles são escoteiros, fazem parte da
chefia do grupo de escoteiros lá de Sertãozinho, estão acostumados a acampar,
principalmente com crianças e jovens, e não sentiam lá grande diferença em
acordar cedo. Seus comportamentos eram os mesmos em todas as ocasiões, casados
há muito mais de 20 anos, eles agem como uma só pessoa, nas conversas um
completa o que o outro fala, enriquecendo sempre as informações que normalmente
passam em seus bate-papos, mesmo que o assunto seja o trivial. Bom compartilhar
com eles aqueles dez dias, muito aprendemos de utilidade para futuras
caminhadas, como também para o viver do dia à dia. O casal que brincamos que
estavam em “Lua de Mel”, não mostrava seu Amor assim pra todo o mundo, vez em
quando eles se distanciavam, e longe dos olhos curiosos da gente deviam trocar
lá suas juras de Amor, pois na frente da gente era só abraços e carinhos, aliás
muito discretos. De fato a verdadeira demonstração de amor requer mais do que
beijos, sexo e palavras. É toda uma cumplicidade criada silenciosamente
enquanto o Amor trabalha ambos corações.
Se
mais quiseres saber sobre o Amor, leia Martha
Medeiros.
O café da manhã foi farto e feito
em um ambiente tão acolhedor que depois de tão maravilhoso desjejum, muitos
ficaram por ali mesmo, nos sofás, dormindo ou descansando. Sabíamos então que
as barracas seriam desmontadas às 13:00 horas e que teríamos que ficar somente
com o que precisaríamos para a tão esperada caminhada noturna. Difícil escolher
o que pegar, ainda mais que o tempo estava meio nublado, faria frio à
noite? Se não fizesse? A gente teria que
carregar uma bagagem extra e inútil pela noite adentro! Já bastavam a lanterna,
uma blusa de manga comprida e o receio do desconhecido, nós todos exceto o Nei,
nunca havíamos caminhado tantos quilômetros à noite. Mas por Deus, fizemos a
escolha certa e até a capa amarela que a CCTur tem para emprestar aos turistas
mais previdentes, nós pegamos, o que foi a sorte, porque ela nos abrigou do
frio noturno e da chuva miúda que teimou em nos acompanhar por quase todo o
percurso.
As horas passaram depressa e no
jantar fui correndo comer no Restaurante do Gordo, cuja Arraia na Manteiga
Negra é cara, mas é ótima; e quando ia saindo eis que chegam famintos, mas
felizes o casal de escoteiros Edna & Ailton que iam também comer a iguaria
especial, e nem era a primeira vez, pois eles já conheciam tanto Cumuruxatiba
quanto a Arraia preparada na Manteiga Negra. O interessante é que eles pediram
um só prato e eu também, acho que ando comendo demais!
De repente estamos todos juntos,
alegres e felizes, na sala de Televisão do camping, seriam umas 21 horas e já
tava todo o mundo juntinho, engraçado como desafiar o desconhecido une as
pessoas. Senti firmeza principalmente nas mulheres, as quais ainda teimamos em
chamar sexo frágil, elas confiantes, nós outros todos confiantes também.
Porém a chuva começou a cair,
fininha, mas constante, e todos nos regozijamos, pois tínhamos capa e coragem.
Só a Astrid é que tinha um pouco mais, confessou-me mais tarde que ingerira uma
inexata quantidade de aguardente, após vários copitos de caldo de feijão, tudo
lá no Restaurante do Gordo, que até tornou-se amigo de tão ‘boa’ freguesa.
Era um tal de preparar lanterna,
verificar o equipamento e o Miguel/Regina testando a HandCam ou máquina de
filmar como diz em sua sapiência o Miguel. Estávamos realmente entusiasmados
com a nova aventura, aquela tensão de emoção no ar, eletricidade estática em
nossa volta, nos fazia pensar como irmãos, e se ainda havia alguma coisa
pessoal entre nós a ser resolvida, senti que ali tudo se esclarecera,
silenciosamente como num ritual sobrenaturalmente mental, resolvemos tudo,
limpamos nossa mente, corpo e coração como se esta etapa da viagem fizéssemos à
procura da luz na escuridão de nosso interior, desconhecido até para nós, assim
como as pessoas que conosco iriam fazer o mesmo percurso, e que sabíamos que
cada um dependia do outro, se um parasse, todos teriam que parar. Uma sensação
incrivelmente profunda de receio e bravura, de medo e desafio, um quê de fazer
parte de um todo sem poder fraquejar ou desistir; normalíssimo sentimento
humano de ansiedade ante ao desconhecido.
Num momento de silêncio que houve,
na hora da oração da saída, vindo de dentro de cada um podia se ouvir junto com
o tum-tum do coração: “Eu posso!”
Partimos por volta das 22 e 30
horas, havia uma lua meio que encoberta, mas nada nos amedrontava, logo de
cara, maré cheia, entramos pelo mar adentro e tivemos que desviar por uma rua
paralela, pois de fato não dava pra passar, tudo como se fora um aviso do que
viria a seguir.
Seriam nove horas para caminharmos
os
Começa a chover intermitentemente
e é um tal de bota a capa, tira a capa, Regina parando para filmar a galera,
risadas vazias na noite breu, o mar batendo mais forte que nunca, como se mostrasse
para nós no intuito de nos amedrontar. Até as marias-farinha, nos encaravam
qual o anuncio de uma cerveja na TV, mas, íamos em frente, sem parar, impávidos
e dominando o medo, o interessante é que aquela que em todo o percurso fora a
última, sempre, agora era a primeira a puxar o grupo. A estagiária mostrava
assim a sua face criança, e nos ensinava que há várias maneiras de mostrar o
que vai no nosso imo, sem precisar usar palavras. A Astrid, completamente muda
como sempre, exalava uns grunhidos como se rezasse uma ladainha sem fim, mais
tarde vim a saber que ela havia ingerido alguns tragos para encarar este último
desafio; o Nei com uma lanterna de cabeça, que fica ali alojada na testa, nada
falava, talvez sobrecarregado pelo peso da responsabilidade, o Ailton numa
hora, estando um pouco para trás, gritou em alto e bom som: “Eeepaaa! Pessoal!
Vamos mais devagar, que assim não vai dar! Naquele momento é que notamos que
ainda nem tínhamos parado uma vez sequer, e que já eram mais de duas da matina,
êta povinho apressadinho.
Logo, logo o Nei ordenou uma
paradinha, e todos deitamos com capa e tudo na areia úmida e macia. Apagadas as
lanternas, a escuridão era total, e mesmo com o chuvisco o céu começou a se
mostrar em todo o seu esplendor, uma maravilha a ser vista por quem está na
horizontal, mas o problema é que estávamos cansados e já caímos dormindo, e foi
uma meia hora inesquecível de descanso e o prazer de estar inteiro e com
vontade de chegar.
A dor insuportável que o Miguel
sentira nos seus pés, milagrosamente sumira, desaparecera, pura magia do
adentrar-se no desconhecido, uma viagem ao âmago da mãe Terra, faria o mesmo
efeito em todo o nosso interior e na ânsia de dar o melhor para a vitória do
grupo, tudo o mal é exorcizado, somos heróis, vencedores e donos do nosso
próprio corpo e o Miguel nos mostrou isso em toda a sua plenitude.
A Regina era só felicidade,
mostrava isso estando sempre colada com o seu amado Miguel, rolavam beijos,
abraços e conversinhas entremeadas de risinhos, a coisa prometia, ela mostrava
ali todo o Amor que viramos de relance quando ele se machucou na testa, mulher
carinhosa, dava o maior apoio ao seu marido, mesmo sabendo que a dor do pé dele
tinha desaparecido, sei lá! Mulher sente as coisas, e a força do Amor faz seus
milagres inexplicáveis e o Miguel andava lá qual um rei tendo sua abelha rainha
em volta dele cobrindo-o de Amor e atenção. Para nós era uma benção essa troca
de emoções e carinho entre os dois, pois que nos levava e a nossa mente ao
enlevo suave do Amor, fazendo com que nossa caminhada ficasse mais leve, pois
ao pensarmos em coisas tão espiritualmente profundas, esquecemos por momentos
as coisas da carne.
Diferença entre os casais muito
importante de se notar. Enquanto a Regina e seu Miguel acintosamente mostrava
seu Amor, Ailton & Edna, sempre de mão dadas nos mostravam uma outra face
do querer, o Amor silencioso, macio, cúmplice... Arrisco até uma comparação.
Teria alguma coisa que ver em morar um casal numa grande cidade e o outro numa
pequena cidade do interior?
De novo no caminho escuro, os
riachos que têm o mar como desembocadura, engrossavam antes da nossa passagem e
entrávamos nas águas doces e frias, atravessando as correntezas traiçoeiras
todos de mãos dadas, numa união entre iguais inimaginável nos dias de hoje.
O negror da noite nem nos
assustava mais, só o cansaço é que já estava tomando conta de nós, pois que
nada víamos à frente, nem um sinal do farol que pisca noite adentro lá em
Prado.
Nesta hora é que o Ailton, de
coração limpo e alma lavada, soltou suas amarras interiores e começou a cantar
em alta voz, primeiro marchas de escoteiros, depois músicas românticas
dedicadas à sua amada Edna, tanta ternura e emoção, que nosso cansaço como que
desapareceu, andávamos então embalados pelas canções, não importava quão
maviosa era a voa que as entoava, lá dentro de nós, entrava certeira, nos
empurrando para a frente, mesmo com as dificuldades de na escuridão
ultrapassarmos pedras espalhadas na areia, resultado visível da eterna luta do
mar contra as montanhas que teimam em lhe barrar o caminho do todo.
A Bíblia mesmo fala, que no
princípio era tudo pura água, então o mar que somente recuperar o que é seu
desde sempre!
E com o Ailton animando a galera,
andávamos mais depressa ainda, para’vamos para a Regina filmar e/ou para olhar
e admirar o céu que nos mostrava na pureza de uma noite sem nuvens e sem a
poluição das cidades, todo o seu esplendor de pontos luminosos faiscantes,
pulsantes, estáticos e muito mais brilhantes que os artificiais em movimento,
ali colocados pelos homens que teimam em macular com seus artefatos a pureza do
espaço que nos propicia uma noite estrelada vista das areias quase virgens das
praias do Sul da Bahia.
Assistias ali o milagre do céu na
terra, ou melhor do firmamento na água, tal o reflexo das centenas de milhares
de astros de diversas grandezas que ali pontilhavam, deixando o negrume do mar
transformar-se num claro lençol de seda da mais pura e imaculada, os pontos
brilhantes tomavam toda a extensão da imensidão do mar à nossa frente e
perifericamente também, de repente tudo era mar e tudo era céu, numa fusão
cósmicamente luminosa, a ilusão nos tornava privilegiados ao observar a força
que a Lua fazia para mostrar-se em meio à tanta luminosidade, já que não era
ela naquele momento um espelho de frente para o rei Sol, e em sendo assim não
podia sequer ombrear-se com as estrelas das mil grandezas que multicoloriam
pulsantes aquela abóbada prateada.
Agora era só festa, o dia começava
a clarear, o rei Sol já estava avermelhando o limite enganoso do horizonte
oceânico, e dentro de nós o sol já nascera, e a sensação era de ufanismo,
alegria, prazer, satisfação, e vontade de cantar como o Ailton o fizera, loas à
Deus. Aquele que tudo pode e que nos deu a força para chegarmos vivos, inteiros
e crentes do dever que assumimos conosco, e com o grupo.
Salve... Salve O Criador que nos
propiciou presenciar um milagre, o poder que tem a mente sobre o corpo, como
tão bem o demonstraram a Aline, com seus receios silenciosamente vencidos, o
Miguel imune às dores que o afligiam e principalmente pelo grande Ailton que só
cantou na hora certa, só se mostrou na hora precisa, alevantando de dentro de
todos nós o prazer de sermos vencedores.
Ao chegarmos à entrada do camping de Prado, com o sol
já lançando seus primeiros raios de luz, a Edna como que complementando o que
seu querido marido fizera, nos reuniu para uma prece de agradecimento, quando
por uns bons minutos discorreu sobre toda a nossa viagem, ressaltando o melhor
de cada um de nós em proveito do grupo, e rogando aos céus proteção, rezamos,
todos nós um Pai Nosso, fazendo uma simples mas verdadeira homenagem Àquele que
nos fez vencedores de mais uma etapa da nossa existência.
Faço aqui uma ressalva importante:
‘Quando falo de medos, nem ouso afirmar que todos que ali estavam tinham medo
do desconhecido a ser encontrado, falo sim dos medos que cada um traz velado
dentro de si, sentimentos que ilhados, mortos e amordaçados, vez em quando vêm
incomodar, como diz um poeta contemporâneo’; e/ou aquele normal sentimento
humano de ansiedade ante ao desconhecido.
Entramos no acampamento que
acordava para a vida, cada um rapidinho recolheu-se em sua barraca para um
cochilo, já eram mais de seis horas da manhã do dia 29/Jul/2001, um Domingo,
dia do Senhor, e quem ali estava acampado queria mesmo e aproveitar o dia cujo
sol nascente já prometia banhos calidamente revigorantes no mar saudável e
primitivo.
Que dormir que nada, talvez a
euforia de vencedor, talvez o barulho dos que acordados falavam do pessoal que
chegará pela manhã, não nos deixaram sequer cochilar, e no vai e vem da azáfama
reinante víamos em cada face do amigo ou da amiga, o sorriso feliz do herói ou
da heroína, vencedor de si mesmo e parte de um todo que estava prestes a se
desfazer.
O pensamento agora era o de perda,
após dias e mais dias de esforços, onde todos juntos lutávamos para o mesmo
final feliz, agora estávamos em vias de nos separar, talvez nunca mais nos ver,
ou ver-nos em outras circunstâncias, na polida civilização onde mesmo sem querer,
escondemos a nossa verdadeira face.
Café da manhã, nem me lembro se
tomei, encomendei sim o almoço que faríamos junto com o grupo, conforme o
combinado, onde as despedidas entremeadas dos presentes do amigo culto, e
agrados seriam a tônica mais importante.
O que comemos também nem me
lembro, só me recordo da alegria das trocas de presentes e dos sorrisos de
prazer e satisfação em receber presentes tão simples, mas plenos de riqueza
afetiva. Conchas, caracóis, lascas de pedras modeladas pelo constante ondear do
mar, sei lá mais o que, desde que vindo do mar ou da areia, tudo nos fazia a
todos felizes e de bem com a vida e cada um consigo mesmo. A Edna/Ailton ainda
nos brindaram, com um livrinho com dedicatória dirigida mimosamente a cada um,
no meu exemplar dos ‘Minutos de Sabedoria’ de C. Torres Pastorino, foi escrito
o seguinte: “Mannyboy, é isso aí! São grandes caminhadas para conquistar a
sabedoria! (Ailton e Edna – 29/07/01 – Trekking Porto Seguro – Prado). Ali
velada estava uma promessa de um dia ele e sua fiel esposa Edna, fazerem o Caminho de Santiago de Compostela, do qual falei tão bem
para eles.
De repente o nosso Nei abre sua
cornucópia e de lá tira o presente que fizemos jus por terminarmos a viagem, uma
camisa que trás estampado o percurso do ‘trekking’ Porto Seguro/Prado e os
recibos de pagamento do Ailton/Edna, que na hora fazem questão de me mostrar os
valores que são somente 10% menos do que paguei; e o Ailton ainda me explica
que por ser sócio, ganhou tal desconto.
De fato valeu à pena o que o
grande Ailton fez, pois lá bem no fundo eu ainda tinha algumas dúvidas se havia
ou não sido enganado, e ante minha cara que misturava
estupefação/satisfação/alegria, todos falaram que tudo não passara de uma
simples brincadeira, e que o Miguel já andava doidin pra esclarecer toda a
história, mas a Astrid e sei lá mais quem é que postergavam o desenlace que
para mim foi emocionante.
Entre risos e lágrimas nos
despedimos e das barracas que iam rapidamente sendo desmontadas, cada um com
sua bagagem subimos na Toyota que estava coberta com um toldo, chuviscava vez
em quando, e lá fomos nós para Itamaraju, onde às 16:30 horas pegaríamos o
ônibus semi-leito de volta ao nosso Rio querido, menos o Miguel/Regina, que pegariam
um ônibus no sentido contrário, pois haviam deixado o carro no camping de Santa
Cruz Cabrália.
Ficou então a emoção do
cumprimento de mais uma etapa da nossa vida, que é nada mais que o somatório de
tudo o que fazemos por nós mesmos e por nossos iguais, ao aceitarmos todos como
são sem tentarmos mudar nada de cada um.
-: FIM :-
(:- Fale com o Mannyboy forever young :-)